O MOÇO VÉIO

Pode até ser que eu acabe levando porrada qualquer dia desses, mas tem coisas que não aguento ver e ficar calado. Falta de civilidade é uma delas. Já há muito tempo venho lutando contra moinhos de vento ambulantes, que teimam em desrespeitar o direito e o espaço alheios na hora de estacionar. Principalmente nos supermercados e shoppings, o que tem de carro irregularmente estacionado em vagas reservadas a idosos e a pessoas com dificuldades de locomoção é uma grandeza. Se pego no pulo chamo a atenção, normalmente com menos finesse do que eventualmente determinem possíveis regras sociais.

Mas teve um episódio em que apelei para o nonsense, e teve um efeito ótimo. Sábado à tarde, estacionamento do shopping aqui perto de casa, após passar um porrão de tempo procurando uma vaga eu caminho em direção à entrada principal. Eis que noto um casal num carrão bonito, que manobrava para estacionar numa vaga exclusiva para idosos. Tudo certo, não fosse o fato de que o carinha ao volante não tinha 25 anos, pouca coisa a mais do que a mocinha ao seu lado. Resolvi falar a língua deles:

– Pô, véio, tu estacionou na vaga dos véio, véio! O estacionamento tá lotadão, se chegar um véio procurando uma vaga dos véio não vai encontrar, porque tu tá usando a vaga dos véio. Faz isso não, véio! Quando tu ficar véio tu usa a vaga dos véio, mas por enquanto deixa as vagas dos véio pros véio, véio!

É bom destacar que o carinha demonstrou reconhecer que fez caca, mas ficou de cara amarrada porque a possível namorada estava chorando de rir. Ligou novamente o motor e saiu a procurar uma vaga para chamar de sua.

Ainda não me chamaram de inspetor de quarteirão depois que me aposentei, e devo dizer que ficarei assaz puto se ou quando isto acontecer. Não pela alcunha em si, mas pela limitação que ela impõe. Inspetor de quarteirão é coisa para quem vestiu pijama; eu sou inspetor da cidade onde vivo, dos aeroportos que tolero, do supermercado e do banco que ajudo a enriquecer, dos hotéis onde me hospedo e dos prédios que frequento, sejam públicos ou não. Estou juntando umas fotos do monte de crateras que o merda do prefeito atual transformou a cidade de Goiânia, e em breve devo fazer algumas considerações neste cafofo.

Por enquanto vou me divertindo tirando fotos pornográficas como as abaixo:

Uma esquina aprazível para um cadeirante ou carrinho de bebê: um Mitsubishi estacionado em curva, para dar cobertura a um Sandero, que cismou de avançar sobre a rampa na calçada.

Uma esquina aprazível para um cadeirante ou carrinho de bebê: um Mitsubishi estacionado em curva, para dar cobertura a um Sandero que cismou de avançar sobre a rampa na calçada. O poste logo ali é cortesia da prefeitura.

Preferido por 10 entre 10 madames, esta não menos perua foi flagrada estacionada em frente a uma agência do Bradesco, lindamente torta sobre a vaga para cadeirantes. Nem tentem me convencer que se tratava efetivamente de uma pessoa com deficiência; a forma com que o carro foi estacionado denuncia a vergonha alheia.

Preferido por 10 entre 10 madames, esta não menos perua foi flagrada estacionada em frente a uma agência do Bradesco, lindamente torta sobre a vaga para cadeirantes. Nem tentem me convencer que se tratava efetivamente de uma pessoa com deficiência; a forma com que o carro foi estacionado denuncia a vergonha alheia.

Mas eu me diverti mesmo foi quando meu mano velho Billy Saga se juntou a uma turma, que se intitula Coletivo Labuta, e juntos trataram de responder com irreverência e constrangimento a agressão diária que sofrem, agressão esta que não existiria se houvesse um mínimo de respeito humano, senso de vida em coletividade e amor fraterno. A questão é que, mesmo com os avanços que se fazem notar, ainda há muitas barreiras arquitetônicas e culturais a transpor, como o vídeo mostra. Daí a validade da atitude tomada pela turma, em pleno carnaval de 2014:

A única coisa que me aborreceu foi não ter sido convidado.

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4 respostas a O MOÇO VÉIO

  1. Amauri Kravaski disse:

    Caríssimo Negão (caríssimo porque tu custa muito msm), tamo juntu nessa, Dona Encrenca já me disse que vou morrer de tiro ou porrada qualquer dia desses de tão folgado que eu sou. Dou esporro em jovem, velho, mulher, homem tô pouco me lixando, parou no lugar errado e eu tô perto…fu….nhanhô….kkkkkk. A única coisa que acho é que alguma ONG deveria fazer um adesivo (desses com cola que cola mesmo) em A4 tipo figurona de album gigante, com uns dizeres bem legais e distribuir para que se grude no vidro dianteiro, do lado de fora destes palhaços; seria educativo e vergonhoso e não seria ilegal como furar os 4 pneus (como eu adooooro fazer), ou riscar o carro todo, etc.

  2. Amauri Kravaski disse:

    Negão, furar só um não temgraça, o cabra troca rápido e vai embora. Eu coloc 4 pregos, um embaixo de cada pneu e qdo o(a) cabra sai……os pneus furam sózinhos…..não tenho culpa…..

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