MAIA SEM ALÇA

Engraçado como tem gente que persiste na inglória missão de tentar nos convencer de que a culpa pelo flagra ao Ricardão é sempre do sofá. Deve ser a mesma preguiça criminosa que move os chamados conservadores que, por serem conservadores, somente precisam conservar. Dá menos trabalho do que tentar mudar as coisas, até porque normalmente se é conservador porque ‘tá bom, tô bem, então que se dane’.

A última pérola (que já deve ser a penúltima, tem mais de meia hora que não me atualizo) saiu da boca do presidente da Câmara dos Deputados, que considera, creio que sem muito compromisso com valores como honestidade e senso crítico, que a justiça trabalhista é a grande culpada pelos milhões de desempregados brasileiros. Seria pra rir, mas o choro sempre vem antes.

Lembrei-me que o pai do cidadão foi condenado por improbidade administrativa (essa expressão tem vários sinônimos), consta que ele próprio figuraria na lista de uma tal Odebrecht e tem muitos coleguinhas com passado e presente tenebrosos, cujas ações apequenam o meu país, sua imagem lá fora, suas finanças, a qualidade de vida e a autoestima de meu povo. Mas o desemprego fica por conta da CLT.

A solução, então, é atacar a justiça trabalhista e respectivos tribunais, que ‘nem deveriam existir’. Vira e mexe a bancada do boi é flagrada com fazendas-senzalas, algumas grifes de pessoas de bem adoram trancar bolivianos em suas oficinas de fundo de poço, mas o ilustre pralamentar acha que o mercado se autorregula e que a existência da CLT é um retrato do atraso nas relações trabalhistas.

Interessante que quando abre a boca pra falar besteira ele sempre faz aquela cara de quem acaba de levar uma dedada . Deve ser ato falho.

Publicado em Acessibilidade e Cidadania | Deixar um comentário

PEQUENA CISMA

Nos meus idos e não tão saudosos tempos de auditor, minha Regional dispunha de um profissional que atuava na supervisão e produção da área de TI, que vem a ser, em bom português, Tecnologia da Informação. Um neologismo legalzinho para o Windows e alguns bacalhaus que usávamos no dia-a-dia. Pau pra toda obra, Mauro era quem eventualmente criava pequenos programas e macros sobre dados que fornecíamos e que serviam de base para a realização do nosso trabalho.

Como todo bom ‘micreiro’ (quer arrumar encrenca com um profissional de TI? Chame-o assim), o cara é bonachão, praticante do deboismo, fã de matemática e tarado por novidades eletrônicas. Enquanto em nossas estações de trabalho tínhamos um notebook, um copo com água e uma porrada de processos, sua estação parecia um carro alegórico, com hd externo, sistema de som 7×1, webcam em formato de dinossauro e sempre a última palavra em programas de edição de vídeo. Também manda bem no powerpoint, o que lhe garante certa moral com o MP.

Um dia ele chegou com uma novidade a que chamou mega-blaster, mas não contou o que era. Só me falou: “negão, pega o celular e liga aqui no meu ramal”. No que tentei entrar no clima da brincadeira, observei que meu celular estava sem sinal. Então ele abriu o jogo e mostrou seu bloqueador de sinais, que funcionava num raio de sei lá quantos metros, o suficiente para que seus alunos (ele é professor de matemática à noite numa faculdade) deixassem de lado suas maquininhas do capeta e prestassem atenção à aula. O detalhe é que a engenhoca foi comprada por R$ 80 no camelódromo.

Uma perguntinha não quis calar: se com um ‘made in China’ o cara consegue bloquear o celular de seus alunos, qual a dificuldade de fazer o mesmo nos presídios?

-o-

O irmão de uma conhecida minha não é propriamente um candidato a santo. Vira e mexe é encanado por pequenos delitos e numa situação dessas se deu um fato que chegou ao meu conhecimento: sua esposa atendeu ao telefone e era ele, do presídio conhecido como Casa de Prisão Provisória, para avisar que tinha sido pego mais uma vez. Passou o número do telefone e pediu para colocarem crédito.

Na verdade o aparelho pertenceria a um PM que servia no local e defendia algum com locações da espécie. Teria sido o mesmo que cobrou pelo colchão que não havia – e deveria haver – na cela, então na primeira visita sua esposa teve que levar uma graninha para o ilustre servidor público. No caso dele o aparelho objeto desse contrato informal de leasing serviu somente para comunicação com a família, mas disse que viu ‘coisa feia’ acontecendo com seu uso. Preferi não perguntar o que seria essa tal coisa feia.

-o-

Minha burrice crônica não me permite afirmar nada, mas às vezes parece que as duas situações aparentemente distintas que relatei podem ter alguma relação.

Mas deve ser paranoia.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

VIZINHOS

Eu até preferiria uma casa com quintal, cachorro e churrasqueira, mas moro em apartamento e acho que não devo me queixar. Meu prédio tem uma área de lazer legal, o apartamento não é ruim e tem aquela coisa de segurança que alguns dizem ilusória mas, enfim, segurança psicológica também é segurança.

Mas como costela vem com osso e casamento vem com sogra, apartamento vem com vizinhos, com um detalhe assaz incomodativo: moram perto demais. Não que eu seja antissocial, mas tem uma fauna nas imediações que simplesmente não vale a pena. Pensa num povo que nasceu pra viver no meio do mato, não suporta barulho nem ao meio-dia, detesta criança apesar de ter algumas e na hora de comprar um apartamento escolheu justo aquele condomínio com uma quadra poliesportiva, duas piscinas, dois quiosques com churrasqueira no térreo e uma molecada infinita na faixa entre os oito e 16 anos. Pois é.

Nem sempre me incomodam, é fato, às vezes até me divirto com as patetices da ala coxa. A bola da vez já há algum tempo é a síndica, a quem chamam carinhosamente de ‘Dilma do condomínio’. Claro que querem o impeachment, claro que acusam sem provas, e a conspiração rola solta no grupo de WhatsApp criado para discutir nossos problemas mais sérios e urgentes. Que eu me lembre, nenhum dos whatsappistas mais frequentes, eloquentes e indignados bate ponto nas reuniões de condomínio (‘não tive tempo’, ‘estava trabalhando’, ‘estava em aula’). Depois postam verdadeiros tratados neoliberais-filosóficos-olavocarvalhenses dizendo que os demais condôminos são todos frouxos, só eles são pessoas de bem que querem mudanças. Pra ser sincero, ‘pessoas de bem’ me metem um medo lascado.

Ultimamente os caras têm se dedicado a me virar a cara, só porque tenho dificuldade em falar a língua deles. No auge daquele movimento cívico-patriótico-sonegador que envolvia um pato inflável na Avenida Paulista entrei no elevador e a discussão já corria solta. O mais inflamado da discussão, advogado, aproveitou minha douta presença e soltou o jargão: “quem defende bandido é o que?” Na falta de uma resposta mais agradável à plateia, mandei “sei lá…advogado?”. O tempo fechou, o silêncio imperou e pelo menos aquele não fala mais comigo até hoje. No máximo um protocolar bom dia. Uma pena, porque gostaria de saber sua opinião atual sobre bandidos.

Mais recentemente fui abordado por um outro vizinho, que me perguntou se de fato eu era bancário. Ante minha resposta positiva (estou aposentado mas ainda me considero bancário, apesar de desde sempre ter preferido ser ministro do STF ou dono da Microsoft), a jugular da figura inchou feito um sapo cururu e ele danou a destilar todas as frustrações de sua vidinha sem graça, encerrando o discurso com a sentença já anteriormente dada pelo Arnaldo Jabor: se não está satisfeito, peça demissão, ninguém é obrigado a permanecer no emprego insatisfeito, nem nós outros temos que aturar essas greves promovidas por sindicatos esquerdopatas. Após esclarecer que a greve decorria de uma proposta de 5% de reajuste salarial ante índice inflacionário acumulado de 10, aproveitei seu próprio mote e lembrei a ele que ninguém é obrigado a ter conta em banco; não tá satisfeito, guarda o dindim no colchão.

Menos um.

Y así la nave va. Até nem sei por que estou falando dessa minoria chata que adora ser infeliz. No mais das vezes é legal curtir a companhia dos vizinhos que apreciam um dedo de prosa e as diversões que o condomínio oferece.

Pensando bem, sacanear os chatos também é divertido. Tá no pacote.

Publicado em Assuntos Gerais | Com a tag , | Deixar um comentário

TOGAS E ASAS

Pois é, meritíssima, li recentemente seu misto de desabafo, crítica e desafio, ao exigir em pronunciamento respeito aos juízes do País. Ok, em condições normais de tempo e temperatura eu juro que concordaria ipsis litteris com sua queixa, principalmente se considerar o interlocutor não identificado mas muuuuito conhecido a quem a senhora em especial se dirigiu. Mas aí me lembrei de algumas coisinhas.

Há cerca de duas décadas eu movi uma ação indenizatória em face de uma construtora, que achou normal atrasar quatro anos a entrega de um imóvel que comprei na planta. A esses quatro anos somaram-se mais 14 de processo, mas o que de fato me chamou a atenção foi a postura do magistrado. Nas audiências eu era ‘cortado’ logo ao início de minhas explanações, mas achei lindo o juiz se debruçar sobre sua bancada para melhor ouvir o advogado da grande construtora do lado de lá. Perdoe a falta de respeito, mas achei esquisito.

Nos últimos anos os escândalos envolvendo o GRES Unidos da Toga e seu costume feio de vender sentenças ocupou os principais jornais do Brasil, e foi reconfortante saber que todos foram devidamente processados e punidos. Até hoje eles devem se morder de remorsos porque, cá pra nós, receber uma aposentadoria integral como punição deve ser pior que as chibatadas que o mulherio recebe no oriente médio por mostrar os cílios sem autorização do marido.

Mas tem gente que não sabe respeitar mesmo, né? Teve até aquela agente de trânsito atrevida, que duvidou da santidade divina do togado sacrossanto e descobriu na prática e no lombo seu atributo da onipotência. Ficou por isso mesmo, né? Pra ele.

Eu poderia falar também daquela juíza do Pará que botou uma moça de 16 anos numa cela com dezenas de taradões (e deu no que deu, com o perdão do trocadilho) e foi punida com dois anos de férias remuneradas, ou do juiz candango que determinou o uso de técnicas de tortura contra perigosíssimos estudantes menores de idade. Coisa linda, né?

Acho que também esse caso deveria ficar por isso mesmo, até porque há o princípio da isonomia que devemos todos defender.

Fato é que soa estranho fazer discurso melodramático exigindo respeito a essa casta. Juízes são pessoas, são cidadãos e cidadãs que devem respeito e obediência às leis e normas, não estão nem devem estar acima delas. Se querem respeito, que façam por merecê-lo, e até me atrevo a dizer que a senhora poderia vigiar melhor seus meninos.

Salvo engano, creio que cabe à senhora defender a justiça como instituição responsável pelo equilíbrio das relações entre as pessoas, sejam elas físicas ou jurídicas, fazer com que decisões sejam tomadas com base no que diz nossa Constituição, de quem é a guardiã.

No momento em que desvia a atenção para atender a uma necessidade cultural e classista a que costumamos chamar de corporativismo, tenha a certeza de que estará falhando em sua missão.

Publicado em Acessibilidade e Cidadania | Com a tag , , | 4 comentários

DEMOCRACIA (QUASE) OBRIGATÓRIA

Achei o primeiro turno assaz divertido, com aquela fauna grotesca expondo suas esquisitices na TV e me tirando a certeza de que gostaria de participar daquilo. Agradeço a pouca propaganda provocada pela falta de incentivo por parte de empresas patriotas.

Mas o que achei legal, mesmo, foi a picanha honesta e a diversidade disponível de marcas de cerveja, todas geladinhas, no churrasco que inventamos na casa dos cunhados em Anápolis. Como nos entregamos aos prazeres da carne no exato dia da votação, o único torra-saco que Eliana e eu enfrentamos foi a necessidade de procurar uma zona (eita!) de votação para justificar minha ausência de Goiânia no dia fatídico.

Eu estava a apenas 45 km de casa, mas a lei me permite optar e resolvi que a picanha e a Heineken prevaleceriam.

Mas o embate por aqui foi para o segundo turno, o que me anima a tentar juntar novamente a rapaziada em torno da churrasqueira. Vai ser meio chato estar em casa dia 30 e ser obrigado a usufruir do meu ‘direito’ de escolher entre o representante de Marconinho Cachoeira e o babão pé na cova. Se eu gostasse de golpe não teria parado com o karatê.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

MORRO DE MEDO DE FICAR ASSIM

Não dá pra enxergar nada de positivo no Roger e no Frota, e a culpa é deles, mas arrisco dizer que gosto de algumas coisas do Lobão no campo musical. “Essa noite não”, “Por tudo o que for” e “Me Chama” são alguns exemplos do que considero momentos felizes na arte da composição. Quanto ao animal político Lobão, acho que é apenas um animal.

Gosto desse equilíbrio que me permite ouvir o que Lobão canta e dispensar o que ele fala. Não preciso ser nazista para gostar de Wagner nem judeu para curtir Mendelssohn, isso me parece simples e definitivo, apesar de não me livrar o lombo de eventuais chibatadas.

Já há uma boa temporada noto que meu pensamento não é muito compartilhado, pelo menos no âmbito do meu rol de relacionamentos. A inteligência, a criatividade, a inventividade e a competência das pessoas frequentemente são desprezadas em razão de divergências ideológicas ou filosóficas. Não acho brilhante mas respeitaria totalmente essa maneira de ver o mundo, não fosse a compulsão que as pessoas têm de expor publicamente seu ódio cego. Em alguns casos acabam gerando a tal vergonha alheia.

Hoje, por exemplo, o grande Professor Pasquale Cipro Neto resolveu deixar um pouquinho de lado os estudos e ensinamentos da gramática para escrever e publicar na Folha de São Paulo uma crônica-depoimento, acerca de suas impressões críticas e da alma após assistir ao show de Caetano e Gil. Pelo visto saiu de lá embevecido, e cravou: “há algum tempo, Caetano disse que o Brasil ainda não tinha feito por merecer a bossa nova. E ainda não fez. Assim como ainda não fez por merecer a grandiosidade de Caetano Veloso e Gilberto Gil”.

Na seção de comentários, a pérola: “Talento mediano engajamento politico comunista alto.” Assim, sem vírgula nem acentos.

O título deste texto é meio falso, na verdade não tenho medo de ficar assim. Tenho é muito medo de gente assim.

Publicado em Assuntos Gerais | Com a tag , , , | Deixar um comentário

AVENTURAS HOSPITALARES

Minha octogenária mãe voltou para casa hoje, depois de 17 dias internada no Hospital Regional da Asa Norte, popular HRAN, de Brasília. Recupera-se de um infarto.

Nesse período abri mão de minhas aulas de francês, do curso de iWeb e do convívio com Eliana e Lucas em prol de um objetivo maior. Nós, os familiares, nos revezamos nas funções de acompanhante e visitantes, buscamos informações, tentamos de alguma forma diminuir o sofrimento de quem só tinha se internado quatro vezes na vida: quando foi mãe e, mais recentemente, após detonar o tendão do mindinho quando a intenção era esquartejar um frango.

Eu já havia notado uma coisinha aqui, outra ali, mas meus momentos de acompanhante, quando permaneci no hospital com ela por 24 horas seguidas, foram muito ricos em informações sobre o funcionamento de um hospital público.

Em linhas gerais a coisa pode ser resumida assim: profissionais maravilhosos nas áreas de enfermagem, nutrição, fisio, fono e assistência social, médicos comprometidos e residentes extremamente gentis, carinhosos e motivados. Na outra ponta, como já notei em 2006 na internação de meu irmão em outro hospital público do mesmo DF, permanecem os administradores de merda.

Fico me perguntando se esses insetos engravatados de fato cursaram algo parecido com administração, quiçá administração hospitalar, ou se procede minha desconfiança de que só estão lá porque pertencem ao partido certo. O fato é que minha obtusa alma não consegue compreender a naturalidade da falta de gaze, medidores de pressão arterial, lençóis e medicamentos num hospital daquele porte. A propósito, já há algum tempo todos os telefones do hospital estão cortados por falta de pagamento.

Anteontem presenciei uma cena memorável: um médico, sentindo-se impotente e absolutamente revoltado com algo que não tive coragem de perguntar (mas imagino que seja a absoluta falta de condições de trabalho para exercer aquela sua mania besta de tentar salvar vidas), falou para um residente, talvez seu orientando: espero que sua geração não seja covarde como a minha.

Não o vejo como covarde, mas como teimoso. Covarde é o administrador, que sabe que faltam materiais de toda sorte, até humanos, e mesmo assim não bota a boca no trombone com medo de levar cartão vermelho. Interessante o senso de dignidade desse tipo de gente.

Acho inútil discorrer sobre os artigos 196, 197 e 198 da Constituição Federal, já que deveriam ser de conhecimento geral dessas pessoas que cuidam da saúde no Brasil.

A coisa ganha ares de normalidade quando vemos que o atual ministro da Saúde é engenheiro civil e investigado por corrupção e peculato. 

Publicado em Sem categoria | 1 comentário

VIRA-LATAS

“Nenhuma desculpa é necessária”. Esses garotos vieram se divertir, competiram sob enorme pressão. Existe uma investigação. Vamos dar um tempo para esses garotos. São atletas magníficos. Lochte é um dos maiores do mundo.”

Tão brilhantes, educativas e edificantes palavras partiram da boca do Sr. Mario de Andrada, diretor de Comunicação da Rio2016 e, nas horas vagas, baba-ovo de americano.

A história é a seguinte: o tal Lochte e outros dois ou três atletas da natação ianque saíram para a balada, na volta para a Vila Olímpica por algum motivo passaram num posto de gasolina, também por motivos desconhecidos se desentenderam com pessoas dali e começaram uma operação de destruição do local, só se safando após pagar pelos prejuízos que provocaram. Funcionários disseram aos órgãos de imprensa que eles estavam devidamente mamados.

Ocorre que, contando com a sempre prestimosa colaboração de vira-latas complexados do lado de cá, inventaram uma historinha-clichê de assalto ao taxi que ocupavam, para justificar o fato de terem chegado para dormir completamente duros e já com dia claro. Imagens gravadas de câmeras da vila mostraram sua chegada, cada um com seu celular à mão, relógios no pulso, andar meio trôpego e aparentemente nenhum abalo psicológico pelos ‘momentos de terror’ que tinham vivido. Nossos assaltantes terceiro-mundistas andam meio decadentes. Onde já se viu assaltar gringo e não notar que havia celulares, óculos ray-ban e relógios para levar pro barraco?

De quebra, os atletas magníficos só resolveram prestar queixa umas 10 horas depois. Provavelmente acharam que nossa polícia seria algo como um Sargento Garcia dos filmes do Zorro e iria aceitar sua versão sem desconfiar de nada. Ledo Ivo engano.

Resumo da ópera bufa: a história do assalto era caô e três dos elementos foram impedidos de embarcar de volta à civilização, tendo sido conduzidos, para desespero da alegre galera da Rio2016, de volta à delegacia. 

Então a coisa agora ficou meio esquisita pra quem acha que o Brasil é uma terra sem leis, porque achei um artigo do Código Penal que define bem a cagada dos carinhas:

Art. 340 – Provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter verificado:
Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

Claro que nem a multa vão precisar pagar, porque são rapazes bem-nascidos da metrópole, mas pelo menos já passaram alguma vergonha. A galera do COB vai livrar a cara deles e, ao chegar aos States, é provável que vão dar entrevista ao USA Today ratificando o que já disse hoje uma repórter de lá: exagero.

Olhando pelo lado do pretenso exagero, acabei me lembrando de dois fatos que foram considerados normalíssimos lá na terra deles.

O primeiro caso ocorreu em 2004 no aeroporto de Miami, onde os brasileiros Mizael Cabral e seu amigo Daniel Correa, de 27 e 29 anos, cometeram a suprema imprudência de falar a palavra “bomba” no momento em que sua bagagem era revistada. Falaram brincando, foi constatado no local que não havia bomba nenhuma, mas foi suficiente para serem detidos. A brincadeira lhes rendeu dois meses e três dias de cana em presídio federal.

O segundo caso envolveu o também brasileiro João Neto, que em junho de 2015 viajou a Houston, Texas, para visitar a filha. Ocorre que resolveu depositar alguns dólares adquiridos numa agência do Banco do Brasil de Recife, que foram identificados como falsificados. As autoridades americanas desceram o cacete, pai e filha sofreram durante cerca de 10 dias um pesadelo horrível, até que o BB finalmente reconheceu formalmente que era responsável.

Mas a repórter do USA Today acha a atitude das autoridades policiais brasileiras exageradas.

Os caras nascem, crescem e ficam velhos sob a mesma doutrina de superioridade, então essa questão cultural deles que acha normal até promover guerra no país dos outros me irrita, mas eu convivo com isso. 

Já o complexo de inferioridade, essa mentalidade pequena de colonizado que orienta o pensamento de cretinos como esses da Rio2016 me entope os culhões. 

Publicado em Sem categoria | 2 comentários

DE CABECEIRA

Foi por absoluto acaso que conheci o Jairim, ‘minimo bão’ lá das Três Lagoas. Nos idos de 2008 cliquei num link na página do UOL que remeteu a uma crônica sua, falando sobre as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência no seu dia-a-dia. Apesar da seriedade do assunto, o que mais me encantou foi a forma leve e divertida com que ele discorria sobre o assunto, vez por outra me arrancando boas risadas.

De imediato busquei informações sobre o cara, descobri que era jornalista da Folha de São Paulo, cadeirante por sequelas de pólio, torcedor do Santos e blogueiro. Simplesmente um craque. 

Acho que no mesmo dia li todas as suas postagens e dali em diante me tornei seguidor. Daí pra deitar falação na parte de comentários foi um pulo, um belo dia recebi uma visita dele no meu blog e foi nascendo uma amizade que acabou envolvendo os demais paroquianos do ‘blog do Jairo’. Viramos uma turma, unida e homogênea, composta por pessoas que nunca haviam se encontrado pessoalmente mas que viram naquele canal uma boa oportunidade de trocar experiências, falar de si, soltar os cachorros, se divertir e fazer tudo aquilo que as boas amizades permitem.

O mundo virtual passou a ficar, senão incômodo, pequeno demais. Foi quando rolou a ideia de um encontro em São Paulo, onde morava a maioria. Os demais membros da confraria eram goianos, paranaenses, mineiros, potiguares, gaúchos, cariocas, além da galera de fora, como EUA, Nova Zelândia e Portugal. Uma turma não muito convencional: uns não andam, outros não ouvem, tem os que não enxergam, os que têm dificuldades para falar ou se movimentar. Tem até aqueles sem deficiência, vê se pode!

Assim como o Amauri e a Sinhá da Camiranga, imagino que sempre joguei no time dos despirocados das ideias.

Acho que foi em 2009 que nos conhecemos pessoalmente. Foi no Shopping Pátio Paulista, mais especificamente no restaurante Mr. Jack, que passou a ser nosso quartel-general a partir de então. Aquele monte de cadeiras de rodas, cães-guia e pessoas ‘diferentes’ deve ter sido meio louco para os frequentadores do shopping, principalmente porque estávamos afrontando todos os estereótipos ligados às pessoas com deficiência: ninguém pedia esmola ou tinha cara de coitadinho, muitos seguravam uma caneca de chope, crianças brincavam como dava e lhes convinha, o papo fluía do futebol à filosofia e quem resolvia vazar pagava a própria conta.

Combinamos de repetir os encontros pelo menos uma vez por ano, e temos conseguido. Alguns até viraram vídeo, como esse aí feito em 2011:



Pra cego ver e surdo ouvir: o vídeo mostra fotos produzidas durante o encontro e traz ao
fundo a música Imagine, interpretada por Eva Cassidy e legendas com mensagens diversas.

Pois é, quem tem tanta história pra contar (e produz tanta história pra ser contada) acaba escrevendo um livro, né não?

Desde meados de novembro passado o Jairo vem nos enrolando com essa história de livro, assunto misterioso e sem detalhamento, a gente numa curiosidade doida e nada do homem abrir o jogo. Até que em abril ou maio deste ano trocamos mensagens inbox cujo assunto era o lançamento do livro, previsto para fim do mês passado. Logicamente eu tinha claro qual seria o conteúdo, mas permaneceu o mistério quanto a aspectos como contexto, abordagem e título. Por questões mercadológicas orientadas pela própria Folha, Jairo pediu segredo até segunda ordem.

Enfim, feliz feito pinto no lixo comprei passagens e reservei hospedagem ao receber sinal verde para o lançamento, confirmado para dia 28 de junho. 


Pra cego ver: imagem do convite para o lançamento do livro, contendo informações sobre data
e local, além de desenho reproduzindo a capa principal.

De repente a livraria ficou com ares de Congonhas, a fila dando voltas onde antes havia corredores. A noite bombou, Jairo deve ter ficado malacabado da mão boa após autografar centenas de exemplares. Como eu fui um dos últimos, minha dedicatória ficou parecendo receita de gardenal emitida durante um terremoto.

O primeiro livro é apenas mais um capítulo na trajetória dessa figura admirável, que segue provocando e reagindo, escrevendo e questionando. Salvo alguns poucos momentos de desânimo frente a empedernidas mentes burras, antigas e com validade vencida, o jornalista Jairo Marques dedica seus dias a buscar a inclusão das pessoas com deficiência em todos os níveis da vida em sociedade, e creio que pode celebrar o que já conquistou que, em breve resumo, se constitui de imensas melhorias nas atitudes das pessoas e, por consequência, na diminuição de barreiras até arquitetônicas, que redundam logicamente na atenuação dos perrengues de quem precisa de uma rampa, de um cardápio em braille, de quem precisa utilizar vagas exclusivas, de quem gosta de cinema e teatro e precisa de legendas e ou audiodescrição. Claro que a conquista mais visível é sua imensa legião de fãs, que também fazem as vezes de fiscais da acessibilidade.

Como eu esperava, foi uma leitura mais que prazerosa. O texto de meu amigo é sempre verdadeiro. Às vezes chocante, outras vezes divertido, mas sempre forte e verdadeiro. Jairo hoje tem mais motivos para suas tentativas de melhorar o mundo porque, além de sua eterna deusa Thaís, agora também tem a seu lado a pequena Elis, recém-chegada e dona de um sorriso cativante como o da mãe e olhos amendoados e espertos de quem sabe ter nascido num berço do bem. 

O cara é um craque. Acho que já falei isso lá em cima.

Em tempo: recomendo demais a leitura de Malacabado. Quem se interessar pode acessar o próprio sítio da Folha clicando aqui e encomendar seu exemplar. 

Publicado em Acessibilidade e Cidadania | 4 comentários

TRABALHA, NEGO!

Como já há bons quatro anos a aposentadoria me coloca num eterno sábado, o que automaticamente me transformou no motorista e office-véio da casa, é inevitável e sempre intrigante a sensação de algo parecido com inveja quando a madame sai de férias. 

Esse fenômeno anual se inicia amanhã.

Se, por um lado, vou ter por uns dias Eliana solamente para mi, por outro Lucas e eu precisaremos suportar um elemento agregado não muito agradável aos amantes da boa vida: quando Eliana sai de férias, a empregada também vaza. Aí entram em campo aquelas proibições inerentes à natural crueldade feminina, que não nos permite mais simplesmente jogar o prato na pia ou deixar a cueca no chão do banheiro. Ainda tem aquela coisa de passar pano no chão da casa toda, colocar a colcha na cama e parar de mijar fora do vaso.

As férias nem começaram e a madame já está falando em faxina ampla, geral e irrestrita, inventário de bugigangas que já deveriam ter sido colocadas na lixeira (o que inclui minha chave inglesa Stanley de 6 polegadas, em aço anodizado, que comprei há alguns anos e nunca usei, mas vai que), conserto da prateleira do banheiro e da saída de água do tanque que está arreganhada feito os olhos da mulher do Cunha, limpeza do chão atrás do armário da televisão “que tá um nojo”, organização das minhas caixas de óculos e cabos USB. Admito minha estafa antecipada.

Claro que ganharemos o mundo, como sempre fazemos nas férias. Desta vez vamos a Ouro Preto e adjacências, e não escondo a vergonha ao confessar que jamais estive por aquelas bandas históricas. Para o Lucas terá um ingrediente a mais, porque ele está estudando com mais profundidade a história de Tiradentes. 

A questão é que nossa viagem só se inicia dia 04, então de 27 de junho a 03 de julho seremos peões de dona Eliana.

A semana promete.

Publicado em Assuntos Gerais | 1 comentário