FAMÍLIA UNIDA

Juntando os tios, tias, sogras e a meninada eles somam 14 pessoas. Resolveram alugar uma casa, grandona, de frente pro mar. Alegria. No primeiro dia a festa era uma unanimidade aparentemente à prova de conceitos e teorias rodriguianos: churrasco, cervejada, com o funk e a sofrência ditando os rebolados até altas horas.

Amanheceu e foram à praia já com o dia alto, se sentindo injustiçados por uma ressaca braba, mas os meninos não queriam nem saber, quem mandou beber aquilo tudo?

A matula que levavam era composta do iogurte dos catarrentos, a banana do juninho (só duas) que tem intolerância a tudo que termina em ‘ose’, aquele monte de ray-ban falsificado, alguns litros de suco Maguary e muita, muita cerveja. Aí, entre um queijo coalho daqui e uma (argh!) ostra dali, bateu aquela vontade de comer algo mais substancioso. Foi o começo do festival de beicinhos.

Uma das sogras queria peixe, a outra tem nojo. Só isso já serviu pra dividir a galera em Gaviões da Fiel e Mancha Verde, porque clã é clã e ‘a minha mãe nunca sai de casa’/’a minha também não’. A paz parecia ter retornado após perceberem que dava para conciliar o peixe com bife, para desgosto de uma tia velha que, não contente em ser pobre de marré-marré-marré, há alguns anos resolveu abraçar a vida vegetariana. Teve que se virar com moqueca de cenoura, açaí e crepe.

Só que um cunhado resolveu fazer as contas de quanto poderiam gastar por dia e viu que já estavam à beira do passivo a descoberto. Então opinou por pedirem apenas a mandioca cozida, ao que o outro cunhado retrucou dizendo que só comia mandioca frita. Mais discussão, um lado venceu e a parte perdedora resmungou algo sobre uma certa primeira sílaba. Nem pareciam mais aqueles ‘brothers’, que na véspera tomaram conta da fraldinha na churrasqueira na mais perfeita harmonia.

À noite a amizade já não era aquela coisa absoluta, mas a convivência seguia sem traumas.

Resolveram fazer um passeio no dia seguinte, daqueles em que um micro-ônibus apanha a turma de manhã e só devolve à noitinha. ‘Resolveram’ foi força de expressão, porque as sogras e os meninos impuseram aquele programa de índio, nem aí se os pagantes teriam que cometer uma pedalada fiscal pra bancar os 40 paus por cabeça. A conta acabou ficando ainda mais alta, porque uma das sogras, um neto e a mãe do outro tiveram um piriri dos diabos e o jeito foi chamar quatro táxis e voltar. “Bem que eu falei que aquele camarão azul tava esquisito”.

No outro dia só foram à praia para dar um mergulho e voltar, o dinheiro do dia tinha sido gasto na véspera. Fizeram um almoço meia boca por lá mesmo, à noite rolou sanduba.

A casa foi alugada por uma semana, pagaram um sinal um mês antes e teriam que quitar o restante até o terceiro dia de estada. Nova encrenca, porque de repente baixou o espírito de contador no cunhado mais velho, que resolveu falar em cota-parte. O que seria meio a meio passou a ter valor maior para o outro, porque “a despesa extra com táxi foi por causa da sua sogra e da sua mulher”. De nada adiantou retrucar que a sogra e a mulher eram, na prática, a mãe e a irmã dele. Foi curto e grosso: “dane-se, foi você quem trouxe”. Ante o argumento de que sua esposa não bebe e que a maioria das cervejas foi ele quem destruiu, deu de ombros: “não bebeu porque não quis; tava aí!”

A esta altura, os únicos que ainda se falavam eram os meninos. Os cunhados só se comunicavam por meio das respectivas esposas e se referiam ao outro como ‘aquele bostinha’ e ‘pé inchado’, uma sogra chamava a outra às escondidas de ‘véia cagona’ e o clima ficou pesado. Só não foram embora antes porque acharam “desaforo pagar tão caro e deixar tudo de mão beijada para aquela gentalha”.

De alguma forma a epopeia da família lembrou o Supremo Tribunal Federal.

Sim, aquele.

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