A REFORMA

Nas últimas semanas eu andei mais chato que o Richard Clayderman interpretando Amado Batista. Normalmente o Dorival Caymmi perto de mim seria um cara estressado, mas tive que dar a ele alguns dias de licença prêmio, porque a coisa andou meio punk por aqui.

O problema começou com o mofo nos armários embutidos dos banheiros. O marceneiro confirmou nossa desconfiança de que era caso de perda total, e retirou os armários. Eliana e eu resolvemos radicalizar: ao invés de simplesmente encomendar novos armários, que tal dar uma reforma geral nos banheiros?

Primeiro foi o banheiro social. Já comecei meio mal porque queria substituir a porta convencional e absurdamente estreita (60 cm), por uma de correr, para permitir a entrada de uma cadeira de rodas. Que graça tem eu convidar um amigo cadeirante pra detonar umas ampolas aqui em casa, se na hora do xixo vai ser puro sufoco? Não deu sequer para substituir a porta por uma mais larga, porque a instalação elétrica estava logo ali na beirada, e havia uma coluna de seilaoquê que não me permitiria alargar o nicho da parede. Aquela coisa: o puto do construtor não fez o apartamento para a mãe dele morar.

No total dois banheiros, idênticos na planta mas que possuem uma diferença pequena nas dimensões, coisa de centímetros. Logo no primeiro dia isto aqui se transformou numa réplica reduzida da casa da família Adams, sem as teias de aranha. Um caos, escudado na trilha sonora produzida por uma criação do capeta chamada maquita, que também se encarregou dos efeitos visuais, na forma de um pó fino capaz de fazer o menino maluquinho* querer se mudar pra cá.

Eliana é alérgica; eu não era e fiquei. Depois que a dupla do barulho se mandava eu tentava dar um trato no chão de todo o apartamento antes que a madame chegasse do trabalho (sim, alguém tem que trabalhar nesta casa, ora pois!), porque aquele pozinho excomungado é igual a pernilongo, sempre acha uma brecha. Vedei todas as portas com panos umedecidos, e mesmo assim tinha pó até na cozinha. Além de emporcalhar a casa toda, o sacana também faz curva.

Tem uma coisa que me intrigou: como é possível uma pessoa estudar durante cinco ou seis anos, e cometer erros tão grosseiros na hora de calcular a metragem necessária de pisos e revestimentos? Cada banheiro tem algo parecido com 16 m2, a arquiteta conseguiu errar tudo. Após ser alertado pelo profissional que contratei para fazer o serviço, telefonei para a loja que me cobrou os tubos pelo material, projeto incluso. No início tentaram me convencer de que não houve erro, mas tiveram que reconhecer que faltaram três peças de piso e sete metros lineares de revestimento. “Tudo bem, é só vocês me mandarem o material que falta”. Que babaca que eu sou… a resposta do lado de lá foi “tem um probleminha de estoque, precisamos pedir à fábrica, no Rio Grande do Sul. Deve chegar em 20 ou 30 dias”. Budabariu nóis tudo!

Não sei se por vergonha ou por milagre, as peças que faltavam chegaram em cinco dias. A esta altura já estava sendo trabalhado o banheiro da suite, já que o que ainda faltava assentar no social seria afixado embaixo da bancada, sem maiores prejuízos além do estético. Até já tinha sido colocado o box de blindex, e o banheiro ficou tão chique e bonito que dava pena mijar nele.

O trabalho na suite me deu uma canseira adicional, porque o armário possui portas de correr. Para vedá-lo e proteger as roupas lá de dentro, tive que improvisar uma cortina de papel kraft fino, presa por fita adesiva. Um trabalho que provavelmente até boliviano da boca do lixo de São Paulo recusaria ganhando bem. A cama e os criados mudos eram protegidos por lençóis, coisa mais linda, parecia caminhão de palestino. E tome poeira e 200 decibéis da tal maquita.

Como não há mal que sempre dure, ao cabo de quase 15 dias (a previsão era seis), os dois banheiros ficaram prontos. O profissional que fez todo o trabalho, Delmir, junto com seu sobrinho-ajudante-aprendiz John Kennedy – aqui em casa não entra qualquer um -, é fera. Cobrou caro, mas estou para ver trabalho tão meticuloso e com resultado final de encher os olhos como o daqui.

Pretendemos, lá por 2015, substituir o piso de todo o apartamento, seguindo a tendência pequeno-burguesa de assentar um porcelanato. Ainda não definimos a época mas, considerando a subestimada capacidade de um reles banheiro de 16 metros quadrados produzir tanto pó, já temos a certeza de que durante as obras estaremos morando provisoriamente em outro lugar.

* Nada a ver com o personagem do Ziraldo

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