BRIGA DE CACHORRO GRANDE

Há algum tempo vêm rolando no Facebook algumas enquetes bobinhas, cuja análise das respostas diz quem você foi em vidas passadas, que super-herói você seria e coisas assim. Ontem a enquete do momento prometia revelar qual o país em que a pessoa deveria ter nascido. Não perdi meu tempo, mas me chamou a atenção a euforia de um rapaz que descobriu que na verdade deveria ser norueguês. Sei lá se ele é tarado em bacalhau, gosta de neve o ano todo ou tem tendências suicidas como a galegada de lá, mas estava feliz da vida e orgulhoso com a ‘descoberta’.

Meu impulso inicial foi concluir que o carinha estava achando o Brasil tão chato que o melhor mesmo era ter nascido na Noruega. Mas aí imaginei que é exatamente gente como ele que tem transformado o país numa coisa muito chata.

O problema é que essa legião que faz o país ficar chato já passou da fase do modismo e avança para a cronificação. Boa parte é composta de inocentes úteis, incapazes de uma análise crítica e por isso mesmo repetidores de mantras contidos em publicações desavergonhadas, mas o que de fato preocupa são os dois polos caolhos que só contribuem para que não se chegue a lugar algum.

De um lado os da situação, que se recusam a enxergar que estamos em pleno processo de apodrecimento da decência. Oportunamente falarei de forma mais esmiuçada sobre o assunto, com base em minha vivência como auditor, já que o assunto exige detalhamentos que me levariam a escrever um tratado, mas por ora basta dizer que temos, sim, corrupção endêmica praticada no presente e no passado recente e, enquanto membros do Executivo já identificados nas investigações – além dos Sarneys, Renans e outros insetos-, permanecerem isentos de responsabilização, teremos a certeza de que reina a impunidade neste triste e belo país.

Mas essa serpente tem duas cabeças, uma em cada ponta. Do outro lado reina absoluta a galera do ‘quanto pior, melhor’, que até ensaiou a excomunhão do Chicão, nosso papa velho de guerra, mas parece que a prudência mandou pisar no freio.

Essa turma padece da síndrome do pó de arroz e resolveu tentar a sorte no tapetão, que ficou conhecido como 3o turno nas últimas eleições. Levantaram suspeitas (todas insuspeitas) sobre a manipulação das urnas eletrônicas que elegeram Dilma, mas inocentaram as urnas que elegeram o Alckmin, uma parcela mais atentada levantou a bandeira de um golpe militar pós-moderno, a que deram o prosaico nome de Intervenção Militar Constitucional (lindo!) e de fato demonstram acreditar que é a salvação da lavoura. Reza a lenda que os milicos sempre estiveram acima de qualquer suspeita, todos são honestos e só mataram os que mereciam ser assassinados, como bem esclareceu o músico de QI alto sem bagagem Roger Moreira, no entrevero que teve com o escritor Marcelo Rubens Paiva. O plano b é o impeachment da presidente da República, cujo processo, segundo asseguram as autoridades facebookianas, pode ser iniciado sem maiores problemas, porque ela é feia e eu não gosto dela.

Estes são os dois tipos dominantes, que obviamente dão origem a subtipos.

Não se trata, porém, de reles confronto de idéias. O que observo com mais preocupação é o ódio que permeia as manifestações de lado a lado, como se não nos bastassem as guerras entre aquelas quadrilhas sustentadas por agremiações esportivas e que levam a alcunha de torcidas organizadas.

Dia desses, por ter me posicionado a favor de uma melhor distribuição de renda e maior taxação das grandes fortunas, ganhei um chapéu de burro e crachá de petralha. Até fiquei feliz, porque acho que seria menos honroso jogar no time da galera do bolsa empreiteiro, mas continuo achando que essa polarização é de todo desnecessária. Eu defendo as cores da chamada ‘esquerda caviar’, e fiquei sabendo disso pela boca de um ilustre representante da ‘direita pão com ovo’. Vai entender, né?

Pela primeira vez exponho abertamente minhas convicções e preocupações. Fiquei na moita não por medo, mas porque os fatos do dia-a-dia me indicam que não vale a pena discutir com radicais de esquerda e de direita, em boa maioria simples gado que não tem lastro cultural ou histórico que permita ir além das palavras de ordem.

Este assunto não se encerra por aqui.

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