REFORMA DA REFORMA

Li estes dias no Portal Imprensa a notícia de que estaria para ser avaliada, pelo Senado Federal, uma proposta de nova alteração da língua portuguesa, desta feita na grafia. Querem detonar o H inicial (passaremos a escrever ‘omem’, ‘oje’, ‘elicóptero’), o U quando não pronunciado (‘qero’, ‘qinze’, ou ‘kero’, ‘kinze’, sei lá) e outras coisas do gênero. Acho que o resultado será nivelar os livros de Câmara Cascudo e João Cabral de Melo Neto com as postagens adolescentes do facebook, apesar de terem dito que a intenção é facilitar a alfabetização, que consome tipo 400 horas-aula ao final do ensino médio. Para ler a matéria, clique aqui.

Os defensores da ideia ainda afirmam que os alunos saem do mesmo ensino médio sem saber ler, o que é fato. O que também é fato e foi abordado en passant é a ausência do hábito da leitura, que poderia permitir até a ousadia de uma redação. Nenhuma alma se dispôs a analisar nossa qualidade de ensino desde o fundamental e a falta de incentivo, cobranças aos alunos e inclusão nos conteúdos programáticos da leitura e interpretação de livros literários. Também não me lembro de ter lido sobre o custo de atualização de todo o acervo literário, técnico e pedagógico presente.

Particularmente me junto a uma maioria de jornalistas, que refutam a necessidade de nova alteração do português aqui falado, cantado, escrito e frequentemente judiado.

Numa dessas redes sociais o assunto foi abordado e, como é comum ocorrer, as pessoas deitaram comentários. Dentre eles um escrito totalmente em shakespearês, cujo autor de nome bem abrasileirado diz que só utiliza o inglês, que é muito melhor para pesquisas no Google e reconhecimento eletrônico da fala. Também disse que acha absurdo manter um idioma nascido do latim, uma língua morta, e que pouco lhe interessa o que poderá vir a acontecer com nossa língua portuguesa. Ante minhas considerações de que tais vantagens arrancaram de meu espírito a interjeição ‘grandes merdas’, que um dos pilares da cultura de um povo é o idioma e que não vejo razão para renegá-lo, o cidadão retrucou em português dizendo que se referiu ao inglês porque nós não sentimos orgulho de nosso idioma e, ao invés de aprendê-lo, o reduzimos.  Também disse que o inglês é motivo de orgulho para seu povo (fiquei na dúvida se se referia à Inglaterra ou aos EUA) que é mais rico culturalmente do que nós, pobres tupiniquins de tanga, e o exporta para outros países.

O carinha trabalha com software e, como sei que linguagem de programas de computador é mais Maria-vai-com-as-outras que pele de camaleão, relevei. Resolvi não retrucar, passei da idade de bater boca virtualmente.

Mas fiquei matutando sobre as afirmações do colega de comentários e ainda acho que ele está equivocado. Não acho que ingleses ou americanos tenham uma cultura mais rica do que a nossa. Principalmente os norte-americanos são muito bons em propaganda, além de ainda dominarem economicamente o planeta em diversas frentes. É claro que isto faz muita diferença.

A definição mais abrangente e aceita para cultura é o conjunto de costumes, sistemas, leis, religiões, produção e tradições artísticas, culinária, ciências, crenças, mitos, folclore. Assim, é claro que há muito que ser feito no tocante a certos costumes, que fazem de nós um povo merecedor de críticas. Nos falta educação e, por consequência, senso de cidadania. Um dos resultados mais sensíveis disso é a falta de civilidade, que se traduz em egoísmo e na facilidade com que jogamos lixo na rua, não respeitamos os direitos alheios, poluímos ruas, parques, rios e mares, estacionamos nossos carrões em vagas que não nos pertencem, paramos sobre a faixa e não respeitamos o pedestre. Nossa falta de cidadania permite grassar o jeitinho, o ‘cafezinho’, a sonegação. Nós nos acostumamos com o ‘rouba, mas faz’, e fomos doutrinados a não questionar os chamados poderosos porque não é de bom tom. Também não valorizamos nossa memória.

Por outro lado, não conheço país algum no mundo que tenha o boi bumbá, o bumba meu boi, Cora Coralina, as Cavalhadas, catira, sincretismo religioso, carnaval, forró pé-de-serra, Martinho da Vila, chimarrão, feijoada, Drummond, bossa nova, literatura de cordel, tudo dentro de um único território e com uma única língua e vários sotaques.

Nós somos culturalmente pobres ou péssimos em propaganda?

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