O HOMEM DA LEI

Admito que minha primeira impressão foi péssima, mas se resumiu à questão meramente estética: aquela cara de Kojac com câibra no cu, os olhos esbugalhados à Collor de Melo e uma aparente falta de traquejo no ato de sorrir me lembraram minhas noites de menino apavorado, quando me escondia sob o cobertor após ver um filme com Boris Karloff.

Já a segunda impressão veio quando ele deitou falação. Também foi péssima.

Acho perigosamente preconceituoso criticar o cara pelo fato de, segundo consta, ter advogado para o Cunha e para empresas ligadas ao PCC. Nosso ordenamento jurídico garante a todo e qualquer um o direito à defesa e ao contraditório, resguardada a presunção de inocência. E a defesa de acusados é feita por advogados, que não são, necessariamente, simpatizantes dos atos praticados por seus constuintes, menos ainda membros de eventuais facções criminosas para as quais atuam. Simples assim: bandido é bandido, réu é réu e advogado é advogado.

Mas o que me assusta no cidadão é sua demonstrada tendência à truculência, com o agravante de ser seletiva. Parece que ele é temido, porque poucos se arriscaram a criticar as operações comandadas à PM paulista de reintegração de posse de colégios tomados por alunos secundaristas. Muitos foram carregados, outros arrastados pelo chão, cabendo registrar que essa ação não foi respaldada por ordem judicial. Agora, ocupando cargo de âmbito nacional, imagino que a coisa pode ficar feia em âmbito nacional.

Em recente entrevista à Folha de São Paulo, o novo Ministro da Justiça Alexandre de Moraes fez algumas afirmações que me deixaram ligeiramente descrente. Destaco essa aí:

“O senhor integrou o governo de SP, do PSDB, que sofre críticas de não deixar nada ser investigado. Barraria CPIs e seria ligado ao MP. Como vai garantir que investigações no plano federal vão continuar?
Eu fui membro do MP de São Paulo. Ele não é ligado ao PSDB, é independente, não faz vista grossa e é um exemplo para outros MPs do país. Investiga vários casos. A única diferença em relação ao governo federal é que o governo de SP é honesto. E um governo honesto é menos investigado porque não tem escândalos.”

No passado bem recente o MP de São Paulo fez questão de mostrar que é PSDB até a medula, até mesmo naquele episódio da falta de acessibilidade nas escolas públicas, onde tudo foi perdoado e concedido um prazinho de 15 anos para acabar com os prejuízos aos alunos deficientes, que foram causados por criminosa omissão na gestão do picolé de chuchu. De quebra o ministro afirma que o governo de SP é honesto, por isso é menos investigado. Imagino que o homem assiste aos Teletubbies.

Sempre considero a possibilidade de estar errado ou cometendo uma injustiça. Então, procurei opiniões de terceiros (evitei a Veja e a Globo), encontrei várias e destaco um artigo de 13 de maio último no site Jusbrasil – mas publicado em vários outros -, assinado pelo jornalista, escritor e fotógrafo Mauro Donato:

“A presença de Alexandre de Moraes no Planalto não dá conforto a ninguém que preze pela democracia e pelos direitos humanos. Se quiser um raio-x rápido de sua forma de atuar observe os acontecimentos recentes no Centro Paula Souza, ocupado por estudantes até a semana passada.
Moraes enfiou sua polícia lá dentro sem mandado algum, desrespeitou um acordo judicial, desencadeou a reintegração de posse sem a presença de representantes do Conselho Tutelar, descumpriu o Estatuto da Criança e do Adolescente. Um espetáculo sombrio de autoritarismo, ilegalidade e beligerância.
O receio de que a repressão vista em São Paulo nos tempos atuais se amplifique é realista. A PM comandada por Moraes tem uma postura nitidamente parcial. Protege os acampados da Fiesp e ataca meninas democratas no MASP; Ataca bombas e atira balas de borracha contra estudantes da PUC e dá abrigo aos pró-impeachment do Mackenzie; espanca adolescentes que protestam contra Alckmin pela educação mas assiste de braços cruzados a taxistas contrários a Fernando Haddad praticarem um quase linchamento. Todo esse modo de operar tem um viés claro, um recado mais do que implícito.”

Normalmente eu sou um otimista. No momento não estou.

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ZAP

Vira e mexe rola um entrevero entre órgãos policiais ou do judiciário com operadores de telefonia e internet. Não é só aqui. Há pouco tempo o FBI se envolveu numa briga dos infernos com a Apple, porque viu negado seu pedido de desbloquear o aparelho celular de um conhecido terrorista. A justificativa foi a defesa da privacidade individual.

Semana passada, pela segunda vez, o acesso ao aplicativo whatsapp foi bloqueado em todo o Brasil por determinação de um juiz de Sergipe, porque os responsáveis pela empresa gestora não forneceram informações que poderiam levar ao desbaratamento de uma quadrilha de traficantes. A empresa sustenta que não dispõe desse tipo de informação, porque as conversas não são gravadas em lugar nenhum.

Hoje li aqui e ali que algumas autoridades do judiciário teriam ordenado o bloqueio de determinado perfil no Facebook, sob pena de bloquear todo o Facebook. Desta feita a resistência se baseia na não tipificação de crime por nenhuma autoridade judicial, além de o pedido ter partido de um grupo de vereadores que estariam se sentindo desconfortáveis com críticas recebidas.

Sobre essa história de Facebook, vereadores e seus críticos, eles que se entendam. O Facebook, ao contrário do Whatsapp, deixa rastros facilmente identificáveis a qualquer tempo, mesmo se as postagens forem apagadas. Então, o judiciário se mete se for provocado naquilo que lhe cabe, desfaz os nós entre supostos agressores e agredidos e não tem que aporrinhar a galera responsável pela rede social. É um caso doméstico, briguinha de comadres.

Mas essa crítica relativa ao bloqueio do zatzat, em se confirmando a alegação dos próprios proprietários do aplicativo de que não fica vestígio algum, me parece apressada e perigosa. Simplesmente porque o tal aplicativo neste aspecto demonstra ser perigoso, e muito.

O mundo já anda de tal maneira conturbado, que dar sopa para o azar evidencia sinais de gula no quesito problemas. Imagino um sequestro consumado, que tenha sido todo tramado pelo aplicativo e depois apagadas todas as conversas. Imagino também os ataques de pedófilos que agem na sombra.

Sob esse prisma o whatsapp me parece um ótimo esconderijo para o malfeito, uma promessa de salvo-conduto para bandidos de todos os tipos, inclusive os engravatados da espécie capez capuz capaz de roubar merenda ou jogar bombas e balas em boates.

Posso estar assumindo uma posição incômoda de causídico do capiroto, mas acho que tem que aparecer um machão mais peitudo do que os outros para chamar o molequinho Zuckerberg num canto, num clássico estilo Yustrich, e falar na lata: ou bota backup nessa bagaça ou vaza.

Sei que minha meia dúzia de três ou quatro leitores não vão me esculachar porque me amam, e espero que reflitam sobre esse barril de pólvora divertido que também me pegou, já que tenho conta e participo de vários grupos. Mas que é perigoso, é.

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A TURMA DO BARRIL

De vez em sempre eu dou motivos pra me me chamarem de velho, apesar de em momento algum concordar com isso. Nasci antes da maioria, é fato, mas meu motor turbo 5.5 insiste em não ratear e sigo firme na valsa, no deboismo, no deboche, na alegria, no chope e no tarja preta.

Velho nunca serei. Digamos que sou um acumulador de experiências, e não deleto nenhuma, mesmo as piores. Mas acho delicioso quando me vêm lembranças de décadas atrás, que motivaram algum sufoco no momento e rendem boas risadas hoje. Ontem à noite a usina do capeta me remeteu a uma dessas lembranças.

Eu ainda vivia sob antiga direção, imagino que o presidente era o Sarney, então estávamos por volta de 1989. Meu amigo Senhor X (não vou identificar o cara pra não comprometê-lo) me telefonou convidando para irmos à inauguração de um barzinho, chamado Barril 85, que trazia a suprema novidade de uma chopeira com 100 metros de serpentina e chope gelado o suficiente para ter uma fina crosta de gelo na tona. O paraíso em forma líquida.

Meu cunhado e parceirão de farra Júlio, que morava conosco na época, também participou da aventura. Quando tocou a buzina lá fora nós nos aboletamos no Gol do Senhor X, mas não fomos direto para o barzinho. Primeiro fizemos uma parada técnica num recanto assaz aprazível, também conhecido como Casa das Primas, e fiquei surpreso com a desenvoltura de meu amigo. Ali permanecemos por cerca de meia hora, foi apenas uma visita de cortesia.

Quando saímos eu achei que finalmente iríamos degustar o já famoso e ainda desconhecido chope, mas nossa viagem precisou fazer mais um pouso de emergência. Senhor X teve crises de saudade de uma prima galeguinha em outro local igualmente pecaminoso, foi recebido com festa pelas ali residentes e a esta altura faltava pouco para que eu rendesse loas ao mestre supremo das artes do malfeito. Vida que segue, lá fomos nós para o Barril 85.

Como era de se esperar, casa lotada. Tivemos que aguardar pelo menos meia hora, até que vagasse uma mesa. Vagou justo aquela em frente à porta do banheiro, que já demonstrava alguns sinais de fadiga e exigia providências urgentes. Aguentamos firmes, tudo pelo chope a zero grau, a vida é curta e bela.

Valeu cada segundo de espera. A cada gole nosso espírito etílico meio que encarnava o Guga e soltávamos gemidos no melhor estilo “Huãããããã…”. Para acompanhar rolou bolinho de bacalhau, frango a passarinho, filé a palito e sei lá mais o que. Na hora de ir embora, Senhor X nos deu a chave do carro e pediu que o aguardássemos lá; disse que éramos seus convidados e que se encarregaria da conta. Assim fizemos.

De repente, eis que meu amigo surge na escuridão em alta velocidade, entra no carro e dá a partida, gritando o tempo todo: “bora, bora, bora!”.

Desde o início ele tinha a intenção de sair sem pagar, e nos botou nessa roubada. Eu sempre fui meio cismado com essas coisas, então nunca mais voltei àquele bar. Dias depois a cunhada dele veio comentar comigo sobre isso, disse que ele tinha sentido alguma dor na consciência e contou para ela. Foi uma espécie de delação premiada, só que a versão dele nos impôs mais responsabilidades do que de fato tínhamos.

A propósito, o carinha hoje é um respeitável senhor convertido. Virou pastor e, claro, continua meu amigo. Por que não?

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MOSAICO

Normalmente eu evito mostrar a maneira com que vejo as coisas, já que também normalmente minha maneira de ver as coisas bate de frente com o senso comum e, sabe como é, o diferente gera reação e nem sempre – ou quase nunca – tenho saco pra ficar discutindo. Não pretendo ganhar discussão alguma, porque não vejo discussão como disputa. Se não penso como a maioria, ajo conforme acho que devo e o botão do foda-se tá bem ali.

Mas, enfim, como nosso Brasil varonil é um dos maiores produtores de pérolas do planeta, vira e mexe aparecem coisas mais ridículas que bonequinho de papai noel pendurado em sacada. Aí eu me vejo credenciado a sair do casulo e deitar opinião. Às vezes nem dou opinião alguma, só alimento o fogo da bagaça. 

Sorry, cambada, a culpa é deles.

Essa onda de Star Wars, O Despertar da Força, por exemplo – sem entrar no mérito da qualidade do filme que ainda não vi, mas até que pretendo -, já chegou lotada de cenas prosaicas de babaquice explícita, que inclui gente fantasiada daqueles bichos esquisitos do filme (e desfilando na rua, pode?) e uma pesquisa publicada no UOL do tipo “Que líder você é na empresa: Darth Vader, Luke, Leia ou Yoda? Faça o teste”. Imagino que ter um ‘líder’ assim na empresa é caso pra suicídio, mas vá lá, numa prova de que Deus existe eu já estou aposentado. Mas é pra levar isso a sério?

Eu me divirto um bocado com esses palermas e suas impagáveis palermices, o que afasta de pronto qualquer insinuação de que não tenho senso de humor.

As opiniões daquela classe emergente na sociedade brasileira, denominada haters (nome em inglês, viu que chique?), também são um prato cheio pra quem tá a fim de diversão gratuita. Esta semana uma das empresas responsáveis pelo transporte público de Goiânia se esqueceu de pagar as prestações do financiamento de sua frota e o banco, numa demonstração intolerável de intolerância, cobrou e a justiça determinou que metade dos ônibus fosse recolhida até o pagamento.

Que sifu o populacho que paga impostos e passagem e não tem nada a ver com o calote alheio, mas o episódio gerou duas situações dignas do Febeapá: primeiro um órgão de imprensa publicou em letras garrafais que, devido ao não pagamento de parcelas do financiamento, foi movida ação TRABALHISTA (ho-ho-ho) e determinado o recolhimento dos ônibus. Em seguida eles, os imprescindíveis e infalíveis haters (que, em maioria, acreditam que ler somente a manchete é mais do que suficiente para emitir suas opiniões abalizadas), entraram em cena e deixaram sua marca na seção de comentários: “ou o Brasil acaba com a CLT, ou a CLT acaba com o Brasil”, “esses grevistas (???) petralhas têm mesmo é que levar borracha no lombo”. O assunto ‘direitos trabalhistas’ costuma tirar do sério as pessoas de bem.

Nenhuma linha sobre o real motivo do sequestro dos bens e, claro, nenhuma palavra sobre a felicidade da população que viu subitamente ampliado de 40 para 200 minutos o tempo médio de espera no ponto.

Esta semana alguém de São Paulo resolveu decretar a proibição de garupa em motocicletas. A justificativa é linda: têm ocorrido muitos assaltos praticados por duplas sobre duas rodas. Na hora achei graça, mas depois bateu cisma: vai que esses iluminados resolvem trancar as portas de saída dos bancos para combater os assaltos conhecidos como ‘saidinhas de banco’? Vai ficar esquisito só poder entrar no banco e lá permanecer ad aeternum, mas quem somos nós que não estudamos nada sobre segurança pública para opinar? Talvez proíbam também a fabricação de veículos com porta-malas, para exterminar de vez os sequestros-relâmpago. Ou parem de construir museus para evitar incêndios.

A cereja está sendo essa cruzada santa contra o Chico Buarque. De repente uma legião de Wesley-Safadetes com camisa da CBF decidiu que o cara deveria pedir esmolas na sarjeta mais próxima, já que é comunista. Comunista, como se sabe, é uma variação de frade franciscano, que faz voto de pobreza/miséria e só se veste com saco de aniagem. Ninguém parou para pensar que talvez o Chico tenha um apartamento em Paris porque fatura um trocado até mais ou menos a título de direitos autorais.

Claro que é mais fácil e bovinamente correto dizer que ele passeia pela Champs Elysées à custa dos nossos impostos, via Lei Rouanet.

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BELLUM DOMINORUM

Os fatos que se sucedem vêm me mostrando que devo me preocupar. O mundo, além de muito chato, agora deu de ficar particularmente perigoso. O recente atentado de Paris é só um exemplo.

Para ficar no passado recentíssimo, foram oito ações violentas – a maioria considerada ato terrorista – praticadas por grupos que rivalizam em periculosidade com nossas torcidas organizadas. É um tal de Boko Haram, além de grupos como o autodenominado Estado Islâmico, o Talibã, o Al Shabab e outras quadrilhas que até nos fazem esquecer a Al Qaeda. 

Está perigoso e devemos nos preocupar por alguns motivos até simples: os radicais islâmicos se acham no direito de ditar regra até para quem não é islâmico. Retratar seu suposto profeta, tal de Maomé, é punido com a morte, a galera do Charlie Hebdo que o diga. Aliás, só o fato de não ser islâmico já é meia sentença, dependendo do humor do sacripanta barbudão de metralhadora mais próximo.

Geralmente após os espetáculos de medo, sangue, intolerância e morte aparecem as vozes de conciliação, querendo convencer o mundo de que os do mal são uma minoria, que o Corão prega o amor mas é interpretado ao pé da letra (se o verso diz que é pra enfiar a adaga no pescoço do infiel, como deve ser interpretado?). Mas aí entram em jogo duas ciências exatas: a estatística e sua mãezona, a matemática.  A primeira mostra que são 7,3 bilhões de almas no planeta, dos quais cerca de 24% são muçulmanos, o que dá 1,75 bilhão. Uma vez aceita a tese da minoria, consideremos que ela representa algo como 0,01% do total. Mais minoria do que isso, só a torcida do Bangu.

Apelemos para a segunda ciência exata (0,01% de 1,75 bilhão) e teremos 175.000 malucos mundo afora nos ameaçando porque somos porcos infiéis, metendo bala e gritando que Alá é grande. Tudo porque não cultivamos aquele hábito esquisito de cinco vezes por dia render salamaleques com o cu voltado para Meca. Ou em sentido contrário, sei lá.

Recentemente acessei um blog mantido por uma brasileira convertida ao islã, que faz a defesa de sua religião e repete os mantras conhecidos, minorias radicais e maioria pacífica à frente como argumentos incontestáveis. Diz que todas as religiões têm lá seus fanáticos e que está cansada de ter sempre que explicar isso e esclarecer que adora usar aquele véu que cobre a cabeça e não raro esconde o rosto.

De certa maneira eu também me sinto cansado, mas de sentir medo, insegurança. Minha opinião sobre religiões é por demais conhecida e nada recomendável, mas não acho justo que se trace um paralelo entre um fanático católico ou evangélico e um fanático islâmico. Os cristãos não se caracterizam por jogar bombas nos outros (não confundir com governos ocidentais ávidos por petróleo) nem descarregam metralhadoras em restaurantes, casas noturnas e redações. Essa diferença é fundamental.

Fanáticos ou fundamentalistas católicos, evangélicos e de outras religiões incomodam somente por serem extremamente burros e/ou desonestos, mas a agressão que praticam fica num patamar bem menos belicoso do que a praticada pela galera que acredita ter um monte de virgens lhe esperando do lado de lá.  

Lembro que foram necessários apenas dois malucos para fazer aquele estrago no episódio do Charlie Hebdo e somente oito em Paris. O banco de reservas, portanto, estava lotadão, à disposição do ‘professor’.

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Ah, nem!

Desde a primeira vez que ouvi – e ouvi várias vezes – que o tema da redação do ENEM era feminista, a tendência para rejeitar o rótulo foi muito grande. Quando os ‘ismos’ são aplicados, me parece que os assuntos ficam adstritos a um grupo ou movimento, e a questão do respeito à mulher é absolutamente abrangente na vida em sociedade, seja quando o assunto é violência física, violência moral (inclua-se nesses dois tipos a ocorrência do estupro e crimes assemelhados), desigualdade no trabalho, exploração doméstica, preconceito sexista. Então, não vejo feminismo, mas interesse social. 
 
Fui criado num meio muito propício à deformação de caráter, meus amigos de infância em maioria demonstravam terríveis tendências à violência, ao desrespeito e ao ‘elogio da superioridade masculina’, base para o quadro animalesco atual, e consegui crescer livre desse ranço.
 
Sou grato por isso, a ponto de sentir pena de pessoas com maior ou menor poder de influência que não perdem uma oportunidade de destilar pobreza espiritual travestida de opinião abalizada.
 
Mas a origem da reação negativa ao tema da redação não me parece ter muito de machismo ou preconceito. O que de fato aparenta é a dificuldade decorrente – e recorrente – da ausência do saudável hábito da leitura, que seria a alavanca a conferir aos candidatos alguma habilitação para tecer comentários ou emitir opinião acerca de um assunto que exige muito mais do que oferecem suas cabezitas, boa parte forjadas em League of Legends ou no Whatsapp. Como esperar que essa horda de analfabetos funcionais discorra sobre temas com algum grau de complexidade?
 
O resultado final é o mimimi da maioria e a comemoração das exceções. Normal. 
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DE GAIATO

Como autêntico tupiniquim que não se deixa abalar por um reles 7×1, desde sempre sou chegado numa boa peleja do rude esporte bretão, conhecido mais popularmente como ludopédio. Sempre que há chance vou ao estádio torcer pelo meu time e, no mais das vezes, volto para casa meio tonto e muito afônico.

Não que eu seja fanático, como algumas pessoas que conheço que chegam a adoecer quando seu time perde, mas me lembro de duas situações que enfrentei em que o fanatismo alheio ou a simples falta de noção quase me botam numa fria. 

Episódio 1 – Maracanã, 1991 – Botafogo 3 x 3 Vasco da Gama

O personagem desse jogo não entrou em campo, mas foi ao estádio comigo. Era consenso entre os amigos que Liminha só não era um espírito de porco juramentado porque media pouco mais de 1,55m, não cabia um suino ali. Para complicar era tricolor, do tipo que levava uma lata com pó de arroz nos jogos do Fluminense, mas topou ir comigo ao Maraca naquele dia porque eu já tinha ido com ele em alguns jogos de seu time e nossa amizade transcendia essas paixões futebolísticas. O cara bebia bem, era figura considerada no Amarelinho e nunca nos faltou mesa por ali. Bom papo, leal e engraçado, de vez em quando me bate saudade daquele puto, que resolveu ir de repente (2004) para o andar de cima sem consultar as bases do partido.

Nós nos acomodamos no meio da torcida do Fogão, e pedi encarecidamente ao Liminha que não revelasse seu time do coração pra ninguém ali. Pedi por pedir, porque já tinha sido um parto a fórceps convencer o cara a deixar na gaveta a camisa do Fluminense.

Pelo placar deu pra perceber que foi um jogão, né? Começamos ganhando com gol do Valdeir, o Flash, o Vasco empatou, fizemos 2×1 e o Vasco empatou de novo para em seguida virar o jogo. Jogo duro, juiz ruinzinho, meio que simultaneamente a torcida se lembrou do mantra da época que enaltecia o centroavante Chicão, que costumava fazer gol até de bunda. Era um Nunes melhorado, acabou se tornando o artilheiro do campeonato naquele ano e, por consequência, nosso santo padroeiro.

“CHICÃÃÃO… CHICÃÃÃO… EÔ-EÔ-EÔÔÔÔÔ…”

Liminha entrou no clima e gritava a plenos pulmões o canto da torcida, mas notei que me olhava de um jeito meio sacana. Eis que a torcida de repente se cala, Liminha não percebe e entrega o jogo:

“CHICÃÃÃO… CHICÃÃÃO… FELADAPUTA, CABEÇUDO E ORELHÃÃÃÃO…”

Não deu para não notar, dada a eloquência que o palhação imprimiu ao canto de guerra. Na época não havia tanta violência nos estádios, mas achei melhor catar o indivíduo pelo cangote e cair fora do estádio, porque a galera já estava olhando meio atravessado e nos apontando o dedo no melhor estilo “aqueles dois ali”. A traquinagem do meu amigo me impediu de ver o gol de empate aos 40 do segundo tempo. Marcado por quem? Chicão!

Episódio 2 – Mineirão, 1992 – Atlético-MG 1 x 1 Flamengo

Fui designado para um trabalho de auditoria externa em Belo Horizonte, em companhia de alguns colegas do Rio de Janeiro. Um deles, meu bródi Ricardo Rossi, flamenguista doente (com o perdão da redundância), me arrastou para o estádio naquela noite que tinha tudo para ser tranquila.

O Mineirão é possivelmente o único estádio no mundo onde se come churrasco com feijão tropeiro e espetinho de queijo, então eu não estava muito em condições de reclamar da vida. Mas, além de ter que ir assistir ao jogo do Flamengo, ainda tive que ceder à insistência do Rossi e nos juntamos à mulambada que tinha ido do Rio até BH em cerca de 40 ônibus fretados.

Joguinho chato, um gol de pênalti e outro de falta, achei estranho que perto dos 40 do segundo tempo a polícia veio chegando e nos cercando com cordas. Um dos policiais nos informou que havia motivos para acreditar que a torcida do Atlético nos esperaria lá fora para uma confraternização do tipo que não gostamos, e que a determinação do comando era que permanecêssemos nas arquibancadas até que as coisas se acalmassem no solo.

Beleza, acabou o jogo e aceitamos o cárcere privado como alternativa para fugir da violência. Mas parece que faltou a polícia combinar com a administração do estádio, porque após cerca de 40 minutos todas as luzes foram apagadas. Maior breu. Coincidência ou não, naquele momento começou a operação sai-fora-mulambada, os policiais nos orientando na medida do possível, e a pergunta que eu me fazia a cada 15 segundos era “o que é que eu tô fazendo aqui?”.

Ao nos aproximarmos da saída notamos que a torcida do Galo pode ter todos os defeitos, mas demonstrou ser muito paciente: estavam todos lá, nos esperando. O contingente policial estava longe de ser suficiente para dar conta da batalha campal que se anunciava, eu olhei para o Rossi e propús que usássemos de toda nossa valentia para avançar em direção à retaguarda. Assim fizemos e, por sorte, encontramos um táxi desocupado saído sabe-se lá de onde. Não me lembro de termos aberto as portas, mas de repente já estávamos lá dentro em direção à Rua Rio de Janeiro, nosso porto seguro. Notei, ao chegar, que o Rossi esteve tão focado em tirar o time que se esqueceu de tirar a camisa do Flamengo. O tempo todo eu corri ao lado de um alvo móvel.

Passados tantos anos, vez por outra reencontro esses colegas-amigos e nos divertimos relembrando essas passagens a que o trabalho direta ou indiretamente nos impôs. A maioria acha que daria um livro.

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A VERSÃO DELA

Livro CarlenaRecebi pelo correio há alguns dias o livro da gaúcha Carlena Weber, com o sugestivo título ‘A minha versão da história’. Tá, não se deve julgar um livro pela capa nem por qualquer outra característica subjetiva, mas uma miscelânea de sorrisos, caras e bocas com um título que passeia entre o instigante e o irreverente já representa certa vantagem, quando o objetivo é chamar a minha atenção.

Tomei conhecimento da obra por meio de comentário em rede social feito pelo Evandro Bonocchi, paratleta pra lá de radical que disse ter se deliciado com os relatos da moça. De imediato procurei saber como adquirir o livro, entrei em contato com a autora e esperei tipo uma semana para, enfim, descobrir o que tinha deixado meu amigo tão emocionado. 

O enredo é punk porque, na verdade, trata-se de autobiografia que se inicia com algumas lembranças esparsas da adolescência um tanto normal de Carlena, mas o ponto central e início real da ‘trama’ ocorre com um desastre automobilístico horroroso, com consequências para toda a vida que têm em comum a palavra perda: seus pais, seu primo com a namorada e seus movimentos do pescoço para baixo.

Um prato cheio pra pieguice e coitadismo, né? Pois é, mas não esperem isso no livro.

Como num grito do tipo ‘eu sou normal’, Carlena discorre sobre as diversas fases por que passou nos primeiros momentos, desde o inevitável período de luto até a percepção da possibilidade de levar uma vida ativa e saudável sobre rodas, passando pelos perrengues das diversas adaptações a que teve que se submeter. A narrativa é por vezes crua, chocante e corajosa, há momentos em que ela expõe situações íntimas em tese constrangedoras, mas a leveza de sua pena é de tal maneira onipresente que acaba por incluir o leitor na lista de seus melhores amigos.

Alguns trechos com páginas pretas e letras brancas integram o livro, deixando uma sensação de parênteses para uma conversa ao pé do ouvido. Imagino que tenham sido pinçados de um diário ou caderno de anotações que Carlena tenha decidido incluir na publicação. O efeito, às vezes didático, outras vezes assumindo o caráter de confidência, dá um molho à narrativa e não permite que descambe para tecnicismos que poderiam tornar a leitura cansativa.

Foi gostoso acompanhá-la nas duas visitas que fez ao hospital da rede Sarah, em Brasília, e parece que foi ali que ela achou seu norte, que observou nos outros a naturalidade de ser uma pessoa com deficiência. O tempo aos poucos foi lambendo suas feridas, até que rolou um estágio e experimentou a aventura de trabalhar num ambiente com poucas adaptações e diversos desafios. 

Então, lembrou-se da faculdade que tinha abandonado após o acidente. Por que não? Seu acanhamento inicial rolou escada abaixo e ela não só concluiu a graduação como fez uma pós, conseguindo permanecer na área escolhida.

A tentação de contar a história é grande, mas o direito de fazê-lo é exclusivo da autora. Acho que até já abusei um tantico, então deixo o resto por conta da curiosidade de vocês. O livro pode ser adquirido via site da Livraria Cultura ou, para quem gosta de exemplares autografados, o canal é o perfil da gaúcha no Facebook, bastando digitar Carlena Weber e fazer as tratativas inbox.

Como toda pessoa ‘normal’ eu tenho minhas esquisitices: quando em casa só leio deitado na rede, em honra aos meus 50% de sangue pau-de-arara, e ao terminar a leitura de um livro de que tenha gostado muito eu sinto um misto de saudade e gratidão. Doideira? E se eu arrematar revelando que antes de colocar o livro na ala de lidos da estante eu costumo dar um beijo nele?

À parte alguns pecadilhos editoriais, que poderiam ter sido evitados mediante uma revisão de maior qualidade, A Minha Versão da História é um livro às vezes divertido, às vezes terno, outras tantas vezes chocante, mas sempre prazeroso. Uma história cuja protagonista desconstrói (destrói?) conceitos, valores e paradigmas.

Carlena, eu beijei você.

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O MENINO DE DONA JACIRA

Dia desses (aliás, madrugada dessas) fui apresentado a um carinha que eu já sabia existir, mas nunca tinha prestado atenção. Após ouvir suas opiniões e conceitos sobre a vida em sociedade, ficou aquele encantamento que me levou a pesquisar mais sobre ele.

Meu contato com Emicida se deu de maneira abrupta por meio de um debate promovido por Serginho Groisman em seu programa. De repente o garoto se mostra um crítico feroz do nosso racismo que não ousa mostrar a cara, apesar de mostrá-la o tempo todo. Após um gancho deixado pelo ator Marcos Caruso, ele solta o verbo:

O menino, nascido Leandro, também tem lá suas opiniões um tanto incômodas quando o assunto é preconceito sócio-econômico e funcionamento das instituições.

Chamou minha atenção de maneira mais contundente a forma liricamente crua encontrada para homenagear sua mãe, dona Jacira.

Não me sai da cabeça a frase contida nessa música, “vai dar a maior treta quando disser que vi Deus; ele era uma mulher, preta”. 

O Youtube tem alguns exemplos do trabalho do carinha, então deixo a dica de observar na rede e, caso entenda justo, compre o CD ou DVD. Afinal, ele vive disso né?

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JUÍZES

Entre 2008 e 2011 eu me submeti a um tratamento pesado contra o até então bem escondido vírus da hepatite C. O uso de antivirais poderosos como interferon e ribavirina implicou um monte de efeitos colaterais como anemia, momentos de intensa fadiga, imunodepressão, emagrecimento importante e uma dor no conjunto cabeça-tronco-e-membros que não cessava.

Resisti e continuei trabalhando, até que minha gerente determinou que eu tirasse licença médica, porque minha teimosia não estava ajudando nem a mim nem à empresa. Acabei cedendo à determinação, e o que imaginei que seriam 25 dias de licença acabou se transformando numa ausência superior a um ano. Nesse meio tempo continuei levando minha vida, convivendo com minha família, lendo, escrevendo e tocando meus instrumentos.

Em determinada ocasião fui convidado a tocar violino numa solenidade da empresa, me parece que alusiva ao dia das mães. Topei, só não sabia que isso iria gerar tanta conversinha paralela por parte dos justiceiros de plantão, que tinham decretado que quem sai de licença médica precisa necessariamente permanecer 24 horas na cama, de preferência em coma e respirando por aparelhos.

Após esse episódio aprendi que empatia é uma coisa rara feito filho de quenga chamado júnior e, em especial, que analisar as situações de forma precipitada e superficial pode gerar algum dano até a quem não precisa de inimigos.

Este gancho é para comentar um vídeo que assisti numa rede social, que denuncia uma suposta funcionária da prefeitura de São Bernardo do Campo, que teria passado cerca de um mês no Egito durante período de licença médica. As inferências instantaneamente viram verdades absolutas, a ‘reportagem’ fala que a viagem foi bancada por dinheiro público, que ela estava recebendo sem trabalhar, etc, etc. Um mais iluminado que os outros a chamou de ‘biscate’ na área de comentários.

Não tenho certeza se o vídeo foi de fato produzido pela Rádio Bandeirantes de São Paulo, ou se foi uma forma de dar ares de seriedade à ‘reportagem’. O fato é que se trata de uma ‘peça jornalística’ sem data, que expõe a mulher ao citar seu nome completo, duvida publicamente de sua honestidade e, ainda, reproduz o que seria uma tentativa de entrevista por telefone.

Consultei os ácaros aqui de casa e observei que até eles sabem que salário recebido por servidor público não é dinheiro público; já foi, porém ao ser depositado na conta do servidor deixou de sê-lo porque passou a ser bem privado. Eles também sabem que só recebe proventos decorrentes de licença médica quem contribui para o órgão previdenciário, ou seja, é um direito que assiste ao segurado.

Mas o que vale é a versão, o fato a gente vê depois. O importante é que o vídeo já ultrapassou a barreira das 100.000 visualizações. 

Claro que é sempre possível que pessoas cometam irregularidades, fraudes e outros crimes contra a administração pública, mas não é isso que entendo estar em jogo.  Nem toda licença médica impede as pessoas de viajar, seja para o Egito ou para a baixada fluminense, então até prova em contrário ela não cometeu crime algum. Consequentemente, não cabe a jornalistas ou a quem quer que seja se dirigir ou referir a ela de forma desrespeitosa ou acusatória. Se sabem de algo concreto, e detêm as provas, que façam a denúncia junto às autoridades, não aos juízes do Facebook.

Juizes do facebook

Por enquanto, se alguém cometeu algum crime foi quem a chamou de biscate.

É sintomático o destaque que o vídeo dá ao fato de ela ter sido candidata pelo PT, deixando transparecer o real objetivo da ‘reportagem’. Ontem a turma da situação publicou um post ‘denunciando’ a jornalista Danuza Leão de preconceito contra os pobres, o que automaticamente faz dela uma coxinha. Anteontem o outro lado publicou matéria requentada falando sobre o suposto apoio do Planalto à indicação do tal Gim Argello para assumir cargo no TCU, coisa de petralha. Eu resolvi já há algum tempo que não iria mais me aborrecer com essa briguinha idiota entre o bem e o mal, até porque esse maniqueísmo cretino só destrói. Mas no caso desse vídeo resolvi me manifestar, porque de certa forma o silêncio pode retroalimentar a crueldade.

Se o tal vídeo foi de fato produzido por jornalistas, agradeço aos céus por eles não terem se decidido pela medicina.

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