A VERSÃO DELA

Livro CarlenaRecebi pelo correio há alguns dias o livro da gaúcha Carlena Weber, com o sugestivo título ‘A minha versão da história’. Tá, não se deve julgar um livro pela capa nem por qualquer outra característica subjetiva, mas uma miscelânea de sorrisos, caras e bocas com um título que passeia entre o instigante e o irreverente já representa certa vantagem, quando o objetivo é chamar a minha atenção.

Tomei conhecimento da obra por meio de comentário em rede social feito pelo Evandro Bonocchi, paratleta pra lá de radical que disse ter se deliciado com os relatos da moça. De imediato procurei saber como adquirir o livro, entrei em contato com a autora e esperei tipo uma semana para, enfim, descobrir o que tinha deixado meu amigo tão emocionado. 

O enredo é punk porque, na verdade, trata-se de autobiografia que se inicia com algumas lembranças esparsas da adolescência um tanto normal de Carlena, mas o ponto central e início real da ‘trama’ ocorre com um desastre automobilístico horroroso, com consequências para toda a vida que têm em comum a palavra perda: seus pais, seu primo com a namorada e seus movimentos do pescoço para baixo.

Um prato cheio pra pieguice e coitadismo, né? Pois é, mas não esperem isso no livro.

Como num grito do tipo ‘eu sou normal’, Carlena discorre sobre as diversas fases por que passou nos primeiros momentos, desde o inevitável período de luto até a percepção da possibilidade de levar uma vida ativa e saudável sobre rodas, passando pelos perrengues das diversas adaptações a que teve que se submeter. A narrativa é por vezes crua, chocante e corajosa, há momentos em que ela expõe situações íntimas em tese constrangedoras, mas a leveza de sua pena é de tal maneira onipresente que acaba por incluir o leitor na lista de seus melhores amigos.

Alguns trechos com páginas pretas e letras brancas integram o livro, deixando uma sensação de parênteses para uma conversa ao pé do ouvido. Imagino que tenham sido pinçados de um diário ou caderno de anotações que Carlena tenha decidido incluir na publicação. O efeito, às vezes didático, outras vezes assumindo o caráter de confidência, dá um molho à narrativa e não permite que descambe para tecnicismos que poderiam tornar a leitura cansativa.

Foi gostoso acompanhá-la nas duas visitas que fez ao hospital da rede Sarah, em Brasília, e parece que foi ali que ela achou seu norte, que observou nos outros a naturalidade de ser uma pessoa com deficiência. O tempo aos poucos foi lambendo suas feridas, até que rolou um estágio e experimentou a aventura de trabalhar num ambiente com poucas adaptações e diversos desafios. 

Então, lembrou-se da faculdade que tinha abandonado após o acidente. Por que não? Seu acanhamento inicial rolou escada abaixo e ela não só concluiu a graduação como fez uma pós, conseguindo permanecer na área escolhida.

A tentação de contar a história é grande, mas o direito de fazê-lo é exclusivo da autora. Acho que até já abusei um tantico, então deixo o resto por conta da curiosidade de vocês. O livro pode ser adquirido via site da Livraria Cultura ou, para quem gosta de exemplares autografados, o canal é o perfil da gaúcha no Facebook, bastando digitar Carlena Weber e fazer as tratativas inbox.

Como toda pessoa ‘normal’ eu tenho minhas esquisitices: quando em casa só leio deitado na rede, em honra aos meus 50% de sangue pau-de-arara, e ao terminar a leitura de um livro de que tenha gostado muito eu sinto um misto de saudade e gratidão. Doideira? E se eu arrematar revelando que antes de colocar o livro na ala de lidos da estante eu costumo dar um beijo nele?

À parte alguns pecadilhos editoriais, que poderiam ter sido evitados mediante uma revisão de maior qualidade, A Minha Versão da História é um livro às vezes divertido, às vezes terno, outras tantas vezes chocante, mas sempre prazeroso. Uma história cuja protagonista desconstrói (destrói?) conceitos, valores e paradigmas.

Carlena, eu beijei você.

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