A INICIAÇÃO

Após longo período de desencontros, eis que descubro meu primo Delson no Facebook, e já tivemos um arremedo de retomada de contato, interrompido quando ele foi para o Rio de Janeiro em busca de um terreno fértil para sua arte, e eu me mandei para Goiânia com um objetivo menos nobre: assumir um emprego público conquistado por concurso. Na época morávamos em Brasília e estávamos na faixa dos 20 anos.

Passamos a adolescência juntos, aliás morávamos juntos e, na companhia de meu falecido irmão, aprontamos todas. Vivíamos um período de ditadura militar, nada nos era permitido e simplesmente não aceitávamos aquilo. Então, era um tal de cantar Geraldo Vandré, produzir ou simplesmente assistir a peças de Plínio Marcos e Leilah Assumpção, correr da polícia e seus cachorros nos protestos de rua. Acredite quem quiser, era uma senhora diversão.

Mas nem tudo eram conflitos ideológicos, também tinha o rock pauleira do Deep Purple, Led Zeppelin e toda aquela sonzeira que nos aliviava a alma e enfurecia nossos pais. Em agosto de 2008 publiquei no meu antigo blog um post sobre meu primo e a saudade que sinto dele. Nosso reencontro, ainda que virtual, me refrigerou o espírito e penso que cabe republicar o texto do artigo publicado:

Meu primo Delson aniversariou esta semana e eu simplesmente me esqueci.  Só me lembrei agora há pouco.  Eu estou convencido de que nunca na história deste País houve alguém tão miolo mole como eu para as datas comemorativas.  Querido primo, se te serve de consolo, há uns 10 ou 11 anos eu só me lembrei de que era meu aniversário quando meus pais telefonaram, tipo seis da tarde.

Estava há alguns minutos balançando na rede e olhando pro nada quando me lembrei de seu aniversário, e me lembrei também de uma passagem engraçada de nossas vidas, quando morávamos juntos em Brasília.  Estava eu no auge dos meus quatorze ou quinze anos, cheio de amor prá dar.  Cheio de espinhas, também. Virgem. 

Onde hoje fica Valparaiso, no km. 7 da rodovia Brasília-Belo Horizonte, situava-se um recanto aprazível também conhecido como casa das primas, largamente frequentado pela galera do DF.  Meu primo resolveu me levar lá e, pior, eu topei.  Não me lembro de como chegamos, se tinha ônibus ou fomos de taxi – esta segunda hipótese praticamente descartada pela dureza em que vivíamos – o fato é que de repente eu estava frente a frente com o desconhecido. 

Era um conjunto mal distribuido de casas, estilo faroeste, com as tradicionais luzes vermelhas na porta, cada qual com seu boteco particular e as mulheres circulando ou dançando, outras sentadas ao lado ou no colo dos frequentadores que tomavam cerveja (elas só iam de campari) e meu primo foi à caça para me tirar do atraso. 

Ele fez tudo: achou a criatura, conversou, negociou, pagou, me apresentou, e eu ali, morrendo de vergonha, sem saber onde botava a mão, não conseguia falar nada, mais sem graça que humorístico do SBT.  A impressão que eu tinha era de estar do tamanho de um penico, e meu maior objetivo naquele momento era não ser notado por ninguém.  Não vou dizer que me esqueci da fisionomia da moça, acho que nem cheguei a mirá-la.  Ela me apanhou pelo braço e, desviando daquele monte de gente, rumamos para a área de abate, e até então minha passagem pelo local tinha sido marcada pela discrição. 

Só que meu primo não poderia deixar passar em branco; quando estávamos ganhando o corredor que dá para os quartos ele falou para quem quisesse ouvir: CUIDA DIREITINHO, QUE ESSE É VIRGEM! O aniversariante desta semana se livrou por pouco de ser assassinado naquela noite.

Em outubro estarei no Rio a passeio com a família, e finalmente vou reencontrar meu primo que, assim como eu, passou por maus bocados em passado recente no quesito saúde. Mas como sempre fomos desaforados, vencemos quem estava a fim de nos ferrar.

Beijo, Delson, até lá.

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2 respostas a A INICIAÇÃO

  1. Amauri Kravaski disse:

    Negão, vc só esqueceu de comentar que o nome de batismo de quem fez sua iniciação era João, aliás, antes da transformação era conhecido por João Grandão……..kkkkkkk
    PS: NUNCA morei em Brasília e conheço a história do João Grandão contada pelo seu primo Delson….

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