TEMPO REI

Claro que os sintomas foram se apresentando sistemática e moderadamente, mas pelo jeito eu não estava muito a fim de levá-los a sério. Começou com o pedido do aparelho de barbear emprestado, acabei comprando um somente para ele, mas a ficha parece que ainda estava volitando na minha frente, não caía.

Também encarei com absoluta normalidade quando, no boliche, ele pediu sapatilhas 43, afinal já fazia algum tempo que era mais alto do que eu. Bem mais alto, aliás.

Ainda hoje nos divertimos, Eliana e eu, repetindo palavras sem nexo que ele costumava falar quando tinha lá seus dois ou três anos. Acho que vai um pouco de saudade do tempo em que o tínhamos sob nossas asas poderosas e infalíveis, hoje ele está a cada dia mais solto, livre, senhor de si. Evidente que o criamos para ser assim, mas dói.

A novidade mais recente foi a namorada, uma teteia que me deixou orgulhoso de seu bom gosto, mas que também fez apitar o alarme da velhice, da vida que segue, do progresso inadiável daquilo a que chamamos tempo. De repente me pego falando sobre política ou filosofia com uma recém ex-criança e o cara, com seu um metro e oitenta e tals, já se sente credenciado a reivindicar uma cama melhorzinha, o que me põe a avaliar se não é hora de um quarto melhorzinho também.

O moleque que queria ser bombeiro e salva-vidas de piscina hoje tem bem sedimentada a opção pela medicina, que vai tentar em janeiro ou fevereiro do ano que vem, a depender do andar da carruagem da pandemia e dos restos do que foi um dia o Ministério da Educação deste país à deriva.

Ele já cresceu muito e quer continuar crescendo em outros sentidos, todos eles, sabe que tudo ao redor exige muito mais do que exigiu de mim quando tinha sua idade. 

Ontem nos demos o direito a uma espécie de rebeldia contra a disciplina algo rígida a que nos impusemos nestes tempos de isolamento e aportamos num foodtruck a poucos metros de nosso prédio. Um sanduba de responsa brindou o restinho de sábado com alguma leveza, parece que nossas almas ansiavam por algo do gênero. Falamos sobre viagens, lembramos os lugares que já visitamos e ele citou seu fascínio pelo Canadá, onde ainda não estivemos.

Fui para a cama algo incomodado, por realizar que esses momentos de gostosa interação vêm rareando ultimamente. Claro que o dia-a-dia de estudos e trabalho nos rouba muitas oportunidades, mas somos pai e filho com uma história gostosa demais para permitir a normalização de qualquer formalismo ou distanciamento entre a gente. Como a mãe dele estava em viagem, temos um ótimo pretexto para em breve incluí-la na repetição do programa, naquele ou em outro lugar, para celebrar essa atmosfera que sempre nos envolveu aos três e nos faz assim, unidos e queridos um do outro.

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LA CARTA MALEDETTA

 

“Bem-vindo à administradora do seu cartão. Se você deseja isso, digite 1, caso queira aquilo, digite 2” 

“Digite o número do seu cartão com 16 dígitos”

“Digite o ano do seu nascimento com quatro dígitos”

Digite o dia do seu nascimento com dois dígitos”

Digite os quatro últimos números do seu CPF”

Tum… tum… tum”

                           (…)

“Bem-vindo à administradora do seu cartão. Se você deseja …”

“Observamos que o cartão digitado é novo e se encontra bloqueado; caso queira solicitar o desbloqueio, digite 5; caso tenha recebido o cartão sem tê-lo solicitado, digite 6 para falar com um de nossos atendentes”

“Seis. Infelizmente não conseguimos validar seus dados, observe os números digitados e tente novamente tum… tum… tum”

                            (…)

Não digo qual é o banco, porque tenho muito carinho por ele. Mas essa história já tem cerca de seis meses, e começou com um alerta que recebi via sms num sábado à noite, que dizia algo assim: “Compra não autorizada, entre em contato com a Central de Cartões”. Agradeci aos deuses do Olimpo por não ter sido autorizada a transação, porque vi que era uma tentativa fraudulenta decorrente de um provável crackeamento do meu cartão. A Central de Cartões providenciou o bloqueio do meu cartão, a reemissão e envio de um novo. Beleza.

Ocorre que eu moro numa cidade chamada Goiânia que, penso eu, não é muito amada por carteiros e demais profissionais que precisam de endereços oficiais para realizar seu trabalho. A questão é que o cadastro da prefeitura estabelece um padrão de endereço com rua, quadra e lote, já na conta de energia esse mesmo ponto específico do planeta vem com rua e número. Isso sem falar das variações sobre o mesmo tema, em que o que era rua vira avenida e não raro o cadastro da prefeitura indica Rua Pelé e os demais citam um certo Edson.

Deve ser motivo de orgulho para a Câmara de Vereadores pelo menos, porque ninguém por aquelas bandas nem no Paço Municipal parece se incomodar com o fato de o mesmo logradouro atender pelas alcunhas de Rua 83, Avenida 83 e Rua Henrique Silva. Sim, Setor Sul de Goiânia, vejam aí no Google Maps. 

Pois bem: para finalizar meu atendimento a Central de Cartões do tal banco me pediu para informar verbalmente (“para sua segurança esta ligação está sendo gravada”) meu endereço completo. No que informei rua e número, a mocinha me disse que os dados não conferiam com seus registros. Então eu perguntei se o padrão dela inclui rua, quadra e lote e ela me respondeu que, por segurança, não poderia me dar aquela dica. Lembrei a ela que antes de travarmos aquele animado colóquio eu tinha passado por agradáveis dezenas de minutos atendendo às determinações de um robô, tendo digitado meus dados para identificação no sistema, donde não se justificava travar o atendimento ‘por questões de segurança’.

Não teve jeito: para solução do impasse eu precisaria ir até uma agência munido de meus documentos e um comprovante de endereço para realizar minha atualização cadastral. Ponderei que já há alguns anos o guarda não me deixa passar pela porta giratória, porque alguém da gerência disse a ele que tudo pode ser resolvido pelas maquininhas estacionadas na sala de autoatendimento e ele, como bravo soldado que é, barra a mundiça petulante que acha que pode chegar e ir entrando. Ela, então, me deu a opção de enviar meu comprovante de residência via internet. Assim o fiz, tendo recebido do site do banco a informação de que em até 72 horas a alteração seria processada. Ô, Gloria!

Passadas as tais 72 horas, entro no site e verifico que não havia mais a informação de processamento pendente. Então, serelepe, telefono para a Central de Cartões para solicitar que meu novo cartão de crédito fosse, finalmente, desbloqueado. As decepções que meu exacerbado otimismo às vezes tem que enfrentar ainda vão me mandar para o IML, fato é que a mocinha (depois das gravações, claro) me disse que meu endereço estava desatualizado e, por isso, não poderia comandar o envio do cartão. Informei que tinha feito a atualização e fiquei sabendo que deveria tê-lo feito via App, não no site. Sim, porque em que pese o banco e a administradora do cartão terem o mesmíssimo nome e adotarem a mesmíssima logomarca, são na verdade empresas distintas cujos sistemas não se falam. Achei normal.

Uma vez vencidos esses pequenos embaraços burocráticos, aguardei a chegada do novo instrumento de consumismo. Chegou, bonitão, pretão, cheio de marra com aquele aspecto de requinte que eu fiquei me perguntando se de fato merecia. Liguei para a Central de Cartões para solicitar o desbloqueio.

“Bem-vindo à administradora do seu cartão. Se você deseja…”

“Informamos que o cartão digitado foi cancelado. Digite 9 para falar com um de nossos atendentes”

A esta altura minha paciência começava a dar sinais de cansaço. O rapaz que me atendeu disse que o sistema informava que foram realizadas três tentativas de entrega do cartão no meu endereço, mas que por falta de alguém no local para recebê-lo ele foi devolvido à origem e cancelado.

Dois detalhes conflitam com a versão oficial do sistema: a) moro num condomínio com portaria 24 horas. Por essa portaria eu recebo com regularidade correspondências diversas, contas de energia elétrica e gás, sandubas do iFood, propagandas da legítima brazilian wax, folhetos com ofertas de supermercados, mas o banco alega não conseguir me entregar um mísero cartão de crédito; b) apesar de o banco ter tentado me entregar em três oportunidades sem sucesso, o cartão está aqui comigo, recebido na primeira tentativa.

Dããã!

A encrenca chegou a tal ponto que bateu um misto de cansaço e preguiça,  fazendo com que a opção ‘deixa pra lá’ passasse a comandar as ações. Então, já tem tipo seis meses que só utilizo o cartão de crédito de outra instituição. O interessante é que minha fatura, que invariavelmente me cobrava mensalmente alguns milhares de reais, passou a vir zerada e ninguém do tal banco entrou em contato comigo para saber o motivo.

Vai ver ainda não notaram.

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VADE RETRO, RELIGIO!

Já na adolescência tive meus primeiros contatos com a imposição de certo sentimento de culpa, por não gostar de hóstia nem de dizer amém. Sempre achei chato e pouco inteligente passar pano para aquelas historinhas mal contadas naquele livrinho mal escrito por homens que estavam longe de serem santos. Reconheço que me faltava boa vontade – ou sobrava preguiça – para tentar pelo menos me integrar à turba, porque o tal senta-levanta-agacha-ajoelha das missas era para mim um martírio tragicômico.

Percebi que minha rebeldia não era acompanhada por valentia, pois raramente opinava ou permitia que transparecesse essa minha maneira herética de ser. Segurava o questionamento quando alguém vinha com ‘graças a Deus a mulher se curou do câncer’, porque não pegava bem perguntar por que Deus não evitou o câncer na mulher. Já tava ali mesmo, né não, o que custava?

Percebo hoje que não me mostrava por simples instinto de sobrevivência social, porque os não alinhados como eu eram vítimas de conceitos e preconceitos. Eu levava a vida de boa, trabalhava, estudava, saía com os amigos – tinha amigos! -, namorava, tocava violão, curtia meus discos e livros, mas não gostava de religião, o que, por si só, fazia de mim uma pessoa má. Considerando que estávamos em plena ditadura e eu de quebra não simpatizava nem um pouco com o Ustra, minhas convicções político-religiosas faziam de mim uma espécie de protótipo de pária. Mas tinha orgulho disso.

O tempo passa, o tempo voa, e segui entrando em igreja só para acompanhar o casamento de alguém ou – mais recentemente – tocar em eventos. Não mudei de opinião, em que pese ter tido algumas experiências que me aproximaram de doutrinas interessantes, porque mais próximas da realidade. Passei a ler sobre o espiritismo, por influência do meu então sogro, que era do tipo que matava a cobra e mostrava a cobra morta, ao pregar o bem, a caridade e a solidariedade e praticar isso tudo em seu dia-a-dia. Toda semana promovia a sopa dos pobres, vivia mendigando às empresas de sua cidade donativos para os lascados da região, visitava enfermos, dava passes. Aí, de repente, chegou o Alzheimer e suas consequências o obrigaram ao isolamento. A partir de então teve somente a família por companhia até morrer, porque seus outrora companheiros de centro espírita simplesmente o abandonaram. A religião é feita por pessoas, e essas pessoas macularam seriamente minha ainda tênue admiração pelo espiritismo. Chico Xavier foi pra vala comum.

As incoerências e contradições se multiplicam nas religiões. De repente aparece aquilo que ficou conhecido como neopentecostalismo, com seus pastores, bispos, apóstolos e assemelhados emergidos dos subterrâneos, vendendo caneta ungida para os crédulos, fazendo fortuna à custa de um povo miserável que jamais leu um livro na vida, ao mesmo tempo em que a galera do Vaticano acoberta os crimes sexuais de seus celibatários assexuados de hábito e crucifixo. Fora do cristianismo tem aquela turma que joga bomba, mete bala e sonha com dezenas de virgens num paraíso idealizado. Dizem que essas barbaridades e promessas estão no livrinho deles, mas eu duvido que não tenha um cretino fazendo as vezes de padre ou pastor para dar a interpretação do texto conforme a necessidade de momento.

Minha ojeriza ganha corpo num momento péssimo, em que uma garota de 10 anos aparece grávida em decorrência de estupros provavelmente frequentes, sofridos desde quatro anos atrás, praticados por um tio cujo nome não é divulgado nem seu rosto conhecido. Em casos da espécie nosso ordenamento jurídico permite a realização de aborto que, de fato, foi realizado, mas paradoxalmente a fúria dos ignóbeis e hipócritas de plantão recai sobre a vítima, tachando-a de assassina y otras cosítas más. Todos com a bíblia nos respectivos sovacos, não reconhecem na criança a condição de vítima de um monstro. Talvez por serem, igualmente, monstros.

Não odeio essa gente, desprezo me parece a palavra mais adequada. Não são de fato totalmente inúteis, apesar de merecidamente desprezíveis, porque ao menos servem para me mostrar que estou no bom caminho pelo simples fato de ser diferente deles.

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UTOPIA

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IDIOMA DA PAZ

Já tem muitos anos que defendo a tese de que a música é a raiz da solução de todos os conflitos. Se fosse estudada e levada mais a sério a paz mundial não seria apenas discurso de miss. O segredo está na tolerância: dó é diferente de ré, que é diferente de mi, que não é igual a fá, e assim as notas desfilam mostrando todas as suas diferenças e nenhuma necessidade de mudar para ficarem mais parecidas com as demais. Como se não bastasse a coisa ainda tem os chamados acidentes, os bemóis e sustenidos, que cumprem com louvor a tarefa de complicar o aparente caos. Nem vou falar dos comas, que são subdivisões no meio dessa bagunça que chegou prometendo esculachar os ânimos de qualquer sonhador pacifista.

Na prática, porém, os personagens a que me refiro se juntam de maneira ordeira e pacífica quando resolvem virar música, e aquele balaio de gatos acaba criando o fenômeno de nome harmonia e é responsável por uma Nona de Beethoven, por exemplo.

Parece que de certa maneira essa proposta inata, esse ensinamento contido na música acaba tocando espíritos. Ontem passei boa parte da tarde curtindo peças do já relativamente antigo projeto Playing For Change, que acho uma das coisas mais geniais concebidas no mundo da música popular em tempos globalizados. Admito, porém, que minha porção envergonhadamente masoquista adora ser confrontada com situações que mostram o quão ignorante ou desatualizado eu sou, daí a achar a Orquestra Mundana Refugi e perceber que ainda não tinha vivido foi um pulo.

África, Oriente Médio, Taiwan, Cuba, imagine-se um bando de refugiados dos lugares mais diversos desse mundão, que o acaso cuidou de trazer para terras tupiniquins e juntar com outros tantos brasileiros num ambiente musical de vanguarda. Cada um com sua história e seu talento, seu instrumento que a princípio nos parece esquisito, sua trajetória triste mas que permite um sorriso e um olhar à frente.

Ainda não vi tudo o que há gravado dessa turma, mas já sei que merecem o sucesso que fazem em cada apresentação. Espero em breve vê-los ao vivo, obrigatoriamente em Sampa e num futuro pós-covid.

 

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DE ARAQUE, MAS HERÓIS

Na minha distante infância eu era fã de luta livre, que os caras da TV achavam mais chique chamar de telecatch. Não estava sozinho: toda minha família e a vizinhança e o país curtiam aquele faz-de-conta bobinho que recentemente me surpreendeu ao se mostrar ainda vivo para o público norte-americano. Ainda bem que Mr. Abravanel persiste sem inventar de trazer pra cá porque… cá pra nós… né?

Mas havia ali um ingrediente que indiretamente fez minha cabeça e a de muitos: a decência, que alguns chamam de ética. Meus ídolos da época eram o Ted Boy Marino, Tigre Paraguaio, Fantomas, não deve ser por acaso que eu não me lembre dos ‘vilões’. O maniqueísmo era evidente e proposital, havia algo de educativo naquela palhaçada dramaticamente mal ensaiada e perfeita no quesito atlético. O bem vencia o mal, sempre, essa era a moral da história ao final de cada luta, entendendo-se por agentes do bem aqueles lutadores que nunca-jamais-em-tempo-algum lançavam mão de meios desonestos para tentar vencer, isso era tarefa dos vilões, que sempre se ferravam.

Então eu cresci, envelheci, e nunca mais curti o bom e velho telecatch. Mas me lembrei dele há alguns dias: ao ver numa postagem em rede social de um amigo tudo aquilo a que chamam fake news, busquei um canto reservado e alertei-o em offA resposta dele me surpreendeu, porque ao invés de aceitar e se corrigir ou, no que imaginei a pior das hipóteses, discordar e argumentar, ele simplesmente me indicou um link que levava a uma publicação criminosamente mentirosa do lado de lá, como que justificando seus atos porque os outros também agem assim.

Foi quando as lições da trupe de Ted Boy Marino me voltaram à mente e se impuseram para me mostrar que não, a rachadinha de lá não justifica uma nota fria aqui. E ponto. 

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MÃE

Faltavam poucos minutos para as três da tarde quando cheguei no hospital. O cansaço era algo exagerado, não parecia natural, mas considerei que o acúmulo de perrengues por aqueles dias fosse uma boa justificativa.

Encontrei minha mãe de certa forma diferente, sorria com vontade e fugia do hábito de pessimismo em relação à vida. Sorria. Meu cansaço parecia arrefecer frente ao estado de espírito dela. Fiz-lhe um carinho no cocuruto e me sentei na cadeira ao lado de seu leito, como que esperando surgir algum problema que exigisse de mim uma atitude. Iniciamos um papo sobre o passado, assunto preferido dela.

A verdade que ela imprimiu ao longo dos últimos anos levava a uma constatação incômoda: minha mãe não era feliz no presente, o que explicava aquele crônico saudosismo, um passado meio que idealizado na sua tão amada São Paulo, que teve que abandonar em 1975 e de que falava sempre em tom de tristeza e nostalgia. Nunca concordei que fosse uma maravilha aquela cidade que aos meus olhos se destacava mesmo por ser tão feia, mas não corrigi nem retruquei, estava gostoso acompanhar aquela espécie de digressão e seria no mínimo arrogante interrompê-la. Desta feita a narrativa era alegre e as lembranças da vida na Rua Jaguariúna, no Itaim-Bibi, em Osasco, na Moóca e em outros lugares fluíam de forma até divertida e seu espírito aspirava aquela atmosfera benfazeja que lhe trazia as boas lembranças e fazia esquecer um presente francamente rejeitado.

Conforme a noite chegava, dona Esther foi meio que murchando. Seu discurso jovial sobre sua terra deu lugar a comentários impacientes acerca do desconforto da cama e da ‘comida intragável’ do hospital. De repente ela me pergunta se eu estou cansado de aturar o mau humor dela, foi quando eu a abracei e colei meu rosto no dela e disse que estava tudo bem, que em breve ela se recuperaria e voltaríamos para casa, onde a vida voltaria ao normal. 

Ao dizer aquilo me veio certo mal-estar. Talvez por ter tido a consciência de que a tal vida ‘normal’ não era algo a ser por ela comemorado, ou então por intuir que ela jamais sairia viva daquele hospital. 

Algum tempo depois ela me pergunta se aquela camiseta jogada no chão tinha sido esquecida pelo Zezinho. Essa pergunta me assustou muito, porque não havia camiseta alguma no chão e o Zezinho era um dos meus amigos de infância, não o vejo há meio século. Minha mãe optou por se instalar naquela época. Em definitivo. Lá ela era feliz.

A confusão mental dela foi explicada pela queda de potássio e, principalmente, de sódio em seu organismo. A partir de então ela passou a se comportar de uma maneira que eu nunca tinha visto, alternando rebeldia com momentos de primeira infância. 

Entre uma e três da manhã ela dormiu um sono até profundo. Como havia vomitado algumas vezes a minha atenção estava redobrada, felizmente pude contar com a valentia do meu organismo que se recusou a sentir sono aquela noite. Passei um bom tempo olhando seu rosto, observando sua respiração, e um turbilhão de lembranças me passou por cabeça e espírito. Meus olhos marejaram e eu percebi naquele momento que estava perdendo minha mãe, ela estava perdendo aquela briga e parecia não querer mais lutar.

A caminho da casa dos velhos, com minha mãe já encaminhada para a UTI, um emaranhado de notas, pausas e colcheias voltou a povoar minha mente, como a continuação de um processo que vivenciei havia alguns dias e me pôs a dedilhar o volante do carro como se fosse um piano. Eu sabia que meu inconsciente tinha sido despertado para a composição de uma lembrança musicada de minha mãe, faltava botar essas intuições todas para fora. Foi um processo até rápido, alguns dias após o sepultamento dela eu consegui gravar a última nota. Parece que ficou à altura dela, ou pelo menos assim eu espero.

BALADA PARA MINHA MÃE

   

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PARTIDAS E DESPEDIDAS

Minha mãe faleceu dois dias após o jantar em que dividi com meu pai e meu irmão um sabor misto de prazer, nostalgia e medo. O sofrimento a ela imposto não foi excessivo, mas também ficou longe de ser pouca coisa, dadas as circunstâncias. Foram 13 dias de internação num período bem marcante para mim, em especial porque eu passei com ela a última noite antes de ser transferida para a UTI. E que noite!

Quando fui comunicado da internação, até então sem a expectativa de nada grave, peguei a rodovia rumo a Brasília e fiquei um tanto inquieto ao notar o retorno do mesmo estado de espírito que me invadiu nos dias que antecederam a morte de minha filha. Uma espécie de premonição, talvez, o fato é que fui invadido por uma angústia forte e persistente. Em frente ao Hospital Regional da Asa Norte, HRAN, parei o carro numa das muitas vagas improvisadas e sujeitas a multa que há por ali e sabe-se lá por quê demorei um bocado para desligar o motor e sair. Durante alguns minutos fiquei dedilhando o volante como se fosse um piano.

Passei várias noites com ela naquele hospital. Na verdade a jornada se iniciava por volta das 15 horas, quando eu chegava e rendia meu pai que ia todos os dias, e lá permanecia até por volta das 10 horas da manhã seguinte, quando meu velho chegava e eu retornava à base para um merecido banho e algum descanso. Quando conseguia dormir um pouco alguns acordes meio caóticos povoavam meus delírios que estavam longe de constituir sono reparador.

Eu não tinha conhecimento do estrago que a falta de sódio produz na pessoa, o que fez com que as crises de demência experimentadas pela minha mãe me fossem aterradoras. Dona Esther sempre foi muito ativa e lúcida, e ainda assim se mantinha nos seus 83 anos, então a experiência de repetidamente e ao longo de horas tentar demovê-la de abrir gavetas inexistentes ‘para pegar uma blusinha’ ou convencê-la de que o cachorro já tinha sido alimentado (o ‘Pretinho’ faleceu há 20 anos) esgotou minhas energias. Passei a noite em claro, porque ela a todo momento fazia movimentos bruscos tentando se levantar da cama, para fazer caminhada ou varrer o quintal (ela estava convencida de que permanecia em casa), o que forçava os pontos em sua barriga e me obrigava a agarrá-la para tentar evitar uma ruptura. Eu fiquei particularmente assustado ao ver minha mãe daquele jeito, mas o que me incomodou muito foi perceber que estava sentindo pena dela. 

Achei o médico que comandava a equipe que cuidava de dona Esther muito gente boa, me explicou com riqueza de detalhes o que seria feito a partir daquele momento mais grave, o que rolaria na UTI, visitas, medicamentos, procedimentos, sempre demonstrando muito respeito. Questionei o fato de minha mãe ter chegado ao hospital andando e não conseguir mais fazê-lo por si mesma, o que me parecia um paradoxo. Ele me explicou que a cirurgia no intestino foi responsável pelas perdas de minerais importantes e, por consequência, determinante para a decadência por ela sofrida. Também me passou algumas impressões pessoais e deu opiniões baseadas em sua experiência profissional, gostei. Por ele fiquei sabendo que não é incomum gente ‘hospedada’ em hospitais particulares ser transferida para o HRAN e outros hospitais públicos quando o quadro se agrava. Claro que os contribuintes pagam por isso, os hospitais particulares não.

Observei minha mãe sendo conduzida naquela maca com rodas até o elevador em direção à UTI. Por um motivo qualquer eu sabia que não mais a veria com vida.

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COMO NOS VELHOS TEMPOS

Eis que meu pai me telefona com a voz meio chorosa, contando sobre a hemorragia que acometeu minha mãe e a enviou ao hospital. Peguei a estrada para Brasília em coisa de meia hora e em algumas centenas de minutos aportei na capital federal, mais precisamente no estacionamento em frente ao Hospital Regional da Asa Norte, o popular HRAN.

Fui alertado pela médica que a atendeu de que o quadro não era assim tão simples, pois demandava uma pequena cirurgia para retirada de um pólipo intestinal e a realização de uma biópsia, com a imposição de alguns dias de internação até que se recuperasse.

Minha mãe tem 83 anos, meu pai 87. A política do hospital nos permitiria acompanhar nossa velhinha pelas 24 horas do dia, então combinamos, meu irmão e eu, que nos revezaríamos nas incursões pelas madrugadas, deixando para nosso pai a visita diurna, entre as 08 e 15 horas.

Levamos bem a sério a combinação, mas o desenrolar dos fatos resolveu que não cumpriria sua parte. Minha mãe não melhorava seus indicadores, a pressão alternava, passou a apresentar deficiência de potássio e depois de sódio, não conseguia se alimentar e não preenchia, ainda que minimamente, a bolsa de colostomia que havia sido colocada após a cirurgia.

Na quinta-feira 13 de fevereiro, 11 dias após a internação, o médico responsável me procurou para informar que minha mãe teria que ser reencaminhada para o centro cirúrgico e, em seguida, à UTI, porque seus pontos haviam rompido e os exames realizados na véspera denunciavam pneumonia e infecção pulmonar. Logo em seguida meu pai chegou para me render e tomou conhecimento das novas nada boas.

Levantamos acampamento – as circunstâncias nos obrigavam a desocupar o apartamento – para permanecer em casa à espera de novidades. Foi quando a nostalgia se fez presente e me trouxe lembranças de quando nós cinco (minha mãe, meu pai, meu irmão Reginaldo (já falecido), meu irmão Christiano e eu) ousávamos encarar um rango diferente para comemorar algo, compensar momentos de perrengue ou simplesmente agir de forma rebelde contra a dureza crônica que sempre nos caracterizou. Achei que merecíamos e convidei meu irmão e meu pai para um jantar diferente, longe do fogão de casa. Eles toparam mas, devido ao cansaço geral, resolvemos buscar para comer em casa. Então fui apresentado à carne de sol do restaurante Mandaka do pistão sul de Taguatinga, indecente de gostosa, acompanhada de paçoca, mandioca derretida, manteiga do sertão, feijão de corda, vinagrete. Um escândalo.

Foi muito bom observar que o sabor de resgate de um passado não tão remoto nos fez ainda mais cúmplices e nos fortaleceu para enfrentar o que quer que viesse pela frente. Algumas culturas cultivam na gastronomia alguns motes para o bom relacionamento entre iguais, baseadas na crença de que o compartilhar dos prazeres à mesa é base do hedonismo idílico a que devemos todos nos render. A princípio, não discordo. Pelo menos durante aqueles minutos nos sentimos leves, compensados, felizes e momentaneamente livres do medo e da incerteza que nos dominavam quase que completamente naqueles dias.

Os dias vindouros ainda nos seriam bem pesados.

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CONVICÇÃO

Meus primeiros momentos na auditoria da Caixa me reservaram um ensinamento em forma de puxão de orelha que carreguei para toda a vida funcional, e mesmo pessoal: “se você está lá para analisar, avaliar, testar, tem a obrigação de ser assertivo e comprovar tudo o que disser”. Isto porque produzi um relatório com a expressão ‘tudo leva a crer’, pegando carona nos hábitos de um colega que adorava colocar ‘fortes indícios’ e assemelhados em seus apontamentos.

A chefia foi clara: “se não tem certeza, não escreva sobre o assunto; mas, se teve a oportunidade de analisar, por que não tem certeza?”.

Meu chefe era conhecido pela alcunha (não sei se carinhosa) de Buffalo Bill. Exigente, honesto e leal, nunca soube contemporizar com malfeitos de seus subordinados, principalmente quando o quesito ética era ferido. Por outro lado, era aquele que apoiava sua tropa até o fim, mesmo nas situações de saia justa. Eu me lembro de na década de ’90 ter telefonado para ele de Cuiabá para informar que havia coisa esquisita na área (no nosso jargão particular, isto era sinônimo de corrupção). Ele perguntou: “você tem disponibilidade para apurar?”, respondi que sim mas informei que a questão poderia envolver ou espirrar numa ‘alta patente’ da matriz, ao que ele respondeu: “mete bronca, a gente escreve assim mesmo”. Assim foi feito, produzi minha coleção de mal traçadas linhas em forma de uma deduragem oficial, que foi por ele encaminhada e deu uma shit dos diabos nos gabinetes palacianos. Na época do Buffalo Bill fazíamos os relatórios sem medo de retaliações, encaminhávamos para a chefia e metíamos a mão no botão do foda-se. Era bom!

Parece que esse cuidado que sou tão grato por ter aprendido e incorporado ao meu modus vivendi não é compartilhado por todos. Li alguns documentos produzidos pela tal Força Tarefa de Curitiba. Além de ter achado que a redação poderia ser melhorzinha, deparei com um sem-número de ‘temos certeza’, ‘salta aos olhos’, ‘temos convicção’. Essas expressões retornaram na nova investida da turma contra os alvos de sempre, Lulinha à frente. Falta substância, talvez uma dose de técnica ou verdade, o fato é que já declararam à imprensa (ah, como gostam da imprensa!) as mesmas certezas que estão longe de constituir provas legalmente aceitas. Diabeísso, pensei. Buffalo Bill pagaria geral nessa turma, ele que vivia nos dizendo nas reuniões: “somos auditores, não pistoleiros; honestidade, senhores!”.

Então, é este o grande desafio: finalmente identificar algum elo entre lé e cré, de forma a dar credibilidade nesse imbróglio que deveria ser jurídico-policial mas se transformou em pistolagem político-midiática.

Permaneço na arquibancada, na cômoda posição de espectador dos próximos capítulos. Mas a tendência de achar que esses meninos mais uma vez vão ficar no achismo é muito grande, até porque um dos procuradores já deu entrevista avisando que “os fatos são bastante complexos”, “ainda não temos provas” e “temos que aguardar o resultado das buscas, amadurecer esta investigação”. Claro que toda investigação tem começo, meio e fim, tem suas fases, paciência e persistência fazem parte, mas a mania desses bravos rapazes – que já se fez presente neste novo episódio – de começar jogando no ventilador e só depois procurar reais evidências é de uma irresponsabilidade mastodôntica. Nesse meio tempo reputações podem ser assassinadas, como já ocorreu. 

Impunemente, diga-se. 

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