SURPRESA BOA

Do nada sintonizei a tal Globolixo(sic) nesta noite de segunda-feira. Que bom, grata surpresa! Pena que peguei o filme já correndo alguns minutos, mas fazia tempo que não me deliciava tanto. Foi interessante observar a fala da personagem Ana, com leve sotaque que me remeteu à minha amiga Lak Lobato e, claro, deduzi que era uma pessoa com deficiência auditiva.

O nome do filme é mais que sugestivo: 90 Decibéis. Conta a história de Ana, interpretada por Benedita Casé. Na história, a personagem central sofre acidente automotivo com seu filho e passa a sofrer perda progressiva da audição.

A proposta da produção é escancarada: mostra o mundo das pessoas com deficiência a partir de suas próprias vivências e expectativas, aborda a questão da inclusão a partir das situações diárias de exclusão, expõe o capacitismo em sua forma crua e sempre cruel mas, principalmente, invisível. Pelo menos ninguém nota.

A personagem Ana não é nenhuma heroína de capa e espada. Pelo contrário, tem seus momentos de negação, se afoga na insegurança e na incerteza quanto ao futuro, seu filho, seus relacionamentos, sua carreira. Fato é que, advogada conceituada em um escritório, acaba perdendo o emprego quando a surdez passou a limitar seu desempenho. Na verdade – o filme mostra isso de forma bem sutil – as perdas que experimenta decorrem não exclusivamente da surdez em si, que colabora um bocado, mas em especial da não aceitação das limitações que progrediam, da recusa em se ver como uma pessoa com deficiência e, portanto, sem a necessária consciência sócio-política de sua condição.

Aí rola uma virada no enredo: Ana, sem emprego e com sérias dificuldades de conseguir outro, já que as entrevistas eram todas por chamada de vídeo, acabou conseguindo uma colocação como atendente numa terceirizada que atendia exatamente pessoas com alguma deficiência em busca de documentos, certificações e outras situações em que a ordem era negar direitos. Parecia uma sucursal do INSS. Seus colegas de trabalho eram um paraplégico, uma amputada, uma mulher com nanismo, um deficiente visual, um paralisado cerebral, todos chefiados por um brucutu. O dia-a-dia cruel no trabalho e a convivência com seus colegas ‘atípicos’ despertou na protagonista uma visão de mundo diferente de tudo o que havia experimentado até então, e chegou o momento em que a advogada ressurgiu das cinzas e passou a atuar em prol dessa classe invisível, sejam seus colegas, sejam os pobres coitados que procuravam a instituição.

O filme tem seus momentos panfletários (talvez eu esteja sendo injusto ao utilizar esse termo) ao denunciar o capacitismo e a exploração do trabalho escudada na lei de cotas e nas diversas maneiras de burlá-la, o subemprego imposto, a humilhação, a ideia disseminada de que a pessoa com deficiência é um ser menor, menos capaz, menos importante e com menos direitos. Também retrata a realidade nos momentos em que os empregados são achacados e ameaçados de demissão ante qualquer demonstração de rebeldia, afinal estão ali de favor.

Bem dirigida, a produção tem alguns pontos altos a destacar: cerca de 70% do elenco é composto por pessoas com deficiência (a própria roteirista do filme, Julia Spadaccini, convive com perda auditiva progressiva). A atriz Benedita Casé, também deficiente auditiva na vida real, mostra que DNA é coisa séria (é filha da grande Regina Casé) e o corpo de atores igualmente manda muito bem ao longo dos 92 minutos de duração do filme.

Ao final a história meio que ameaça descambar para algo próximo do piegas, mas é contida a tempo, ainda que não abra mão de um final feliz, coisa que na vida real não ocorre assim tão fácil. Mas vale muito pelo entretenimento, pelas interpretações, pela gritante verdade que esfrega na nossa cara.  

As famosas ‘coisas da vida’ há muito me levaram a conhecer os perrengues de quem tem alguma deficiência no Brasil, isso me levou a cultivar amizades deliciosas nesse universo. Claro que é motivo mais do que suficiente para que eu tenha ficado tão tocado com o filme. Quem enxerga o “lado de lá” sabe o quanto é importante o pertencimento, a luta, a empatia, o respeito à pluralidade.

Quem ainda não viu 90 Decibéis, veja. Por enquanto Globoplay, mas deve rolar um Netflix em breve.

Recomendo muito.

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O NEGÓCIO

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UM CONTO DE FADAS DO CRAMULHÃO

Interessante como essa turma falseia até os contos infantis. Desta vez, detonaram a obra do pobre Gepeto, transformando numa figura estilizada o bonequinho criado por ele, cujas mentiras têm efeito um pouco diferente.

Taí a mais nova dupla dinâmica, Pinóquio e Zurêia. Enquanto o chefe mente descaradamente, as orelhas do baba-ovo só crescem descontroladamente.

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SEI NÃO…

No final de 2005 houve uma espécie de congresso num resort de luxo em Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, onde a nata da Justiça do Trabalho se reuniu para discutir suas questões. Normal, não fosse o fato de o grande patrocinador do evento ter sido a Federação Nacional dos Bancos, a Fenaban, braço sindical dos banqueiros.

Entre o ser e o parecer, me bateu certa dúvida quanto à conveniência de se aceitar esse tipo de patrocínio, posto que os bancos sempre foram os maiores, mais frequentes e volumosos clientes daquela instituição judiciária. Bateu aquele gostinho de pode isso, Arnaldo?

Quando, ainda meninote, ingressei no serviço público, recebi muitos e valiosos ensinamentos sobre como me portar frente ao público que atendia diariamente, principalmente grandes empresas, tendo como objetivo não dar margem a comentários negativos acerca do meu comportamento. Nunca tive nenhuma tendência ao malfeito, mas aprendi que uma insinuação, por mínima que fosse, faria estrago. Pareceu que os magistrados estavam muito tranquilos nesse quesito, tendo aproveitado para levar a família para participar da festa.

Nos dias atuais vêm sendo publicadas notícias as mais diversas versando sobre relações consideradas perigosas entre magistrados e malfeitores engravatados de diversas estirpes, eventos internacionais onde sentam na mesma mesa Jean Valjean e o inspetor Javert com as caras devidamente lavadas, literalmente se lixando para a opinião pública, tudo com um monte de vozes de alta patente defendendo essa normalidade e reclamando de implicância.

Nunca fiz coro para a atual onda de críticas à nossa justiça, STF à frente, sei de onde vêm as maledicências e, principalmente, conheço as reais intenções. Mas a coisa está de tal maneira escancarada, penduricalhos indecentes daqui, venda de sentenças dali, passando por acusações de abuso moral e sexual, que fico na difícil posição de advogado de vários diabos, quando na verdade quero mesmo é defender a instituição.

O problema é que tem uma galerinha aí que está arregaçando com a imagem institucional da Justiça, sempre prevalecendo o espírito corporativista que transforma eventuais punições em exceções, não em aplicação da regra.

Ajuda aí, tio!

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EMBATE

Vez em quando cometo esquisitices. Hoje cedo resolvi navegar por um site norte-americano, que continha o que me pareceu uma matéria sobre um determinado cachorro. O texto, escrito em primeira pessoa, na verdade era um desabafo de um tutor, sobre situação envolvendo seu cão.

Dizia o missivista que estava no aeroporto com seu cão (pela foto, vestido – ele, o cão – com uma espécie de uniforme militar de selva), quando ouviu uma senhora recomendando aos netos que não se aproximassem do animal, por tratar-se de um pitbul ou coisa do gênero que, mesmo dormindo, dá medo. Até aí, acho que tinha razão.

A questão é que o homem ficou aborrecido com o que considerou uma indesculpável manifestação de preconceito. Disse que seu cachorro participou de um desses infindáveis conflitos bélicos promovidos ou apoiados pelo governo de seu país, ocasião em que atuou na detecção de explosivos e salvou a vida de muita gente. Que o cão, cujo nome me foge, era extremamente dócil.

Resolvi cutucar a onça com vara curta e deixei um comentário. Primeiro, parabenizando o autor por ter conseguido juntar no mesmo parágrafo as expressões ‘militares dos Estados Unidos no exterior’ e ‘pessoas inocentes’, de fato algo a ser festejado. Concluí lembrando que os tutores são os primeiros a garantir que suas feras são mansas, não atacam nem mordem.

Não demorou e começou o meu processo de linchamento ou execução pública. Chamaram-me de chicano e cucaracha e juraram me encontrar pelas ruas dos isteites para me entregar aos bravos rapazes do ICE. O problema é que estou no Brasil, mas como ninguém me perguntou nada resolvi omitir esse detalhe. O ponto mais emocionante da contenda foi ter sido identificado como brasileiro pelos compatriotas que pra lá se mudaram. Aí a coisa ficou mais feia.

De chicano e cucaracha fui promovido a guerrilheiro-esquerdopata-comunista-fdp, descobri que grama e alfafa são a base da minha dieta e que minha falecida mãezinha roda bolsinha nas ruas de Los Angeles. Tudo isso por causa de um chachorro! Achei graça, faz tempo que não dou bola pra essa gente infeliz.

O que me deixou de fato com a pulga atrás da orelha foi a inesperada quantidade de nativos daquele país que postaram respostas positivas ao meu comentário, aduzindo seus testemunhos sobre a ação violenta dos agentes da imigração.

Então é isso: brasileiros residentes nos EUA me jogaram balaios de bosta, num delicioso inglês latino defenderam o tal ICE como se fossem imunes a suas ações, agiram como agem seus iguais em terras tupiniquins, raciocinando com o fígado.

Que bom que não tenho amigos nem familiares assim!

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TREM ESQUISITO

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MATA O MENINO!

Devem ser comuns para alguém como eu, já avançado nos anos (ui!), as crises periódicas de saudosismo, causadas por uma invencível memória afetiva de quando eu era um molequinho. Eu não devia ter mais de oito anos de idade quando saía correndo da escola pra casa, determinado a não perder um minuto sequer da série com meus heróis favoritos. A TV era preto e branco, naturalmente.

Já adulto, fui contemplado com a iniciativa de alguém que possivelmente compartilhava dessa minha saudade pueril, e resolveu inserir num canal de TV por assinatura toda essa velharia. A ideia foi ótima, mas o resultados foram em boa parte catastróficos: alguns títulos feriram de morte minhas fantasias adormecidas.

A chatice que me acompanha e cresceu conforme os anos foram passando se transformou em exigência e senso crítico, então a decepção chegou forte. O que vi foram produções ruins, efeitos especiais paupérrimos (não relevei nem o fato de terem sido produzidos nos anos 1960), atores no melhor estilo Cigano Igor, roteiros bem a caráter para a faixa etária de seu público. Algumas poucas e nada absolutas exceções, como Jonathan Harris (o Dr. Smith, da primeira versão de Perdidos no Espaço) e as séries O Tunel do Tempo, Viagem ao Centro da Terra, Viagem ao Fundo do Mar e mais uma ou outra.

A última crise me pegou há uma ou duas semanas, quando bateu uma vontade doida de reler uma coleção que me apresentou, na adolescência, a alguns monstros sagrados de nossa literatura. Chama-se PARA GOSTAR DE LER, da Editora Ática. Infelizmente a coleção não foi reeditada.

Mas eu queria porque queria reviver aqueles momentos, então parti em busca das estantes virtuais da vida e acabei encontrando livros usados em bom estado no mercado livre. Comprei, chegaram ontem.

O primeiro volume, de crônicas, escolhido ao acaso, foi lido de um fôlego. Foi muito bom fazer as pazes com o velho Braga, Drummond, Paulo Mendes Campos, e tem muito mais. Havia um bom tempo que não me maravilhava com a simplicidade poética com que Fernando Sabino retrata as coisas da vida cotidiana, que tem o poder de vez ou outra me arrancar uma gargalhada contida.

Fui para a cama com um misto de júbilo e alívio, o medo de nova decepção me incomodou muito enquanto os livros não chegavam. Para minha alegria – e do meu menininho interior, ainda vivo – meus heróis das letras se mostraram imunes à ação do tempo.

Se tudo correr bem, minha próxima investida será a coleção Vagalume, da mesma Ática.

Ken Follett que espere, agora estou ocupado e me divertindo com a singeleza.

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EXAGERADOS

Ao longo da minha divertida carreira de auditor da Caixa Econômica, tive a oportunidade de flagrar e/ou apurar casos de fraude. Nos anos iniciais a maioria dos casos passou meio longe da área bancária ou financeira, geralmente as ocorrências se deviam a investidas contra programas ou produtos sociais, como o PIS, o FGTS, contas de poupança tituladas por pessoas idosas, seguro desemprego. Mesmo longe da Faria Lima, era coisa de bandido.

Um ponto comum em todos os casos era o que chamávamos de ‘olho grande’. Numa época em que a informática engatinhava e a internet só existia nos delírios de Isaac Azimov, a impunidade nas fraudes bancárias era bem comum quando os meninos maus eram comedidos, o que significa que dois ou três golpes aplicados em períodos mais longos dificilmente seriam descobertos. O problema era o olho grande.

Quando a auditoria era realizada nas dependências da rede bancária, o trabalho era feito com base na movimentação dos meses anteriores, ocasião em que a documentação, principalmente de pagamentos, transferências e repasses, era analisada na totalidade. Era aí que eu detectava os fatos estranhos, com a repetição incomum de nomes de sacadores e procuradores. Bastava cruzar esses documentos e… bingo! Tinha ‘sortudo’ que sacava o FGTS, por exemplo, 15 vezes em um único mês e relativo a contratos de trabalho distintos em períodos coincidentes, algo humanamente impossível no mundo da legalidade. O cabra conseguia ser empregado de várias empresas ao mesmo tempo.

Esses meninos danados me deram um trabalho igualmente danado. Numa realidade sem Excel eu tive que produzir quadros imensos demonstrando as falcatruas e, em seguida, redigir verdadeiros tratados em forma de notas explicativas e índices remissivos para a chefia entender.

Dia desses me lembrei dessa fase cansativa do meu currículo, ao acompanhar as reportagens voltadas para o caso Master. O tempo passa, o tempo voa, mas a boa e velha ganância mais uma vez tratou de entregar os malfeitores.

O caso é o seguinte: o tal Vorcaro já tinha se dado muito bem por muito tempo, já tinha amealhado alguns bilhões para beber água de coco em qualquer praia do mundo. Para esse happy end bastava entregar seu banco falido para os BTG e Bradesco da vida por um valor simbólico e correr para o abraço, mas Renato Russo já ensinou que “…quem tem mais do que precisa ter, quase sempre se convence que não tem o bastante”. Daí insistiu na aventura de vender o banco, seus títulos e carteiras fantasmas ou podres para o BRB por um valor na casa dos bilhões. Teve gente no Banco Central e no governo que achou aquilo esquisito e assim se iniciou a investigação e a derrocada.

Da mesma forma que os pés rapados pegos por este auditor de periferia abusaram da quantidade de fraudes e, com isso, desnudaram a farsa e se ferraram, o tal Vorcaro se recusou a fazer o simples e abrir mão de mais alguns bilhões, dando no que deu.

Tem sido muito brabo me equilibrar até a formatura do meu filho, mas adoro meu travesseiro.

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ELES DE NOVO!

À parte a horda de políticos, centroavantes do meu time e da seleção, vizinhos e chefias que ao longo do tempo abusaram da minha outrora inabalável paciência, agora chegou uma nova categoria insistindo na arte de me tirar do sério.

Já tive a oportunidade de falar dessa raça aqui e aqui neste longevo e mal cuidado cafofo, mas ultimamente a coisa tem atingido patamares que me deixam com o espírito digno de um torcedor do Santos. São eles, os golpistas. Agora eletrônicos.

Tenho convivido com essa turma diariamente, recebo ligações da “área de segurança do banco tal” me atazanando sobre transações suspeitas ocorridas na minha conta. Nunca espero a finalização, mas é bem provável que a intenção é me pedir a senha. Comigo eles não se criam, os anos como bancário me tornaram uma rameira idosa à prova de golpes mas, cá pra nós, isso enche o saco.

Percebo que atualmente não dá para criticar quem cai na lábia, porque a coisa vem sendo feita com qualidade suficiente para levar no bico quem não tem maldade no coração, coisa que me caracteriza e sempre me leva a desconfiar e fazer testes que, no mais das vezes, põem por terra as simulações que são colocadas.

Eis que, de repente, numa prova de que evoluir é preciso e inevitável, recebo um e-mail em tese encaminhado por um certo PEDÁGIO DIGITAL, que me alerta sobre pendências de pagamento de minha responsabilidade, que estão na iminência de serem encaminhadas ao Detran. Pois é, a galera tá diversificando o portfolio, de olho no faturamento e apostando na meritocracia.

Meda…

 

Fofo, né?

O detalhe é que o formulário foi criado por código, o que permite que, ao clicar no campo CONSULTE SUA PLACA AGORA, a vítima seja encaminhada a uma página de consulta onde é solicitado que digite a placa de seu veículo. Tudo caprichado a ponto de ter ares de documento oficial e digno de confiança.

A título de teste digitei dados de placas imaginadas aleatoriamente, e o resultado é sempre o contido no bloco vermelho: o mesmo artigo do Código de Trânsito infringido, tipificado como grave, 5 pontos na CNH e R$195,23 de multa a pagar. Para alívio dos incautos, também é oferecida a oportunidade de gerar a guia e realizar o pagamento.

Desconfio que essa grana não irá para os cofres públicos.

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FILIUS MERETRICIS

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BRAZEN

Nós, brasileiros, somos historicamente um povo privilegiado, abençoado, na arte de driblar. Como se sabe, o drible é aquele recurso em que você engana o adversário agora para, em seguida, se dar bem lá na frente.

Um dos dribles mais festejados e plasticamente belos é o chamado drible da vaca. Deste, nossos incansáveis artistas – nem todos da bola – acabaram criando algumas variações, como esse aí embaixo.

No caso do Mala, a variação leva o nome de ‘drible da vaquinha’, recurso bem sucedido quando aplicado, no passado, por um certo presidiário.

Os fiéis adoram. E apóiam.

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INGRÊIS PROCÊIS

No final dos anos ’80 fui estudante de Letras da Universidade Católica de Goiás, atual PUC/GO. Foi quando algumas das minhas esquisitices afloraram, como adorar as aulas de latim. Só eu gostava. Na disciplina Língua Inglesa, tive duas professoras que jamais vou esquecer: Áurea, brasileira e Dilys, canadense. 

O assunto hoje é Dilys, uma criatura deliciosamente chata. Exigente. Divertida. Chata, no melhor dos sentidos.

A chatice da mestra residia na profunda exigência quanto à pronúncia, tínhamos que repetir a leitura em voz alta de parágrafos inteiros, até que ela se desse por satisfeita. O padrão do inglês era o norte-americano com ambas as professoras.

Sempre que rola um evento da MotoGP – e neste abençoado 2026 temos o privilégio de um fim-de-semana inteiro do GP Brasil no autódromo de Goiânia -, eu saio garimpando transmissões da TV, que são infelizmente raras. Não só pela emoção das corridas, com aquele bando de loucos ultrapassando os 300 km/h sobre duas rodas, mas também pelas entrevistas dos pilotos. Por algum motivo, há uma concentração grande de pilotos espanhóis e italianos, e sempre me lembro da Dilys quando os ouço falar.

Hoje me diverti com Marc Marques, discorrendo sobre seu desempenho no treino oficial. O inglês desse povo é delicioso de ruim.

‘To ride fast’ eu achei maravilhoso. 

Seriamente inclinado a indicar a Profª Dilys para o carinha dar um talento. Juntando com os demais espanhóis e a italianada, dá uma turma boa.

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BURACO À FRENTE

Houve um tempo em que eu considerava a cobrança de pedágio nas estradas uma verdadeira aberração. Ora, se até no preço do chiclete está embutido no mínimo um imposto, sem contar os explícitos como o IPVA, por que haveríamos nós, povo, de pagar esse extra para o governo e seus amiguinhos?

Até cheguei a cometer minhas imprudências e barbeiragens em solos estrangeiros por aí, além de ter viajado como passageiro por rodovia em outros países. Foram oportunidades para observar que não há exceção nesses países quanto ao pedágio, e não é barato. Decidi que deveria sossegar o facho ante tais exemplos primeiro-mundistas, deixando de ser apenas um chato subdesenvolvido.

A BR-153, mais especificamente no trecho de cerca de 170 km entre Goiânia e Goiatuba, passou a ser uma espécie de reduto para a galera aqui de casa, a partir do ingresso de meu filho na faculdade. Ou íamos até lá visitá-lo ou, quando não rolava carona, íamos buscá-lo para um fim-de semana. Divertido no geral, apesar de alguns trechos cravejados de buracos e asfalto ruim. Mas o pedágio estava lá, em dois pontos nesse curto percurso.

Foi quando notei que deveria direcionar melhor a minha má vontade: a questão não é o pedágio em si, mas quando pedágio e buraqueira jogam no mesmo time.

A partir de janeiro deste ano o percurso sofreu uma esticada, quando o moleque teve que complementar a fase final do curso em Araguari-MG, passando a distar 390 km de casa. Pela mesma rodovia.

Voltando de lá em fevereiro, fui engolido por uma cratera lunar de responsa. Na hora não senti nada de mais preocupante, consegui chegar em casa de boa. Porém, ao sair para o supermercado no dia seguinte observei um papo bem pronunciado no pneu dianteiro esquerdo. Vi que era caso de substituição e procurei uma loja, onde foi constatado que precisaria trocar os dois dianteiros. Saí de lá R$1,3 mil mais pobre.

Não sei se é coincidência, gozação ou mera feladaputice, o fato é que os trechos mais excomungados da estrada estão nas imediações dos postos de pedágio. Desde então adotei o Waze como fiel companheiro que, além de indicar o caminho, ainda me avisa sobre potenciais fontes de dor de cabeça. Chega a impressionar a frequência com que o app me avisa sobre BURACO À FRENTE. Eu diria até que é uma meia verdade, porque os buracos vêm sempre de turma, não sendo exatamente justo o Waze colocar no singular.

Como bem demonstram as duplas sertanejas, uma desgraça nunca vem só: o valor do pedágio sobe a partir de 26/03/2026, segundo comunicado da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Algo próximo de 100% de reajuste para várias rodovias de Goiás e Minas Gerais, claro que o trecho entre Goiânia e Araguari está devidamente contemplado.

Eu me ufano de quem me afana.

 

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O PEQUENO DRAGÃO PRETO

Na infância meu irmão, 11 meses mais velho do que eu, fazia jús à alcunha de ‘grandão’. Alto, forte, atlético, ignorante, ninguém mexia com ele. Quanto a mim, aos 11 ou 12 anos, era um bostinha raquítico que gostava de Cecília Meireles e Rubem Braga. O problema é que eu vivia me metendo em encrenca e não podia contar com o apoio do meu irmão, que sempre dava razão para os outros.

O Grandão puxou à minha mãe e era branco leitoso, o que lhe dava tranquilidade para ser racista comigo e todos os vizinhos que ousavam carregar uma dose extra de melanina. Como se recusava a me defender, os branquelos ao redor me atazanavam com a certeza da impunidade. Mas eu reagia.

Não foram poucas as vezes em que me envolvi em brigas na rua, geralmente apanhava feito cachorro ladrão e me contentava em acertar uns tabefes inócuos na fuça dos infelizes, e assim corriam os dias no Jardim Santo Antônio, Osasco, São Paulo.

Passam-se os anos, mudamo-nos para Brasília, sosseguei meu facho e meu irmão preferiu continuar com os esportes, futebol à frente, o que me rendeu algum alívio. Já adolescentes, nossas diferenças agora se resumiam aos boletins escolares. No meio em que nos inserimos na capital federal, com meu primo à frente, prevalecia o gosto pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, em contraponto ao nojo à ditadura então reinante. 

Mas eu sosseguei o facho no velho estilo ‘pero no mucho’. Não raras vezes participei de manifestações de protesto pelas liberdades democráticas no campus da UnB, na época bem comuns mas nunca sem risco. Assisti a peças de teatro com textos de Plínio Marcos e Leilah Assumpção, muitas vezes tivemos que sair correndo porque as ‘autoridades’ haviam chegado para nos punir pela ousadia. Perdi um violão numa memorável noite em que tive que fugir dos home porque estávamos tocando Vandré num barzinho, coisa de subversivo. Delícia de tempo!

O tempo corria ligeiro e de repente me vi entrando para o serviço público, via concurso de âmbito nacional. Foi quando saí de casa, aos 20 anos, me mudei para Goiânia porque não alcancei classificação para ser lotado em Brasília. Vi boa chance de fazer carreira em uma empresa pública celetista vinculada a um ministério (Ministério do Interior, Mário Andreazza, aquele), que me pôs para atender um público identificado como povão, e eu gostava daquilo. Sentia certa repulsa a tudo que chamavam elite e me sentia especialmente feliz ante a consciência, ao final do expediente, de que tinha conseguido ajudar alguém mais lascado do que eu.

Mais algum tempo a empresa em que eu trabalhava foi extinta por uma maquinação ministerial e, de repente, me vi na condição de bancário da Caixa Econômica, que assumiu as funções sociais, o quadro funcional e o riquíssimo patrimônio do BNH. Para mim, em termos de trabalho, nada mudou. O que mudou foi o tratamento dado a mim e meus colegas. De repente, passamos a ser tratados como funcionários de segunda categoria, inclusive pelos teoricamente iguais na Caixa, que não perdiam uma oportunidade de soltar um comentário jocoso acerca dos novos coleguinhas. Tivemos que trabalhar em dobro para provar que produzíamos a metade e que nada tínhamos a ver com o que se passava nos gabinetes.

Meu lado brigão meio que aflorou, despertou, principalmente a partir do momento em que minhas filhas passaram a ser discriminadas pelo plano de saúde. Por serem adotivas, num primeiro momento foram consideradas ‘não elegíveis’ como minhas dependentes. Conversei, briguei com os burocratas baba-ovo de plantão, recorri à imprensa, procurei o então Juizado de Menores, briguei com o juiz, soltei os cachorros. Na época eu era mais corajoso do que hoje, no que dependesse da franga atual talvez as coisas tivessem se perpetuado como estavam. Minha tática era causar constrangimentos, o que chegou à alta direção em Brasília que, incomodada, promoveu uma reunião. Só que eu compareci. De repente o neguinho que brigava na rua em Osasco, sabendo que iria apanhar, ressurgiu das cinzas e falou coisas que o bom senso não recomendaria. Botei os caras na condição de fascistoides, encontrei respaldo em alguns colegas que criaram coragem e também se posicionaram, até que mudou a direção da empresa e colocaram no topo algo mais parecido com um ser humano, que determinou a extinção da discriminação. Não me lembro bem, mas acho que rolou um chopp.

Éramos excepcionalmente competentes naquilo que fazíamos e dominávamos, ninguém desejava trabalhar na nossa tão complexa área. Então, demorou, mas conseguimos nos impor frente aos demais, e algum tempo depois nossa origem não era mais lembrada.

No BNH tínhamos uma vida mais tranquila quando o assunto eram as questões de cunho trabalhista. Uma vez na Caixa, fomos apresentados a uma novidade: campanha salarial em setembro, assembleias, rodadas de negociação e, ao final – sempre -, a greve. O clube da Caixa era nosso quartel-general, ponto de encontro e fonte de informações nesses períodos, e eu achei legal demais a união da galera em torno de um objetivo comum. Participei de passeatas, piquetes, dávamos entrevistas à imprensa (que sempre se postou ao nosso lado), contatávamos políticos influentes.

Não era exatamente uma situação confortável, a direção da empresa jogava pesado com desinformação (ou alguém aí acha que fake news é coisa recente?), ameaças de punições, corte de ponto, exoneração dos cargos comissionados. E nós ali, seguindo em frente sem demonstrar o medo que de fato sentíamos, mas sabíamos que qualquer capitulação botaria tudo a perder. Fizemos greves históricas que duraram semanas inteiras. Quando a vitória vinha, mesmo que parcial, o sentimento era do mais puro júbilo e orgulho por termos lutado tanto e tão honestamente, enfrentando um adversário gigantesco e poderoso. Ao longo de décadas, essa era nossa rotina quando setembro se avizinhava. Medo sim, covardia jamais!

Hoje, na minha poltrona de aposentado, vez por outra me ponho a relembrar as brigas de rua, os embates frente à discriminação contra minhas filhas, a luta para ser visto como um igual frente aos colegas, as batalhas diárias durante as campanhas salariais, e me vejo como um atrevidinho digno de uns cascudos, que sabia que podia levar boas porradas mas intuía que eventual dor moral por fugir da briga seria bem mais sofrida. 

Essas reminiscências foram meio que provocadas por um vizinho, que ontem veio comentar comigo no elevador que o governo brasileiro estava brincando com fogo, afinal o grande irmão do norte é a maior potência do planeta e não custava nada ceder para não ter briga.

Respondi candidamente que concordava com o governo brasileiro, porque cair de quatro não deve jamais compor o roteiro. Sim, candidamente, até meio que de forma casual. A minha vontade mesmo era falar um monte pra ele, principalmente por se tratar de um advogado. Fiquei curioso sobre como costuma se portar frente a um poderosão no tribunal.

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AH, A BUROCRACIA!

Já falei aqui neste cafofo sobre o vírus da hepatite C, que me invadiu há algumas décadas e me forçou a um tratamento punk no final dos anos 2000. Chama-se HCV o fidaputa.

Passou-se o tempo, lá por 2017 ouvi por acaso um colega comentar sobre uma lei que estabelecia isenção do imposto de renda para brasileiros acometidos de determinadas moléstias, hepatopatia grave incluída. Não que eu não gostasse de pagar imposto de renda, sempre adorei, mas imaginei que seria divertido não pagar mais.

Apelei a São Google e descobri que precisava me inscrever no gov.br e acionar o canal Meu INSS para dar entrada no processo. Foi relativamente simples, tudo online, juntei toda a documentação de que dispunha, exames laboratoriais e de imagem, biopsia, relatórios médicos, artigos técnicos nacionais e da gringa, e me pus a esperar os 30 dias de prazo autoconcedido pela autarquia para me chamar para um tête-à-tête a título de perícia médica. Passaram os 30 dias e, por volta do 55º, recebo pelo correio um documento informando que meu pleito foi indeferido. Como assim, véio, cadê a perícia?

Vi que havia a possibilidade de recorrer da decisão pelo mesmo canal, e assim o fiz. Escrevi um tratado, juntei novamente a documentação e dei o enter. Mais 30 dias, of course.

E se passaram os tais 30 dias, depois 40, 120, 180, quando faltavam 16 dias para completar dois anos de paciente espera e consultas semanais ao portal, eis que surge um tal acórdão. Alvíssaras, pensei. Começo a ler e vou murchando, o documento é assinado por uma junta de cinco ou seis autoridades no assunto, que declararam ‘conhecer do recurso’ e negar provimento. O motivo? “Total incompetência da turma para julgar o recurso”. Demoraram dois anos para se declararem incompetentes, com o que concordei mas não no sentido que tentaram dar à palavra. Se aquele canal era o único, onde se encaixa a tal incompetência?

Aí meu espírito invariavelmente pacífico se emputeceu. Decidido a ir pro pau, passei a procurar advogados especialistas, achei o Dr. Rodrigo (cabra bom!), combinamos uma parceria no melhor estilo telecatch e fomos à luta.

Pra resumir a encrenca: a inicial data do início de 2022. E recolhe custas, e junta documentação, a União oferece defesa e contestação, meu advogado apresenta contrarrazões, e rola citação, e tome petição, o juizo produz relatório, faz despacho, manifestação e… decisão. Ganhei!

Calma, que melhora. Mas demora. Foi só a decisão de 1º Grau, já eram meados de 2023 e ainda tinha um estoque imenso de esperneios. E eu ali, alprazolam a postos, acompanhando.

Em julho de 2024 o juiz emitiu acórdão confirmando a decisão de 1º Grau, que transitou em julgado em setembro. Eu acho que merecia um chopp.

Como as coisas não funcionam na velocidade que os mortais desejam, somente agora neste aprazível abril de 2025, no mais tardar maio, terei o prazer da ausência do imposto de renda no meu contracheque. A devolução do que paguei indevidamente vai ter que esperar mais um bocadinho mas, pra quem já esperou uma eternidade, tá valendo.

Em resumo, é isso: a espera foi compensada, a União se ferrou comigo e a partir de agora eu sou praticamente uma igreja no quesito imposto.

Chamam a atenção, porém, alguns detalhes:

  • o desrespeito escancarado com que fui tratado pelos iluminados do INSS na fase administrativa, que demoraram dois anos para fazer a caca que fizeram. 
  • a qualidade (ou falta de) com que o lado de lá atuou juridicamente. Além de terem, em diversas ocasiões, detonado a fina flor do Lácio, os advogados da União (leia-se PFN), ainda cometeram horrendos pecados ao defenderem a tese de que a hepatite C constitui um mal menor (mesmo ante a informação em site oficial da FDA norte-americana (que anexei) de que a hepatite C respondia por mais óbitos do que a AIDS no final dos anos 2010). Ainda tiveram a pachorra de afirmar que o juiz não tinha competência para decidir, porque não era médico. Oi? Quando li aquilo, concluí que a União não precisava de inimigos. 
  • O tempo todo agiram como guardiões da chave do cofre, desconsiderando que o espírito da Lei visa garantir que os valores envolvidos sejam revertidos para o suporte a medicamentos, consultas e exames médicos que são constantes e necessários.

Qualidade de vida ao cidadão, difícil que compreendam. 

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