VASECADO

Eu sou meio que desapegado das coisas, minha lista de ciúmes é bem pequena. Minha Eliana, meus filhos, minha Ninja linda, acho que são as paixões que mais me despertam esse sentimento impuro, coisa digna dos ‘cães infiéis’ na visão da galera da Al Qaeda.

Mas tem uma coisa – aliás, duas – que sempre me tiram do sério quando ameaçadas: em que pese eu não ser galinha, morro de ciúmes dos meus ovos. Pela fragilidade e delicadeza (quem tem sabe o quando dói uma pancadinha, por menor que seja), acho que a natureza errou feio ao não equipar os machos de uma couraça protetora ali, naquele ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico.

A vida, porém, às vezes nos leva a fazer concessões. Eliana precisa fazer um tratamento meio doido de pele que, por um motivo ainda mais doido e por mim não compreendido, não pode rolar gravidez no período. Aí, entramos num acordo: já que não pretendemos mais ter filhos e uma esterilização para ela seria algo extremamente invasivo e com pós-operatório complicado, procurei meu urologista de estimação e marquei uma vasectomia.

Cheguei no consultório do Dr. Sérgio cismadão, porque alguém tinha me falado que o procedimento utiliza anestesia local. Se uma bolada já é uma coisa terrível, uma agulha seria algo bem próximo do inferno. A princípio a cirurgia seria custeada pelo meu plano de saúde, então tive que preencher alguns formulários em que afirmo que o procedimento será feito por minha livre e espontânea vontade, blá blá blá.

Alguns dias depois fui informado pelo médico que o procedimento só poderia ser feito na modalidade ‘particular’. Logo imaginei que o plano de saúde estava pagando uma merreca. Liguei lá e perguntei quanto pagavam pela vasectomia. O carinha que me atendeu perguntou “unilateral ou bilateral?” e eu fiquei atônito. Será que alguém faz meia vasectomia ou ele achou que eu era monobola? Aí fui informado que o plano pagava R$ 100,00 per capita (ou em bom latim, per bulla).

Pensa: o cara estuda durante sei lá quantos anos para se formar médico, depois faz residência, especializações, e na hora de ser remunerado por um procedimento cirúrgico – que, como toda cirurgia, inclui riscos -, é oferecido o equivalente a uma despesa de rodízio com a família, 10% incluídos. Topei pagar os R$ 1.600,00 cobrados.

Por se tratar de uma cirurgia simples, o procedimento seria feito em ambulatório. No dia marcado cheguei com a antecedência pedida, fiz os chequinhos (um para o médico e outro para o anestesista) e logo fui chamado. Dr. Sérgio me apresentou o anestesista, fizemos algumas piadas, ele explicou que me botaria para dormir antes das agulhadas fatais, vesti aquele camisolão ridículo, que deixa a bunda de fora (alguém pode me explicar o porquê daquilo?) e me deitei com as vítimas para cima na maca cirúrgica.

O anestesista me aplicou uma intravenosa e em poucos segundos eu estava nos braços de morfeu. Acordei com a cirurgia ainda rolando, o ambiente estava tomado por uma risaiada desenfreada. O anestesista é um sacana inveterado, e estava oferecendo meu bilau para a enfermeira. Eu ainda estava grogue, mas notei uma pessoa estranha àquela turma que estava comigo até eu apagar. Vestido de médico, mais parecia um totem. Olhei para a figura, depois perguntei ao anestesista: o que foi que você me aplicou? Quem é esse ciclope de dois olhos?

O cara riu e me disse que era neurologista. Estava ali porque precisava da ajuda do Dr. Sérgio assim que ele terminasse o procedimento, e foi convidado a entrar e acompanhar a cirurgia. Disse também que mede 2,02m, mas não joga basquete. Boa praça, apesar de corinthiano.

Terminada a cirurgia, a enfermeira botou um esparadrapo sobre os pontos. Meu saco ficou parecendo uma placa de contramão. Fui orientado a retornar lá no dia seguinte, para verificação do curativo, voltei pra casa ainda grogue tendo Eliana como motorista, mas acabei não dormindo, como achei que deveria e merecia. Cismei que seria mais produtivo terminar de ler um livro da Martha Medeiros que iniciei há um tempão e nunca arranjo tempo (aposentado sofre).

Meu retorno à clínica só serviu para a retirada do esparadrapo e as recomendações de praxe: três dias sem beber, cinco sem andar de moto e quinze sem o direito de reclamar de carência. Se sentisse dor – e doeu bagarái – eu estava liberado para tomar um analgésico. O resto se resolveria com o tempo.

Analisando a área, acabei concluindo que o Dr. Sérgio é um médico de catiguria, cirurgião de responsa, mas desconfio que andou matando algumas aulas de corte e costura.

A propósito, soube depois que o tal médico de dois metros de altura nunca existiu. Devo ter sofrido alguma alucinação pela ação da anestesia.

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