A TURMA DO BARRIL

De vez em sempre eu dou motivos pra me me chamarem de velho, apesar de em momento algum concordar com isso. Nasci antes da maioria, é fato, mas meu motor turbo 5.5 insiste em não ratear e sigo firme na valsa, no deboismo, no deboche, na alegria, no chope e no tarja preta.

Velho nunca serei. Digamos que sou um acumulador de experiências, e não deleto nenhuma, mesmo as piores. Mas acho delicioso quando me vêm lembranças de décadas atrás, que motivaram algum sufoco no momento e rendem boas risadas hoje. Ontem à noite a usina do capeta me remeteu a uma dessas lembranças.

Eu ainda vivia sob antiga direção, imagino que o presidente era o Sarney, então estávamos por volta de 1989. Meu amigo Senhor X (não vou identificar o cara pra não comprometê-lo) me telefonou convidando para irmos à inauguração de um barzinho, chamado Barril 85, que trazia a suprema novidade de uma chopeira com 100 metros de serpentina e chope gelado o suficiente para ter uma fina crosta de gelo na tona. O paraíso em forma líquida.

Meu cunhado e parceirão de farra Júlio, que morava conosco na época, também participou da aventura. Quando tocou a buzina lá fora nós nos aboletamos no Gol do Senhor X, mas não fomos direto para o barzinho. Primeiro fizemos uma parada técnica num recanto assaz aprazível, também conhecido como Casa das Primas, e fiquei surpreso com a desenvoltura de meu amigo. Ali permanecemos por cerca de meia hora, foi apenas uma visita de cortesia.

Quando saímos eu achei que finalmente iríamos degustar o já famoso e ainda desconhecido chope, mas nossa viagem precisou fazer mais um pouso de emergência. Senhor X teve crises de saudade de uma prima galeguinha em outro local igualmente pecaminoso, foi recebido com festa pelas ali residentes e a esta altura faltava pouco para que eu rendesse loas ao mestre supremo das artes do malfeito. Vida que segue, lá fomos nós para o Barril 85.

Como era de se esperar, casa lotada. Tivemos que aguardar pelo menos meia hora, até que vagasse uma mesa. Vagou justo aquela em frente à porta do banheiro, que já demonstrava alguns sinais de fadiga e exigia providências urgentes. Aguentamos firmes, tudo pelo chope a zero grau, a vida é curta e bela.

Valeu cada segundo de espera. A cada gole nosso espírito etílico meio que encarnava o Guga e soltávamos gemidos no melhor estilo “Huãããããã…”. Para acompanhar rolou bolinho de bacalhau, frango a passarinho, filé a palito e sei lá mais o que. Na hora de ir embora, Senhor X nos deu a chave do carro e pediu que o aguardássemos lá; disse que éramos seus convidados e que se encarregaria da conta. Assim fizemos.

De repente, eis que meu amigo surge na escuridão em alta velocidade, entra no carro e dá a partida, gritando o tempo todo: “bora, bora, bora!”.

Desde o início ele tinha a intenção de sair sem pagar, e nos botou nessa roubada. Eu sempre fui meio cismado com essas coisas, então nunca mais voltei àquele bar. Dias depois a cunhada dele veio comentar comigo sobre isso, disse que ele tinha sentido alguma dor na consciência e contou para ela. Foi uma espécie de delação premiada, só que a versão dele nos impôs mais responsabilidades do que de fato tínhamos.

A propósito, o carinha hoje é um respeitável senhor convertido. Virou pastor e, claro, continua meu amigo. Por que não?

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4 respostas a A TURMA DO BARRIL

  1. Leandro Kdeira disse:

    Estou começando a acreditar na história que o Amaury espalha que você é caloteiro.
    Abraço, amigo.

  2. Amauri disse:

    Caloteiro desde 1989, vou fazer uma placa em sua homenagem.

  3. Cristiano disse:

    Ri alto!!!

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