GZUIS, ME LEVA!

A dinâmica do mundo é algo a ser exaltado, principalmente quando os fatos ocorrem no Brasil. Eu cheguei a imaginar que teria atingido o ápice do testemunho de bobagens e molecagens ao ouvir as declarações daquele secretário de turismo do Rio de Janeiro, que justificou a não realização de obras de acessibilidade (dentre outras) porque as pessoas com deficiência não eram o público-alvo da copa do mundo. Duvida que alguém tenha falado isso? Então, escuta:

Anteontem recebi um telefonema que pôs por terra minha impressão otimista de que tínhamos chegado ao fundo do poço. Do outro lado da linha estava minha amiga Aramita, que é mãe do Lucas, cego de nascença. Lucas deve ter hoje 20 ou 21 anos, e o conheço desde quando era um garotinho de cinco ou seis, quando fiquei admirado ao vê-lo cuidar do jardim de casa. Depois fiquei bestificado ao testemunhar o moleque detonando os adversários no Mortal Combat e outros videogames. A partir daí passei a achar banal que ele fosse torcedor doente do Goiás, grande frequentador do Serra Dourada, que tivesse passado no vestibular da Universidade Federal de Goiás para o curso de Ciências da Computação, colado grau, passado no concurso para o Ministério Público e resolvido cursar Direito atualmente. Desde sempre é assistido pelo mesmíssimo oftalmologista.

Trabalhei com Aramita por mais de uma década, e o tempo se encarregou de me nomear uma espécie de procurador do Lucas. Redigi um monte de petições, cartas, ofícios, protestos, xingamentos, sempre que havia alguma agressão ao moleque, na forma de discriminação ou negativa de direitos. Então, ela se acostumou – e parece que gosta – a ver minha jugular inchada de raiva, e aí se deu ao trabalho de me ligar para relatar o mais recente ocorrido.

Como o Lucas é tarado por futebol, é claro que quis assistir a um ou mais jogos da copa, de preferência do Brasil. A Fifa exige um laudo médico como prova de deficiência (não sei se é oferecido desconto ou a exigência serve simplesmente para alocação de cadeiras), então Aramita ligou para o senhor doutor para solicitar o laudo. Passado algum tempo, ligou para saber se já estava pronto. A secretária do médico disse que ele queria falar com ela.

Para sua grande surpresa, o médico disse que não poderia fornecer o laudo, porque não faz sentido uma pessoa cega querer assistir a uma partida de futebol. Aramita argumentou que o carinha adora futebol, frequenta estádios desde pequeno e, talvez para se livrar da insistência dela, o médico emitiu um laudo em que atesta que o Lucas é cego. Ponto. Também não precisava de mais.

Nós, brasileiros, já estamos acostumados com semi-analfabetos idiotas ocupando cargos de destaque nos vários níveis de governo, bastando para a nomeação a filiação ao partido certo. Pode ser o caso do secretário de turismo do Rio de Janeiro, vez que em pouquíssimos minutos ele assinou verbalmente o próprio atestado de pobreza cultural e espiritual. 

Mas eu fiquei matutando: como é possível um médico acompanhar seu paciente por duas décadas e não conhecê-lo? Mais do que isso, como pode um oftalmologista decretar a morte social das pessoas de quem, em tese, cuida? Seria um atestado de incompetência? De desumanidade?

O fato é que o cara é considerado um bambambam em sua área, mas parece denunciar o próprio paradoxo, por não ter o saudável hábito de enxergar o mundo à sua volta. Estuda muito sobre íris, glaucoma, pupila, papila, córnea, mas nada sabe sobre o ser humano. Ele é muito pior do que aquele secretário boçal.

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5 respostas a GZUIS, ME LEVA!

  1. Amauri Kravaski disse:

    Sr. Rogério, será que o Sr. poderia me fazer um favor????? Mandar esse OCULISTA dar meia hora de fiofó????? faça isso por este pobre amigo, que não poderá ir até Goiânia, pra fazer pessoalmente. Só para desestressar. Brigadim viu!!!!!!

  2. aramit disse:

    Boa noite Negão, como você sempre nos ajudou com a luta da famosa inclusão do Lucas, fiquei com muita vontade de fazer sua jugular inchar. A minha se tivesse como TERIA EXPLODIDO. Qdo o oftalmo disse que não poderia dar o relatório para ele apresentar no momento de pegar o ingresso para ir assistir jogo da COPA, pois não tem como um cego assistir jogo no estádio, sinceramente, baixou vários sentimentos, não sei explicar, senti tristeza, frustação, descrença, desanimo… pensar que qtos deficientes visuais ele já consultou e NAO CONHECE o dia a dia de um que ele atende desde os 07 dias de nascido. Como pode orientar pais, deficientes… Foi demais. Espero ter oportunidade para explicar a ele que deficiente visual TAMBÉM E GENTE, que gostam de pescar, viajar, comer, tomar banho, escovar dentes.,,, Bjs, muito obrigada por tudo. Admiro muito vc.

    • Rogério Veloso disse:

      Coisa fofa, nem tivemos tempo e oportunidade para conversar, né?
      Esse episódio do médico me deu a certeza de que eu vou morrer sem ver tudo. Hoje em dia há uma corrente no meio médico que defende o atendimento humanizado. É claro que não dá para falar em atendimento sequer decente numa unidade do SUS, mas no instituto onde o médico do Lucas atende basta querer. Não sei se será possível pelo lado pessoal, já que jegue velho tem muita dificuldade para aprender, mas eu sou um otimista, minha jugular que o diga. Afinal, após o inchaço vem sempre uma reação, né não?
      Felizmente vocês conseguiram o que queriam, não sem se aborrecer, mas conseguiram. Não perca a oportunidade de tentar abrir os olhos (não estou sendo irônico) desse médico boçal, mostre a ele que reparar na capacidade e no modus vivendi de seus pacientes não dói. Beijão.

  3. Jucilene Braga disse:

    Meu querido amigo. Antes quero parabenizar pelo belo blog. A gente não tinha sido apresentado e então agora já era. Virei fã e viciada. Puxa, que problemão isto agora, rsrsrrrs. Bem, referente a este médico que diz que cuida das pessoas que não vê direito e daqueles que não vê nada, chego a seguinte conclusão: além de ser um completo tapado, na verdade quem precisa de enxergar de verdade é ele, pois não sabe nada de pessoas, das suas capacidades e pelo jeito não sabe tantas outras coisas. Infelizmente tem gente que quanto mais estuda, mais burra fica. Eu sempre disse que se enxergasse seria médica com certeza, mas pelo que vejo, é lamentável, pois esta classe em sua grande maioria pensa ser semi Deus ou o próprio Deus da Terra. Eles tem a falsa ideia de que sabem de tudo, mas na verdade, sabe de nada inocentes….. Este fato me fez lembrar de quando estava grávida do meu segundo filho. Estava eu no pronto socorro cheia de dor por conta de uma infecção urinária quando a plantonista vira e me pergunta como eu faria para cuidar do meu filho. Não tive dúvidas. Lhe respondi que cuidaria como qualquer mãe que ama seus filhos. Não precisava ver para cuidar do meu filho e na verdade eu estava ali para resolver outra questão e não de como faria para cuidar do meu filho. Ela ficou sem graça e me atendeu como tinha que ser. O mais engraçado era que ao buscar o meu acompanhante para que *pelo menos alguém consciente, pelo menos um sem deficiência), se espantavam mais ainda, porque meu acompanhante também era cego, afinal se tratava do pai da criança, rsrsrsrsrss. Olha, eu adoro me deparar com estes quebra de paradigmas. Morro de raiva, mas faço engolir cada letra pronunciada. Abração meu amigo. Que honra ter um amigo assim como você.

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