O HOMEM DA LEI

Admito que minha primeira impressão foi péssima, mas se resumiu à questão meramente estética: aquela cara de Kojac com câibra no cu, os olhos esbugalhados à Collor de Melo e uma aparente falta de traquejo no ato de sorrir me lembraram minhas noites de menino apavorado, quando me escondia sob o cobertor após ver um filme com Boris Karloff.

Já a segunda impressão veio quando ele deitou falação. Também foi péssima.

Acho perigosamente preconceituoso criticar o cara pelo fato de, segundo consta, ter advogado para o Cunha e para empresas ligadas ao PCC. Nosso ordenamento jurídico garante a todo e qualquer um o direito à defesa e ao contraditório, resguardada a presunção de inocência. E a defesa de acusados é feita por advogados, que não são, necessariamente, simpatizantes dos atos praticados por seus constuintes, menos ainda membros de eventuais facções criminosas para as quais atuam. Simples assim: bandido é bandido, réu é réu e advogado é advogado.

Mas o que me assusta no cidadão é sua demonstrada tendência à truculência, com o agravante de ser seletiva. Parece que ele é temido, porque poucos se arriscaram a criticar as operações comandadas à PM paulista de reintegração de posse de colégios tomados por alunos secundaristas. Muitos foram carregados, outros arrastados pelo chão, cabendo registrar que essa ação não foi respaldada por ordem judicial. Agora, ocupando cargo de âmbito nacional, imagino que a coisa pode ficar feia em âmbito nacional.

Em recente entrevista à Folha de São Paulo, o novo Ministro da Justiça Alexandre de Moraes fez algumas afirmações que me deixaram ligeiramente descrente. Destaco essa aí:

“O senhor integrou o governo de SP, do PSDB, que sofre críticas de não deixar nada ser investigado. Barraria CPIs e seria ligado ao MP. Como vai garantir que investigações no plano federal vão continuar?
Eu fui membro do MP de São Paulo. Ele não é ligado ao PSDB, é independente, não faz vista grossa e é um exemplo para outros MPs do país. Investiga vários casos. A única diferença em relação ao governo federal é que o governo de SP é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalos.”

No passado bem recente o MP de São Paulo fez questão de mostrar que é PSDB até a medula, até mesmo naquele episódio da falta de acessibilidade nas escolas públicas, onde tudo foi perdoado e concedido um prazinho de 15 anos para acabar com os prejuízos aos alunos deficientes, que foram causados por criminosa omissão na gestão do picolé de chuchu. De quebra o ministro afirma que o governo de SP é honesto, por isso é menos investigado. Imagino que o homem assiste aos Teletubbies.

Sempre considero a possibilidade de estar errado ou cometendo uma injustiça. Então, procurei opiniões de terceiros (evitei a Veja e a Globo), encontrei várias e destaco um artigo de 13 de maio último no site Jusbrasil – mas publicado em vários outros -, assinado pelo jornalista, escritor e fotógrafo Mauro Donato:

“A presença de Alexandre de Moraes no Planalto não dá conforto a ninguém que preze pela democracia e pelos direitos humanos. Se quiser um raio-x rápido de sua forma de atuar observe os acontecimentos recentes no Centro Paula Souza, ocupado por estudantes até a semana passada.
Moraes enfiou sua polícia lá dentro sem mandado algum, desrespeitou um acordo judicial, desencadeou a reintegração de posse sem a presença de representantes do Conselho Tutelar, descumpriu o Estatuto da Criança e do Adolescente. Um espetáculo sombrio de autoritarismo, ilegalidade e beligerância.
O receio de que a repressão vista em São Paulo nos tempos atuais se amplifique é realista. A PM comandada por Moraes tem uma postura nitidamente parcial. Protege os acampados da Fiesp e ataca meninas democratas no MASP; Ataca bombas e atira balas de borracha contra estudantes da PUC e dá abrigo aos pró-impeachment do Mackenzie; espanca adolescentes que protestam contra Alckmin pela educação mas assiste de braços cruzados a taxistas contrários a Fernando Haddad praticarem um quase linchamento. Todo esse modo de operar tem um viés claro, um recado mais do que implícito.”

Normalmente eu sou um otimista. No momento não estou.

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3 respostas a O HOMEM DA LEI

  1. Cynthia disse:

    Concordo com você Rogério! Apenas, mesmo ciente que todo cidadão tem direito à defesa e que seu advogado não é, necessariamente, simpatizante de sua conduta, não vejo com bons olhos advogados de “trastes” como Cunha. Um advogado pode recusar um cliente…então…
    Sobre o novo Ministro da Justiça não tenho palavras…só medo….

  2. Luciana Felício disse:

    Também estou pouco otimista!!!!

  3. Sinha disse:

    Olha Negao, nao sou eu que sou pessimista. O mundo e que ta pessimo. Especialmente ai no Brasil

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