EMPOBRECIMENTO ILÍCITO

Ainda me resistem na memória as doces lembranças dos oito anos seguidos em que meu contracheque sofreu de imutabilidade crônica, nos idos daquela versão de tripanossoma cruzi de beição, também denominada governo FHC.

Eu vivia com medo da síndrome de Estocolmo, parecia que a qualquer momento poderia passar a achar normal ou até mesmo gostar de ser esfolado vivo, porque tinha a consciência de que integrava a turma conhecida como a parte mais fraca da corda. Era batata: se a inflação aumentava, e ela sempre aumentava, congelem-se os salários; se o superávit primário não era alcançado, congelem-se os salários; se o beição engravidar uma repórter da Globo, pau nos salários. Nunca me perguntaram o que eu achava daquilo, talvez porque fossem pessoas finas e diferenciadas que não gostavam de palavrão, mas eu dizia assim mesmo. Ou nos artigos que escrevia, ou na digitação da urna. A vingança era meu rivotril.

De repente, não mais que de repente, eis que me livro do encosto da Sorbonne e sou contemplado com sucessivos reajustes acima da inflação concedidos por Luiz Inácio, a quem hoje carinhosamente chamam de ‘nove dedos’, numa demonstração de apreço, educação e respeito às pessoas com deficiência. A economia ia bem.

Mas o sinal amarelo acendeu semana passada, quando o ministro – aquele do Bradesco, me explica essa, Dilma! – começou a falar em aumentar a arrecadação. Meu brioco, já sensível e escolado por seus profundos conhecimentos de história recente, logo matou a charada: não vão aumentar a arrecadação, só diminuir custos. Ora, o ministro trabalhou um tempão no FMI e também ocupou altos cargos no governo FHC, deveria eu esperar uma mentalidade heterodoxa?

Não deu outra: já anunciaram a proposta de adiar, de janeiro para agosto ou outubro de 2016, o reajuste dos funcionários públicos, provavelmente vão botar ABS no salário mínimo e as aposentadorias só vão subir se for no telhado.

Eu até poderia sugerir, para aumentar a arrecadação, que algum iluminado do Planalto estudasse formas de dar um fim na isenção fiscal das igrejas e do pagamento de dividendos de empresários, além de passar a taxar as chamadas grandes fortunas. Poderia, não fosse a consciência de que o Congresso Nacional foi tomado de assalto pelas bancadas conhecidas como BBB: da bíblia, do boi e da bala, que estão longe de atitudes patrióticas, existem para defender seus próprios interesses. Tem também uma filial da FIESP dando ordens por lá.

Essa grita contra a ressurreição da CPMF tem razão de ser: a arrecadação do chamado imposto do cheque será suficiente para evitar o aumento das alíquotas de imposto de renda pessoa física. Mas para quem está mal intencionado a CPMF é de todo danosa, porque não há como sonegar. Então, para a alíquota entre 0,2% proposta pelo governo e a de 0,38 pedida por governadores, quem recebe R$ 10.000,00 de salários por exemplo pagará por mês R$ 20 e R$ 38, respectivamente. Agora, quem leva R$ 500 mil e sonega tudo (porque sonega mesmo) a CPMF é considerado um atestado de incompetência.

Meu consolo é que, se Dilma cair, quem assume é o Temer ou, quem sabe, o Cunha.

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6 respostas a EMPOBRECIMENTO ILÍCITO

  1. Alex disse:

    Engraçado como os tralhas se fazem de vitimas. Fernando Henrique foi dos maiores estadistas deste Brasil, ainda qye com idéias com algum ranço de seus tempos de comunista. Compará-lo ao 9 dedos chega a ser um atentado, mas todo tralha é craque nisso.

    • Rogério Veloso disse:

      Respeito sua opinião, Alex, ainda que diametralmente oposta à minha. Não sei sua idade e seu grau de instrução, tampouco conheço seus critérios para definir um grande estadista, mas já escrevi sobre FHC em outras oportunidades e neste momento não estou com muito saco para ser didático. Então, digamos que acho FHC feio e, por isso, não gosto dele.
      O que de fato me incomodou foi um termo que você usou, “tralhas”, para definir a mim e a princípio os meus iguais. Petralhas eu até acho legalzinho e aceito (coxinha já acho ofensivo demais), mas tralha dá aquela impressão incômoda de algo descartável, coisa que não me considero. Teria sido erro de digitação?
      Você é e sempre será bem-vindo aqui para trocarmos idéias. Só não tolero baixaria e discurso de ódio, ok? Abraço.

  2. Cynthia disse:

    Amigo Rogério

    Concordo em gênero, número e grau com você!
    Os servidores públicos elegeram o PT como o demônio e deliram imaginando que com Aécio estariam em melhor situação! Realmente esqueceram dos anos sem aumento no governo FHC!

    • Rogério Veloso disse:

      Que bom receber comentários aqui no cafofo! Cynthia, na qualidade de servidor público (sempre entendi que minha função era servir ao público, mesmo sendo bancário) passei por diversos presidentes, começando com João Figueiredo. Nenhum deles de fato deixou saudades, nem Luiz Inácio, porque a galera que o PT nomeou para cuidar da empresa e do meu fundo de pensão é digna de filme de terror. Esse negócio de base aliada é complicado, a gente acaba tendo um Moreira Franco ou um Prisco Vianna como vice-presidente, fazer o que né? Mas, enfim, após a eleição do Lula eu pude voltar a planejar minha vida, porque passei a receber reajustes na data-base com índice de ganho real, o que significava recuperação de perdas salariais.

  3. Alfredo Karras disse:

    “Fernando Henrique foi dos maiores estadistas deste Brasil”. Ele deve estar digitando a partir de uma realidade paralela, na qual FHC não vendeu tudo o que pôde. Ainda assim não explicou o quê fez desse FHC paralelo um grande estadista.

    • Rogério Veloso disse:

      Alfredo, como diz o paulista eu levei na ‘maciota’. Já há algum tempo resolvi não mais me aborrecer com o que considero excesso de nada nas idéias e opiniões alheias, melhor deixar quieto. Eu sei o que tive que enfrentar, e seguramente não foi coisa de estadista.

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