VIZINHOS

Eu até preferiria uma casa com quintal, cachorro e churrasqueira, mas moro em apartamento e acho que não devo me queixar. Meu prédio tem uma área de lazer legal, o apartamento não é ruim e tem aquela coisa de segurança que alguns dizem ilusória mas, enfim, segurança psicológica também é segurança.

Mas como costela vem com osso e casamento vem com sogra, apartamento vem com vizinhos, com um detalhe assaz incomodativo: moram perto demais. Não que eu seja antissocial, mas tem uma fauna nas imediações que simplesmente não vale a pena. Pensa num povo que nasceu pra viver no meio do mato, não suporta barulho nem ao meio-dia, detesta criança apesar de ter algumas e na hora de comprar um apartamento escolheu justo aquele condomínio com uma quadra poliesportiva, duas piscinas, dois quiosques com churrasqueira no térreo e uma molecada infinita na faixa entre os oito e 16 anos. Pois é.

Nem sempre me incomodam, é fato, às vezes até me divirto com as patetices da ala coxa. A bola da vez já há algum tempo é a síndica, a quem chamam carinhosamente de ‘Dilma do condomínio’. Claro que querem o impeachment, claro que acusam sem provas, e a conspiração rola solta no grupo de WhatsApp criado para discutir nossos problemas mais sérios e urgentes. Que eu me lembre, nenhum dos whatsappistas mais frequentes, eloquentes e indignados bate ponto nas reuniões de condomínio (‘não tive tempo’, ‘estava trabalhando’, ‘estava em aula’). Depois postam verdadeiros tratados neoliberais-filosóficos-olavocarvalhenses dizendo que os demais condôminos são todos frouxos, só eles são pessoas de bem que querem mudanças. Pra ser sincero, ‘pessoas de bem’ me metem um medo lascado.

Ultimamente os caras têm se dedicado a me virar a cara, só porque tenho dificuldade em falar a língua deles. No auge daquele movimento cívico-patriótico-sonegador que envolvia um pato inflável na Avenida Paulista entrei no elevador e a discussão já corria solta. O mais inflamado da discussão, advogado, aproveitou minha douta presença e soltou o jargão: “quem defende bandido é o que?” Na falta de uma resposta mais agradável à plateia, mandei “sei lá…advogado?”. O tempo fechou, o silêncio imperou e pelo menos aquele não fala mais comigo até hoje. No máximo um protocolar bom dia. Uma pena, porque gostaria de saber sua opinião atual sobre bandidos.

Mais recentemente fui abordado por um outro vizinho, que me perguntou se de fato eu era bancário. Ante minha resposta positiva (estou aposentado mas ainda me considero bancário, apesar de desde sempre ter preferido ser ministro do STF ou dono da Microsoft), a jugular da figura inchou feito um sapo cururu e ele danou a destilar todas as frustrações de sua vidinha sem graça, encerrando o discurso com a sentença já anteriormente dada pelo Arnaldo Jabor: se não está satisfeito, peça demissão, ninguém é obrigado a permanecer no emprego insatisfeito, nem nós outros temos que aturar essas greves promovidas por sindicatos esquerdopatas. Após esclarecer que a greve decorria de uma proposta de 5% de reajuste salarial ante índice inflacionário acumulado de 10, aproveitei seu próprio mote e lembrei a ele que ninguém é obrigado a ter conta em banco; não tá satisfeito, guarda o dindim no colchão.

Menos um.

Y así la nave va. Até nem sei por que estou falando dessa minoria chata que adora ser infeliz. No mais das vezes é legal curtir a companhia dos vizinhos que apreciam um dedo de prosa e as diversões que o condomínio oferece.

Pensando bem, sacanear os chatos também é divertido. Tá no pacote.

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