EMBATE

Vez em quando cometo esquisitices. Hoje cedo resolvi navegar por um site norte-americano, que continha o que me pareceu uma matéria sobre um determinado cachorro. O texto, escrito em primeira pessoa, na verdade era um desabafo de um tutor, sobre situação envolvendo seu cão.

Dizia o missivista que estava no aeroporto com seu cão (pela foto, vestido – ele, o cão – com uma espécie de uniforme militar de selva), quando ouviu uma senhora recomendando aos netos que não se aproximassem do animal, por tratar-se de um pitbul ou coisa do gênero que, mesmo dormindo, dá medo. Até aí, acho que tinha razão.

A questão é que o homem ficou aborrecido com o que considerou uma indesculpável manifestação de preconceito. Disse que seu cachorro participou de um desses infindáveis conflitos bélicos promovidos ou apoiados pelo governo de seu país, ocasião em que atuou na detecção de explosivos e salvou a vida de muita gente. Que o cão, cujo nome me foge, era extremamente dócil.

Resolvi cutucar a onça com vara curta e deixei um comentário. Primeiro, parabenizando o autor por ter conseguido juntar no mesmo parágrafo as expressões ‘militares dos Estados Unidos no exterior’ e ‘pessoas inocentes’, de fato algo a ser festejado. Concluí lembrando que os tutores são os primeiros a garantir que suas feras são mansas, não atacam nem mordem.

Não demorou e começou o meu processo de linchamento ou execução pública. Chamaram-me de chicano e cucaracha e juraram me encontrar pelas ruas dos isteites para me entregar aos bravos rapazes do ICE. O problema é que estou no Brasil, mas como ninguém me perguntou nada resolvi omitir esse detalhe. O ponto mais emocionante da contenda foi ter sido identificado como brasileiro pelos compatriotas que pra lá se mudaram. Aí a coisa ficou mais feia.

De chicano e cucaracha fui promovido a guerrilheiro-esquerdopata-comunista-fdp, descobri que grama e alfafa são a base da minha dieta e que minha falecida mãezinha roda bolsinha nas ruas de Los Angeles. Tudo isso por causa de um chachorro! Achei graça, faz tempo que não dou bola pra essa gente infeliz.

O que me deixou de fato com a pulga atrás da orelha foi a inesperada quantidade de nativos daquele país que postaram respostas positivas ao meu comentário, aduzindo seus testemunhos sobre a ação violenta dos agentes da imigração.

Então é isso: brasileiros residentes nos EUA me jogaram balaios de bosta, num delicioso inglês latino defenderam o tal ICE como se fossem imunes a suas ações, agiram como agem seus iguais em terras tupiniquins, raciocinando com o fígado.

Que bom que não tenho amigos nem familiares assim!

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