VIAJANDÃO – O INÍCIO

Eu me aposentei há cerca de dois anos, ou 700 sábados, no cargo de auditor de um grande banco. Comecei como inspetor e, em síntese, meu trabalho era verificar a regularidade e correção do trabalho dos colegas, o que me fazia a mais potencialmente amada das criaturas. Pelo menos de início o impacto era ruim, mas depois a galera percebia que minha praia não era ferrar ninguém, a não ser que merecesse, porque nunca dei mole pra gente desonesta. Não raro deixei amigos por onde passei.

Meu início na carreira de inspetor se deu em 1989 (é, eu sou praticamente um neanderthal), após passar pelas fases de avaliação escrita e psico-comportamental. O passo seguinte seria o trabalho em campo, igualmente eliminatório, que seria feito sob supervisão de um inspetor que já se encontrava numa agência.

Não conhecia pessoalmente Antônio Pedro, apesar de morarmos na mesma cidade. A agência para onde me desloquei ficava no município de São Miguel do Araguaia/GO, distante quase 500 km de Goiânia. Chacoalhei a noite toda num busão que me dava a impressão de soltar uma peça a cada meia hora, até que aportei no hotel indicado, já dia claro, a tempo de encarar o café da manhã. Encontrei meu supervisor na sala do café, nos apresentamos e iniciamos, ali, uma grande amizade que perdura até hoje.

Os exames e testes eram meticulosos, mas Antônio Pedro fazia questão de me deixar a par de todos os detalhes. Como disse, o trabalho era prático, ou seja, estava sendo feita de fato uma inspeção na agência, e eu ali de sapo, acompanhando e executando em conjunto, para pegar a prática necessária para num futuro breve alçar voos solos.

Após quase um mês, voltando para casa somente nos fins de semana, eis que se aproxima o dia de ir embora. Aprendi muito, estava satisfeito e entusiasmado com o trabalho, mas a ausência de casa sempre me incomodou. Ônibus para Goiânia somente à noite, e terminamos o trabalho pouco depois das 10 da manhã.

Nosso semblante se iluminou ante a informação do vigilante da agência de que havia um ônibus que partia às 16:00h de Porangatu, a 130 km dali, direto para Goiânia, com previsão de chegada por volta das 22:00h. Ao meio dia pegamos o cata-corno em São Miguel rumo a Porangatu. Na rodoviária nos apossamos de algumas latinhas de vitamina (na época a skol era líder de audiência) e tomamos nosso assento, lá no fundão. A estrada era uma maravilha para quem gosta de tobogã e montanha russa, e a viagem me fez sentir um passageiro involuntário de um pula-pula. Mas, enfim, chegamos a Porangatu.

Partimos direto para o guichê da empresa indicada pelo vigilante, e recebemos a informação de que não havia nenhum ônibus direto para Goiânia. O máximo que podíamos esperar era o busão que vinha de Belém e passaria por ali por volta das 17:00h. Se tivesse vaga, beleza.

Mais ou menos nesse horário chegou o ônibus de Belém, mas só tinha uma vaga. Antônio Pedro até insistiu para que eu fosse, mas estávamos juntos naquela encrenca, achei que não seria justo nem honesto resolver o meu problema e deixá-lo lá ao Deus dará. O carinha do guichê nos ofereceu passagens para Goiânia, cujo ônibus sairia dali a uma hora. Compramos e procuramos um boteco para matar a sede.

Embarcamos, um pouco mamados cansados, mas munidos de algumas latinhas para suportar a viagem. Apesar da frustração e dos desencontros, estávamos animados com a idéia de voltar para casa. Fomos batendo papo, cada um falando da própria vida, família, experiências vividas, até que notei que o busão começou a andar meio devagar demais.

Não deu outra: ao chegarmos a Uruaçu (quem não conhece Goiás vai ter que consultar um mapa), o motorista estacionou na rodoviária e informou aos passageiros que havia problemas no radiador. Então, sugeriu que aproveitássemos o momento e jantássemos, porque o conserto demoraria no mínimo 40 minutos. Havia uma churrascaria simpática na rodoviária, e para lá debandamos. Não chegamos a demorar meia hora mas, ao voltar à plataforma da rodoviária, cadê o ônibus? Por algum milagre do além o problema foi resolvido rapidinho e nós fomos deixados para trás. E nossa bagagem foi embora.

Procuramos o guichê da empresa para comunicar o fato e o funcionário fez um telefonema. Então nos informou que naquele momento estava saindo um bumba para Anápolis, que passaria pela cidade de Rialma. Passamos a ele as características de nossas bagagens e ele informou ao colega em Rialma – onde o ônibus fujão passaria -, compramos as passagens para Anápolis (mais algumas latinhas) e continuamos nossa luta para chegar em casa.

A esta altura do campeonato estávamos ainda mais ébrios cansados, e adormecemos pesado assim que saímos de Uruaçu. Por milagre eu acordei em Rialma, no momento em que o motorista iniciava os procedimentos para deixar a rodoviária, e consegui reaver nossas bagagens. Antônio Pedro continuava devidamente apagado.

Acabei apagando também, só acordando quando chegamos a Anápolis. Já passava das três da manhã, e fiquei imaginando se encontraríamos algum taxi que se dispusesse a percorrer os 50 km que nos separavam de casa. Foi quando o motorista do ônibus disse que recolheria o veículo à garagem em Goiânia, e nos levaria até lá.

Uma vez cumpridas todas as formalidades da empresa, que demoraram uma eternidade, cheguei em casa com o dia já amanhecendo. O que me deixou realmente injuriado foi que, se tivéssemos embarcado no ônibus que saía de São Miguel do Araguaia às 21:00h, teríamos chegado em casa por volta das três e meia da manhã.

Nunca mais encontrei o vigilante que nos deu a dica tão valiosa. Queria agradecer.

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6 respostas a VIAJANDÃO – O INÍCIO

  1. Eliana disse:

    Amor,

    Que bom que você está de volta com suas inúmeras e maravilhosas histórias!
    Amei!

    beijo

    Eliana

    • Rogério Veloso disse:

      Tekinfin alguém comentou. Minha platéia de três ou quatro é excessivamente silenciosa. Vou tentar não negligenciar desta vez. Beijão, je t’aime à chien.

  2. Amauri Kravaski disse:

    O cabra que falou já tinha tomado quantas vitaminas??? e vc acre-di-tooouuuuuu….kkkkkkk

  3. Rogério disse:

    O pior de tudo é isso: o cabra era evangélico, só tomava chá mate e suco de groselha, e quando nos deu a dica eram no máximo onze da manhã, ele estava de serviço na agência. Ainda vou retornar ao assunto ‘viagens a serviço’, para explicar por que em dado momento passei a pegar estrada exclusivamente com meu carro.

  4. Amauri Kravaski disse:

    Negão, pra quem, como nós, temos muuuita estrada (trrestre e aérea) as histórias são inúmeras e, quase sempre hilárias. Pros outros, é claro….kkkkkk

    • Rogério Veloso disse:

      Há alguns dias eu contava uma das histórias dessas minhas viagens loucas a trabalho para a Eliana, teve até paletó comido por rato no armário do hotel. Muitas vezes passei por maus bocados, corri perigo mas acho gostoso relembrar, ter histórias para contar. Na hora é sufoco puro, mas depois acaba virando piada mesmo.

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