AMADORES

AVISO RECEBIDO POR SMS:

RESPOSTA ENVIADA AOS MELIANTES:

 

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ILIBADOS

Leio agora que a federação polonesa de futebol resolveu, atendendo a pressões diversas, não convocar o jogador Maciej Rybus para compor o grupo que deverá participar da copa do Qatar. 

O motivo é singelo, e nada tem a ver com problemas técnicos ou físicos: o cara jogava num time russo e se recusou a sair de lá. Não, ele não se manifestou favoravelmente à guerra da Ucrânia nem à Rússia, muito menos aos atos praticados por Putin, não criticou os massacres e bombardeios russos contra edificações e a população ucraniana, tampouco falou sobre a intenção da OTAN de instalar mísseis na fronteira com a Rússia e, claro, voltada para Moscou, nem sobre a maldisfarçada participação de nazistas de chapa e cruz pelo exército ucraniano. Em suma, em momento algum ele se manifestou politicamente, apenas sustentou que é casado com russa, tem filhos russos e estão todos muito bem adaptados em Moscou, então não via razão para misturar esporte com política e prejudicar sua família e carreira.

Mesmo assim foi considerado inadequado para servir sua seleção e descartado. Considerando que esse entendimento é comum à maioria das federações nacionais, senão todas, é justo imaginar que tem o dedo da FIFA nesse angu.

Não é de hoje, porém, que o rico Qatar é palco de denúncias de crimes contra os direitos humanos, nem todos causados pelo sempre lamentável fanatismo religioso, faz parte do rol a misoginia, a exploração de trabalho escravo, assassinatos e mortes suspeitas, numerosas e não esclarecidas (porque não investigadas). Mas a boa e velha FIFA fez vista grossa até onde foi possível, inclusive sobre um código ridículo chamado Kafala, que permitia aos patrões reter passaportes de trabalhadores imigrantes, impedir sua saída do país e mesmo solicitar às autoridades a prisão de quem reclamasse. Recentemente uma mexicana foi condenada à prisão por ter denunciado seu estuprador. Ok, no Qatar rola uma grana preta, então tá tudo bacana.

Mas o atleta polonês está fora da copa porque não se posicionou politicamente e priorizou sua família.

Dia desses a FIA, entidade que comanda o automobilismo no planeta, estabeleceu diretrizes que culminaram com a demissão do piloto russo Nikita Mazepin, pelo fato de ser russo e seu país ser comandado por Putin. Surgiu a história de que haveria um documento-declaração que deveria ter sido assinado, em que o piloto se posicionaria contrário à invasão russa, porém ele declarou que se dispôs a assiná-lo mas, de repente, já estava demitido. Essa mesma FIA já foi mais, digamos, tolerante: alguém aí se lembra da África do Sul e seu apartheid? Pieter Botha, Nelson Mandela, lembram deles? Pois é. A galera da FIA nunca viu nada demais quando os brancos sul-africanos brincavam de tiro esportivo utilizando seus compatriotas pretos como alvo, prática decorrente da política de segregação política e social baseada numa suposta supremacia racial branca, que vigorou entre 1948 e 1994 (a título de informação ilustrativa, criada por Daniel François Malan, pastor protestante, um fofo), e jamais tomou uma atitude para de alguma maneira punir os bandidões sul-africanos, o que permitiu que os GPs no país ocorressem sem maiores percalços no autódromo de Kyalami. Jody Scheckter, então piloto do país, jamais foi sequer citado.

Enquanto isso, a Arábia Saudita há oito anos bombardeia o Iêmen, em conflito que já produziu quase 400 mil mortos. Os árabes estão na copa do Qatar, quase no mesmo grupo do time dos EUA, que atualmente jogam umas bombinhas sobre cabeças somalis.

Que bom que temos esses povos e entidades garantindo a normalidade no mundo.

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RANZINZOLINO

O momento até que estava razoavelmente propício para soltar a franga, sair por aí feito um arremedo feio de Poliana Moça, esbanjando uma alegria boba, cometendo frases de autoajuda e outras indecências, mas não: minha insistência em permanecer chato feito funk gospel parecia inquebrantável, a ponto de agradecer e recusar convites pra tomar uma, jogar sinuca, descer o cacete no governo.

Sim, finalmente viajei pra Minas e conheci meu primeiro neto. Pegar meu pequeno Benício no colo já seria, por si só, motivo para um sorrisão desbragado e demorado, quiçá eterno. Mas pensa: passei tantos anos esperando pela oportunidade de botar a cara na janela e falar para o mundo que tenho um neto, e o carinha, em vias de completar três meses de vida, vai morar em Portugal. Serei um avô de fim de ano, sazonal, ausente, sem importância. Senti-me particularmente agredido ao notar que meu inconsciente, na intenção de me proteger, tentava evitar que eu me apaixonasse pelo meu netinho. Nessa empreitada meu inconsciente fracassou legal, mas a tentativa deixou sequelas.

Some-se a isso uma decepção familiar amargamente dolorida que prefiro não detalhar, mas que me feriu de uma maneira jamais imaginada, principalmente porque redundou num sentimento mais que sofrido de remorso ou culpa. Sim, Poliana Moça vai ter que esperar um bocadinho.

No auge do misto de ressentimento e emputecimento dona Patroa me sugeriu procurar ajuda profissional. Psicólogo, analista, algo do gênero. A princípio recuso, até porque tenho conhecimento pleno do que me jogou aqui embaixo, e não creio que palavras colocadas com  técnicas e método vão surtir algum efeito. Não é o caso de procurar o que me afeta e derruba, isso eu já identifiquei faz tempo.

De repente me vejo entendendo o que se passava com Aldir Blanc quando escreveu Resposta ao Tempo.

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OLHA O GÁS!

Finalmente, ao cabo de dois longos meses, consegui achar um tempinho para ir a Minas conhecer Benício, meu primeiro neto. Menino bonito, dirão alguns que é a cara do vô, mas a modéstia não me permitirá concordar sem um muxoxo falso e desavergonhado. Mas o moleque é bonito pra cacete.

Minha filha, ao fim de sua provável procura por Shangri-Lá, aportou no Rio de Janeiro, onde conheceu meu genro Vinícius para depois, já como família, fincarem bandeira na já nem tão pequena mas ainda bela Patos de Minas. Terra de sua mãe e respectiva família, a visita me permitiu rever meus cunhados-irmãos, minha sogra nº 1 e a sobrinhada. Daquela família toda, eu só me separei da mãe da minha filha, o resto é minha família. Pra sempre. Amo.

Claro que rolou o tradicional churrasco no sábado à noite, na casa de um cunhado. Amanheceu domingo e me carregaram para o mercado municipal para comprar carne e sei lá mais o que. A ideia era fazer um legítimo arroz de carreteiro no almoço na casa da sogra e juntar toda a gang. Acompanhada – tradição é coisa séria – da cervejada e daquela conversa mole, que nos fez cúmplices eternos e que só nos permite a divergência quando o assunto é futebol. Ainda assim, sem muito radicalismo.

A viagem nem estava exatamente nos planos, mas já havia decorrido tanto tempo que não dava para adiar mais, até porque daqui a cerca de um mês o trio filha-genro-neto vai se mudar para um pouco mais longe, lá na terra de Camões. Então, foi um mísero fim-de-semana para percorrer 1.000 quilômetros, matar a saudade de um monte de gente, conhecer gente nova, babar no neto e planejar uma visita menos corrida em alguns meses do outro lado do oceano.

Atendendo a uma sugestão dos cunhados, resolvi retornar por Uberlândia, aproveitando as inúmeras vantagens da pista dupla que a partir dali perduraria até Goiânia. Só me esqueci de combinar com o gps, que me mandou para Itumbiara via Tupaciguara, o que no começo me levou a estranhar a demora para chegar no posto do Trevão e a depois me lembrar do governador de Minas toda vez que caía numa das crateras da estrada.

Num desses pontos de grande emoção resolvo ultrapassar uma caminhonete velha num retão de quase um quilômetro. Foi no final desse retão que um cidadão de uniforme me mandou parar. Disse que eu havia sido flagrado realizando uma manobra perigosa e proibida no local. Concordei que qualquer manobra naquela rodovia era uma tentativa de suicídio em potencial, mas ele parecia não ter atualizado o modo senso de humor. Na verdade a razão do procedimento era o fato de que eu teria realizado uma ultrapassagem sobre faixa contínua. 

Na boa, mesmo numa rodovia que não estivesse respirando por aparelhos como aquela não haveria motivo minimamente inteligente para proibir ultrapassagens no local indicado, pois era totalmente plano, não havia faixa adicional em nenhum dos sentidos nem lombadas que pudessem criar pontos cegos. Tentei fazer a autoridade policial entender isso, mas o cidadão insistiu. Convidei-o, então, a uma visita ao local da ultrapassagem, ocasião em que seria possível observar que as faixas da pista não passavam de lembranças praticamente invisíveis de um passado longínquo. Aí ele me falou que havia uma placa indicando a proibição de ultrapassagem, foi quando mostrei que havia uma floresta cumprindo com maestria a tarefa de escondê-la. 

O homem não demonstrava muita disposição para o debate, seus dois colegas pareciam mera figuração. Quando ele cismou de levantar a voz falando em segurança própria e de terceiros, tive que mandar a real: “com esse asfaltozinho sem-vergonha e essa sinalização mequetrefe, o máximo que podemos concluir é que o governo que o senhor representa está cagando para a minha segurança e a de terceiros”. O assunto, então, passou a ser o famigerado desacato a autoridade. Perguntei aos até então calados colegas daquele que parecia ser o chefe se eles concordavam com a tese de que ao mostrar que a autoridade não tem razão eu estaria cometendo crime de desacato. Calados permaneceram.

Pelos mesmos motivos que de há muito deixei de discutir com os talibãs do Malafaia, achei por bem permitir que o bom-senso tomasse conta da situação e só pedi a minha via da multa, tomando o cuidado de humildemente solicitar ao agente que não se atrevesse a inventar multa por desacato ou coisa do gênero, porque isto me levaria a representar contra ele por abuso de autoridade, com os colegas cujos crachás fotografei arroláveis como testemunhas.

Acabei sendo liberado, com a informação de que receberia a notificação da infração pelo correio. Alguns dias após a chegada em casa leio a notícia sobre o cara que foi assassinado numa câmara de gás improvisada num camburão da polícia rodoviária. Parece que o delito dele foi tentar imitar o presidente boçal de um país desses aí, que gosta de trafegar de moto sem capacete. 

É pouco provável que leve a sério a decisão, mas naquele momento eu imaginei que seria bom doravante falar somente o necessário quando me encontrar numa situação de, digamos, inferioridade, como um palestino diante da galera do Mossad. Lembrei-me de Pedro Aleixo e daquela história do guarda da esquina, acho que corri algum risco.

Vai que, né?

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É CILADA, BINO!

Uma das minhas boas fontes de diversão atualmente são as redes sociais. Minha preferida é o Facebook, que me permite apreciar sem moderação as peripécias de birutas e patetas os mais diversos e as publicações de suas incursões pelas ruas das cidades, geralmente a bordo de seu uniforme em tom amarelo-fralda modelo 7×1 e portando cartazes pedindo a volta do AI-5. Pena que o último primeiro de maio tenha sido assim tão estranhamente tímido, os micos dessa gente já deu mais ibope num passado bem recente e saudoso.

Claro que o Facebook não se esgota nessas esquisitices, tem até coisa útil lá dentro. Eu participo de um grupo ecológico, outro que se ocupa de dicas de códigos de programação, um de assuntos sobre o fundo de pensão que bravamente me paga a aposentadoria, tem também aquele outro de troca de partituras. No meio disso tudo também tem as publicações dos amigos, alguns interessantes outros nem tanto, outros nem tão amigos, alguns nem sei direito quem são, y así la nave va.

Dia desses deparei com uma oferta que joga no time das imperdíveis. Sim, o Facebook também tem as publicações pagas, bancadas geralmente por grandes corporações do varejo que cismaram de enfiar o pé no chamado e-commerce.

O anúncio oferecia um aparelho celular de última geração por preços entre R$699,00 e R$799,00. A tentação de clicar no botão COMPRAR AGORA foi mastodôntica, mas a quenga idosa que habita em mim sugeriu cautela. Então, achei por bem observar os detalhes, e acabei concordando com Teco (Tico estava dormindo) que era bem esquisito o fato de as Lojas Americanas possuírem uma conta do gmail para seu correio eletrônico, além de seu endereço lógico misteriosamente não mostrar o já tradicional “americanas.com.br”, mas algo com um monte de consoantes e um final que não me lembro se .ru ou .ro, denotando base em servidores no exterior. No caso, Rússia ou Romênia.

Mas os anúncios eram bem bonitinhos:

Repararam que para essas ofertas só se aceitavam pagamentos via pix ou boleto? Uma vez aberto o ‘site da americanas’, qualquer que fosse o CEP digitado a resposta era “entrega grátis em 04 dias”. Já o campo de pesquisa (digitei sofá, bicicleta, ogiva nuclear, camisinha sabor miojo) no alto da página não respondia, vez que o layout era apenas uma cópia gráfica do original, sem função operacional além do botão de compra e o campo para CEP com resposta padrão.

Em resumo: tentativa de golpe. O mesmo Facebook que se mostra tão cioso, moralista e defensor da família, da moral e dos bons costumes quando mostramos bunda de indio na aldeia ou um beijo fora dos ‘padrões’ permite a ação de bandidos assim, na boa. Ah, Markinho, francamente!

Resolvi alertar por e-mail a Americanas.com, via Ouvidoria, sobre o uso de sua marca para evidentes práticas criminosas, ocasião em que anexei as cópias da página falsa que capturei. Alguns dias depois recebi um retorno das Lojas Americanas, me informando que aquele anúncio não era deles e me dando algumas ‘dicas’ sobre formas seguras de navegação na rede.

Dããããã. 

Resolvi insistir no assunto, esclarecendo que o fato de que o anúncio não era efetivamente deles constituía o motivo do meu contato inicial. O que eu esperava era que uma empresa minimamente decente e comprometida com seu bom nome e a segurança de sua vasta clientela tomasse alguma atitude. Não tomou, limitando-se a me enviar uma resposta que pulula entre a gozação e a malemolência. E a irresponsabilidade, claro.

Então, ficamos assim, Lojas Americanas: assim que der merda – e vai dar merda – eu me oferecerei como testemunha de acusação, aproveitarei o momento para anexar as provas de que vocês foram devida e tempestivamente alertados sobre o andamento do crime pelo qual responderão solidariamente (ao menos na esfera civil), e que geraram prejuízos a um caminhão de gente de boa fé, que acreditou naquela ‘promoção’ que vocês contaram que era falsa somente pra mim.

A propósito, hoje observei outro anúncio da espécie. Parece que estão diversificando o portfólio.

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ZEFINÍ, MAS CONTINUA

O ano de 2011 foi bem esquisitão, em se considerando a quantidade de fatos inéditos. Primeiro meu processo involuntário de emagrecimento que ia a todo vapor após o tratamento contra a hepatite C, que me encolheu dos antigos e bem-amados 72 kg para exatos 60 (dois ou três anos depois os 60 kg viraram 91 por obra e graça da gloriosa tireoide, mas isso é outra história). Além da sensação de fraqueza decorrente da perda de massa muscular, ainda tive que reformular o guarda-roupa, pulando do manequim 40 para o 36, se não me engano. Meu layout estava assim mezzo Marco Maciel mezzo mapa do Chile, um mimo, silhueta era força de expressão. 

Em seguida a novidade realmente porreta: a viagem a Paris, longamente planejada e finalmente realizada. Juntando os familiares de sempre com alguns amigos, éramos 16 aloprados doidinhos pra conhecer o Louvre.

Eu manjava de francês tanto quanto minha mãe mandava bem em física quântica. Aliás, ninguém da turma ia além do sivuplé, randevu e mercibocu. No começo foi aquela coisa chata de chegar impondo o inglês pra rapaziada, que não sem razão mostrava profundo incômodo. Franceses e ingleses não se bicam, no máximo se toleram, e isto tem origem em algumas guerras e outras tantas invasões ao longo da História. Descobri com o passar dos dias que esse mal-estar era facilmente evitável, bastando iniciar a conversa com algo shakespeareano mais simpático, tipo “desculpe, não falo francês; podemos conversar em inglês?”. 

O encantamento e o desejo de poder voltar outras vezes fizeram florescer a vontade de aprender a língua, então providenciei minha matrícula na Aliança Francesa assim que cheguei de volta à Terra Brasilis.

Sim, o francês é uma língua latina como nosso português, mas isso não significa que seja moleza. Pelo contrário, há fonemas e regras sintáticas que chegam a arder a pleura se resolvermos cumprir como se deve, mas é, por outro lado, algo altivo, musical, apaixonante. 

Ao cabo de 11 ou 12 semestres de estudos, leituras, provas, mudanças de nível, novos colegas, novos professores, festas, projetos, progresso, cheguei ao final do curso regular. Em seguida eu me submeti ao DELF, que vem a ser a sigla para “Diplôme d’Études en Langue Française”, um diferencial para quem se candidata a um emprego ou estudos em qualquer nível em países francófonos. Passei, meio que batendo na trave, mas passei. Esse diploma era algo que só alcançaria minha própria vaidade, porque nem patrão eu tinha mais para reivindicar uma promoção. 

Os últimos três anos foram os mais marcantes e divertidos, porque mantivemos a turma e a professora e, com isso, ultrapassamos as barreiras de corpo docente/discente e nos tornamos simplesmente bons amigos. Estou lhes devendo um churrasco aqui em casa, a despedida foi meio dolorida.

Em que outro lugar um dia de prova viraria motivo para festa? A carga horária era de três horas, então quando havia avaliação nos habituamos a concluir em no máximo duas e depois era a hora dos queijos, vinhos, patês, pães e o que mais fôssemos capazes de comprar na base do rachid. Se a vida toda eu nunca encarei os estudos como um fardo ou obrigação, na Aliança Francesa a coisa beira a covardia, tamanho o prazer e a diversão, o que imagino explicar o aprendizado parecer que flui mais natural e rapidamente.

O fim do curso deixou um certo gosto de luto, que tentei atenuar participando de turmas extras exclusivas para conversação. Da minha turma alguns se mudaram de cidade, de estado e até de país, a pandemia também fez seus estragos e encolheu a escola, muitos professores e funcionários partiram para outras aventuras e projetos profissionais. Ainda nos comunicamos esporadicamente via grupo de WhatsApp, mas espero mesmo que venha a ser possível um reencontro, senão com todos, pelo menos com os possíveis.

De repente a saudade bateu. Matá-la será bom para a alma.

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SOCIAL

No já longínquo abril de 1981 abdiquei de minha condição de morador de Brasília e aportei em Goiânia para assumir cargo conquistado por concurso público no Banco Nacional da Habitação-BNH, que seria absorvido pela Caixa Econômica Federal seis anos mais tarde.

Éramos uma turma de no máximo 30 pessoas, a maioria esmagadora com idades entre 20 e 23 anos, a serem chefiados por ‘senhores’ na casa dos 30. Os sonhos eram muitos, a disposição para a farra também se destacava, mas o que mais queríamos era trabalhar naquela empresa que nos oferecia um bom salário e condições plenas de trabalho. Na prática o BNH ainda não existia na capital goiana, sua inauguração estava agendada para algo em torno de 30 dias, no mais tardar dois meses.

Os primeiros dias foram dedicados à acomodação da galera que não parava de chegar. Com base nas respostas que demos ao questionário distribuído, versando sobre questões como “gosta de cálculos?”, “tem afinidade com legislação e análise de processos?”, “gosta de atender ao público?” a lotação foi se materializando. Minhas respostas me encaminharam diretamente para a área do FGTS, que envolve cálculos, legislação, processos e atendimento ao público. Sempre gostei.

A partir dali eu e demais colegas de área passamos semanas inteiras nos dedicando ao estudo daquela matéria complexa e fascinante, e nossa insegurança fazia com que comemorássemos sempre que chegava a notícia de que a inauguração teria que ser adiada por problemas de agenda entre o então governador do Estado Ary Valadão e o Ministro do Interior Mário Andreazza. Na verdade eles se detestavam e ficaram nesse joguinho idiota de inventar compromisso para derrubar a agenda do outro, mas finalmente chegou o dia da inauguração. Já tínhamos seis meses de empresa.

Nossos estudos envolveram leitura e discussão dos normativos e legislação aplicada, debates entre nós mesmos e a chefia, simulações de atendimentos com a inserção de situações de conflito. Às sextas-feiras tínhamos as reuniões sempre festivas, durante as quais alguns conceitos nos foram colocados com caráter de cláusulas pétreas, como o atendimento exemplar, pautado na obrigatoriedade de atendermos ao público com cortesia e domínio da matéria. Nosso gerente não se cansava de nos lembrar que o BNH era uma empresa pública, que seria eterna enquanto fosse necessária aos olhos da população, o que de certa forma jogava uma responsabilidade enorme sobre nossos vinte e poucos anos. Mas curtíamos muito a expectativa de enfrentar os desafios. Ah, a juventude…

O início do trabalho nos deu a certeza de que os treinamentos e estudos foram suficientes e de qualidade. Como havíamos introjectado o atendimento nível porreta como objetivo, tínhamos sempre um motivo para um chope na sexta-feira. Assim os anos foram passando, os colegas foram assumindo funções de chefia, eu fui designado para a inspetoria, até o belo 22 de novembro de 1987 amanhecer e nos surpreender a todos com a notícia de que o BNH não mais existiria e teria suas funções absorvidas pela Caixa Econômica Federal. Decreto-Lei, of course, ainda vivíamos os últimos cacoetes da ditadura.

Nossa integração à nova empresa não se deu de forma assim tão pacífica, mas acabou ocorrendo. Durante bom tempo fomos tratados como uma empresa à parte, uma espécie de segunda divisão,  mas conseguimos manter nosso trabalho em bom nível de qualidade, em que pese notarmos que não havia valorização ao que fazíamos. Resolvemos encarar aquilo como um problema ‘deles’, até porque nossa avaliação comparativa reversa colocava a qualidade gerencial ali como algo que oscilava entre o amador e o sofrível.

Conforme os governos iam se sucedendo os investimentos em tecnologia e aprimoramento rareavam, principalmente se o mandatário de plantão fosse chegado numa privatização. Por uma estranha coincidência, a qualidade dos serviços prestados pela Caixa à população desabava se houvesse algum projeto ou intenção de privatizar a empresa. A velha história de torná-la descartável aos olhos do povo, afinal se o cabra procura uma agência e não tem sua demanda atendida, seja por deficiência técnica ou falta de empregados, como esperar que a população defenda a empresa?

Em pleno século XXI esse fenômeno, por ser cíclico, volta a rondar a Caixa. Não por acaso as décadas nos impuseram, com raríssimas exceções, animais os mais diversos na presidência da Caixa Econômica Federal, variando entre ostras, antas, pavões ou reles cacatuas, mas esse de hoje me parece bater todos os recordes, a começar pela cara de orgulhoso suricato com hérnia de disco que ostenta quando o presidente da república fala merda numa solenidade. E o presidente da república, como sabem, fala merda com alguma regularidade. Algo me diz que se o presidente da república tomar um chute no saco, cai a obturação da figura em questão e o sanfoneiro ao lado sai mancando.

Vez por outra a vida me convida a repensar minha arrogante ausência de devoção cristã. O fato de já ser um aposentado da Caixa, não mais estar sob as ordens do presidente de plantão e, por consequência, não ter que aturar o que rola de estupidez de seu gabinete é uma dessas ocasiões. Rezam a escrituras sagradas que eu deveria dar graças aos céus. Mas no fundo aquelas estultices sempre me afetam o espírito de alguma maneira, principalmente porque as atitudes dessa gente atentam contra tudo aquilo que com orgulho ajudei a construir. 

Nos dias de hoje uma unidade da Caixa que iniciou o ano com um número x de funcionários conclui o ciclo com uma diminuição do contingente entre 5 e 10%, o que é natural considerando que as pessoas morrem, se aposentam, cometem falhas que justificam uma demissão, pedem para sair.  Quando, porém, a empresa se recusa a repor o quadro porque antes se recusou a promover um concurso público ou, pior, se recusa a convocar aprovados do último concurso, a coisa muda de figura e passa a constituir má intenção.

Porque se o trabalho que era executado por 30 pessoas de repente precisa ser realizado por 28, depois por 25, depois por 20, é claro que cairá a qualidade, aumentará o tempo de execução e atendimento, haverá atrasos, as filas serão uma consequência natural, as reclamações também. Some-se a isto a teimosia da empresa em contratar sistemas computacionais de quinta e não atualizar servidores e demais itens de hardware, e temos uma receita perfeita de angu. E a reclamação nunca é dirigida à direção da empresa, o alvo preferencial é o badequinho de canela exposta na unidade onde o time desfalcado tenta sobreviver. A imprensa ajuda a identificar esse “culpado”, já que os jornais locais do meio dia mostram as agências, suas filas e mazelas, mas nenhum outro programa jornalístico, de âmbito regional ou nacional, cultiva o saudável hábito de perguntar à diretoria da empresa o porquê daquilo.

Minha geração economiária traz no currículo greves memoráveis, movimentos reivindicatórios não-grevistas igualmente vitoriosos, conseguimos reverter cagadas ilegais cometidas por Sarney e Collor de Melo, enfrentamos com sangue nos olhos as investidas de FHC, o príncipe da privataria, peitamos gerentes e superintendentes cretinos. Quando hoje em dia a vida e a pandemia nos permitem um reencontro, é sempre saboroso rememorar essas passagens e homenagear os parceiros que já não estão conosco e foram muito importantes nessa trajetória. Olhar para trás e ver um rastro de dignidade é para poucos. Sorry, pelegada.

Hoje vejo com imensa tristeza um ambiente perigosamente propício para a entrega da Caixa e suas operações sociais ao grande capital, sonho de consumo de muitas raposas com DNA privado e privatista que ao longo das décadas deram expediente nos ministérios ou foram por eles nomeadas. No campo funcional fomos substituídos por uma quase maioria que integra algo quiçá classificável como geração pré-X, que não almeja seguir carreira e está na empresa somente enquanto não encontra algo mais atraente de acordo com suas expectativas materiais ou de mera vaidade. Por consequência, está pouco se lixando para os programas sociais historicamente tocados pela instituição em nome do governo federal e, é claro, nem sonha em se indispor com o chefe por algo que mesmo de longe se aproxime do bom e velho idealismo. Esses meninos de agora esculacham os sindicatos e federações de empregados, ao mesmo tempo em que se esforçam para repetir os mantras e discursos dos patrões.

Lamento, mas é outra época, são outras pessoas, em que pese as necessidades da população serem basicamente as mesmas. Vejo o risco hoje maior, e sinto arrepios quando passo em frente a uma agência dos Correios.

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QUEM?

Eu sou péssimo fisionomista. Já me abraçaram na rua, perguntaram sobre minhas filhas, meus planos de futuro pós-aposentadoria e eu no máximo sabia que conhecia a pessoa mas não me lembrava de onde, sequer o nome da criatura.

No mais das vezes isso me rende momentos de sufoco e constrangimentos, mas já ocorreu de também rolar frustração nesse caldo. Um bom exemplo disso teve lugar em Congonhas, há uns quatro anos. Minha ida a Sampa fazia parte de algo já tradicional, um encontro anual com amigos numa espécie de filial do paraíso denominada Mr. Jack’s, no Shopping Pátio Paulista, ocasião em que aproveitávamos para botar as fofocas em dia, a tristeza pra fora e o chope pra dentro. Como já havia um bom tempo que não via minha filha, que morava no Rio, convidei-a para participar da farra. Só que cheguei no aeroporto quase duas horas antes da previsão de chegada dela, então fui fazer um lanchinho básico enquanto esperava a aterrissagem de seu teco-teco. 

Dei sorte de encontrar uma mesa vaga, a última naquele momento. De repente, um cara se aproxima e me pergunta se eu permito dividir a mesa com ele. Claro, por que não? De imediato vi que aquele rosto não me era estranho mas, enfim, relevei. Na época eu viajava sempre em companhia de meu violino, o cara viu e puxou conversa sobre música. O instrumento induziu a falar sobre os Beethoven da vida, meu novo amigo demonstrou conhecer muito de música erudita, mas depois que contei a ele que adoro tocar o Sabão Cracrá ao violino o nível da conversa retornou à zona de conforto. Disse que seu nome era Marcelo, mas a vergonha me impediu de pedir sobrenome e qualquer outro detalhe que finalmente me levasse à identidade dele.

Pedi mais dois chopes, ele exigiu pagar os próximos. Gente boa. Já estávamos à beira do fim do ano e ele falou sobre a possibilidade do Nobel de literatura para Olga Tokarczuk, que eu solenemente ignorava mas a tal vaidade me impediu de reconhecer, e concordamos com a torcida para Ana Paula Maia para o prêmio literário do mesmo ano no nosso microcosmo. Quando li que ela tinha faturado o prêmio, lembrei-me de meu amigo até então anônimo.

De repente minha filha chegou e, já cansado e ligeiramente mamado, eu queria mesmo era ir para o hotel. Despedi-me de meu amigo e seguimos para o ponto de taxi do aeroporto. Nunca mais o vi, pelo menos pessoalmente.

O encontro com meus amigos de fé ocorreu conforme o esperado, com muita alegria, camaradagem e carinho. Retornamos para casa, minha filha e eu, no dia seguinte. 

Aí passa o tempo e recebo pelas redes sociais um link. O efeito foi devastador, primeiro porque me deixou maravilhado com a qualidade do clipe, depois porque reconheci meu amigo do aeroporto. Sim, fiquei frustrado. Ao acompanhar Marcelo Jeneci no clip percebi o quanto me foi negada (por mim mesmo) uma interação, um melhor direcionamento da discussão sobre cultura popular, sobre política, sobre tudo. Fiquei também um pouco aborrecido com ele, por não ter se identificado como o grande artista que é, mas considerei a possibilidade de ele preferir manter a humildade. O que é um direito, vá lá!

 

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MONSIEUR LE DOCTEUR

Ao final de tantas viagens pelo interior do Estado, chegamos a um ponto em que a única alternativa era esperar. Torcer e esperar. Foram quatro ou cinco vestibulares que o moleque enfrentou, com esperança, fé e determinação, e eu notava que ele a cada dia sentia o baque, demonstrava cansaço, mas os olhos brilhavam. O corpo padecia, mas a alma nunca foi pequena.

O primeiro resultado foi algo próximo de uma batida na trave, no segundo ele perdeu de goleada e o terceiro se caracterizou por uma correção ridícula da redação e uma nota abaixo do que eu achei que merecia. O suficiente para ele também não passar. De repente fiquei com medo de que o desapontamento que lhe estampava o rosto se tornasse algo mais preocupante.

Mas o cara escolheu medicina, né?, um funil dos infernos, e eu fui evitando aquela clássica argumentação derrotista “todos que eu conheço tentaram durante anos até conseguir passar”. Até cheguei a usar essa ladainha, mas sei que com ele isso não funciona, e também não vejo esse tipo de indecência com bons olhos. Equivale ao tal “entregar pra Deus”, não rola.

Ainda faltava fazer as provas da UnB dali a cerca de um mês e estava mais ou menos na época de sair o resultado do vestibular de Goiatuba, então a poeira foi assentando aos poucos até não haver mais sinais de tensão. Os dias foram passando, eu estava no supermercado quando veio a ligação. Vi que era ele e imaginei que queria me lembrar de comprar os tradicionais porcaritos. Demorei para perceber que era uma ligação de vídeo, ele tentava me mostrar a tela do computador com o resultado do vestibular da Unicerrado. O momento era de festa e a ficha não caía, ficar velho às vezes é um fardo meio triste.

Unicerrado é uma universidade particular sediada na cidade de Goiatuba-GO, a 170 km de Goiânia. Quando Lucas foi prestar o vestibular lá, era também nossa estreia na cidade. Achei uma gracinha, limpa, bem sinalizada, com os meios-fios pintados e alguns botecos muito interessantes. Foram seis horas de prova, Eliana e eu aproveitamos para dar um giro pela pequena cidade de 34.000 habitantes, que ainda não tem shopping center e aparenta não ter os problemas de segurança que enfrentamos nos grandes centros. Passeamos pelas ruas principais, paramos para um sorvete e pudemos observar que, apesar de pequena, a cidade conta com um comércio bem variado e ativo, com grandes lojas de rede – poderia ser melhor, diz Eliana -, alguns restaurantes interessantes e pessoas tranquilas nas ruas.

Eu via na tela do celular o indicador do moleque mas a imagem não estava nítida, só o ouvia dizendo “passei, véio, passei!”. O alarde foi tal que as pessoas que dividiam comigo a fila para pesar os hortifruti entraram na comemoração, e mesmo na fila do caixa de vez em quando eu olhava para trás e pagava o delicioso mico “meu filho vai ser médico”.

Aquela noite foi meio estranha. Já eram quatro da manhã e eu, excitado, resolvi fazer um plantão boêmio regado a vinho (malbec argentino, naturalmente). Não sabia ao certo como lidar com aquele misto de euforia e medo (sim, eu vi o valor da mensalidade), mas preferi deixar que a euforia prevalecesse, o resto a gente resolve. A gente sempre resolve, né?

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CISMAS

O pessoal não é dado a deixar comentários registrados neste cafofo, mas de quando em vez sou abordado por outros meios para fins exclusivos de levar esporro pelo que escrevi. Acho graça e tento compreender, é divertido tentar. Até telefonema recebi após publicar ‘Vade Retro Religio’, não imaginei que a celeuma fosse chegar a tanto. “Aquilo que você escreveu… rapaaaaaz!…”.

Herege sem conserto ou uma alma atormentada precisando ser salva? A maioria me chama mesmo de ateu, ainda que eu não tenha lá muita ideia do real significado disso. Ariano Suassuna gostava de contar a história de Galdino, figura conhecida de Taperoá na sua Paraíba natal, que ficava ‘danado’ se alguém dissesse que era ateu. “Dizem que eu não acredito em Deus, isso é mentira. Eu acredito, só não simpatizo muito com ele”.

É bem possível que eu siga a mesma linha de Galdino. Nunca soube também, com um mínimo de exatidão, o que significa agnóstico, mas admito que jamais me dei ao trabalho de estudar os comportamentos, verdades, vicissitudes ou o que seja necessário para compreender o que leva as pessoas à necessidade desse tipo de devoção, que não raro redunda em extremos violentos. Sabia que era algo ligado à religião, coisa que nunca figurou no meu espírito como algo importante pra passar de ano. Alguns séculos antes esse meu comportamento faria de mim a picanha da vez naquelas fogueiras de purificação.

Durante minha infância as beatas da vizinhança me olhavam com um misto de repúdio e extrema curiosidade diante das bombas que eu jogava em forma de opinião, mas o que de fato lhes causava espanto era o fato de eu ser absolutamente contrário à violência e às brigas de rua – comuns aos garotos de 10 anos da comunidade de então -, estudioso, bom aluno, disciplinado e avesso ao uso de palavrões, exatamente o contrário do meu irmão 11 meses mais velho que era coroinha. Mas eu dizia sem pudores que achava missa uma coisa ridícula, então meu destino estava traçado na mente daquela gente.

Já na idade adulta, durante um treinamento teórico na empresa, a instrutora-psicóloga convidou os presentes a declararem o que pretendiam dizer a Deus no ‘momento do grande encontro’. A maioria ficou no lugar-comum do tipo ‘eis-me aqui, Senhor, seu servo pecador etc etc etc’, mas me lembrei que o mundo estava em guerra, Saddam era caçado em todo canto, crianças morriam de inanição na Áfica e nos sertões do meu país e, na minha vez, tasquei um ‘vai começar a se explicar agora, ou quer tomar um chopp antes?’. O tempo fechou e a brincadeira acabou ali. Democraticamente.

Mas, enfim, é isso: não é que eu não acredite, o fato é que não confio no deus dessa gente. Cruel, preconceituoso, rancoroso, vingativo, orgulhoso, carente, vaidoso e, sobretudo, incompetente. Tipo ‘eu sou ótimo e infalível’, aí você dá uma olhada em volta e vê uma merda de mundo já em adiantado estado de decomposição, se pergunta ‘que porra é essa, cadê o deus fodão?’ e recebe de resposta algo como ‘não nos cabe questionar os desígnios do Senhor, é o livre arbítrio’, como se as erupções do Etna e a falha de San Andreas também fossem culpa minha. De quebra ninguém explica a contradição entre a consagrada verdade absoluta ‘não cai uma folha de árvore sem a permissão de Deus’ e o tal livre arbítrio. Onde exatamente se encontrariam essas duas paralelas?

Quando as pessoas finalmente perceberem que nunca-jamais-em tempo algum falei do Deus delas, mas apenas delas, talvez passem a respeitar um pouquinho meu ponto de vista.

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TEMPO REI

Claro que os sintomas foram se apresentando sistemática e moderadamente, mas pelo jeito eu não estava muito a fim de levá-los a sério. Começou com o pedido do aparelho de barbear emprestado, acabei comprando um somente para ele, mas a ficha parece que ainda estava volitando na minha frente, não caía.

Também encarei com absoluta normalidade quando, no boliche, ele pediu sapatilhas 43, afinal já fazia algum tempo que era mais alto do que eu. Bem mais alto, aliás.

Ainda hoje nos divertimos, Eliana e eu, repetindo palavras sem nexo que ele costumava falar quando tinha lá seus dois ou três anos. Acho que vai um pouco de saudade do tempo em que o tínhamos sob nossas asas poderosas e infalíveis, hoje ele está a cada dia mais solto, livre, senhor de si. Evidente que o criamos para ser assim, mas dói.

A novidade mais recente foi a namorada, uma teteia que me deixou orgulhoso de seu bom gosto, mas que também fez apitar o alarme da velhice, da vida que segue, do progresso inadiável daquilo a que chamamos tempo. De repente me pego falando sobre política ou filosofia com uma recém ex-criança e o cara, com seu um metro e oitenta e tals, já se sente credenciado a reivindicar uma cama melhorzinha, o que me põe a avaliar se não é hora de um quarto melhorzinho também.

O moleque que queria ser bombeiro e salva-vidas de piscina hoje tem bem sedimentada a opção pela medicina, que vai tentar em janeiro ou fevereiro do ano que vem, a depender do andar da carruagem da pandemia e dos restos do que foi um dia o Ministério da Educação deste país à deriva.

Ele já cresceu muito e quer continuar crescendo em outros sentidos, todos eles, sabe que tudo ao redor exige muito mais do que exigiu de mim quando tinha sua idade. 

Ontem nos demos o direito a uma espécie de rebeldia contra a disciplina algo rígida a que nos impusemos nestes tempos de isolamento e aportamos num foodtruck a poucos metros de nosso prédio. Um sanduba de responsa brindou o restinho de sábado com alguma leveza, parece que nossas almas ansiavam por algo do gênero. Falamos sobre viagens, lembramos os lugares que já visitamos e ele citou seu fascínio pelo Canadá, onde ainda não estivemos.

Fui para a cama algo incomodado, por realizar que esses momentos de gostosa interação vêm rareando ultimamente. Claro que o dia-a-dia de estudos e trabalho nos rouba muitas oportunidades, mas somos pai e filho com uma história gostosa demais para permitir a normalização de qualquer formalismo ou distanciamento entre a gente. Como a mãe dele estava em viagem, temos um ótimo pretexto para em breve incluí-la na repetição do programa, naquele ou em outro lugar, para celebrar essa atmosfera que sempre nos envolveu aos três e nos faz assim, unidos e queridos um do outro.

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LA CARTA MALEDETTA

 

“Bem-vindo à administradora do seu cartão. Se você deseja isso, digite 1, caso queira aquilo, digite 2” 

“Digite o número do seu cartão com 16 dígitos”

“Digite o ano do seu nascimento com quatro dígitos”

Digite o dia do seu nascimento com dois dígitos”

Digite os quatro últimos números do seu CPF”

Tum… tum… tum”

                           (…)

“Bem-vindo à administradora do seu cartão. Se você deseja …”

“Observamos que o cartão digitado é novo e se encontra bloqueado; caso queira solicitar o desbloqueio, digite 5; caso tenha recebido o cartão sem tê-lo solicitado, digite 6 para falar com um de nossos atendentes”

“Seis. Infelizmente não conseguimos validar seus dados, observe os números digitados e tente novamente tum… tum… tum”

                            (…)

Não digo qual é o banco, porque tenho muito carinho por ele. Mas essa história já tem cerca de seis meses, e começou com um alerta que recebi via sms num sábado à noite, que dizia algo assim: “Compra não autorizada, entre em contato com a Central de Cartões”. Agradeci aos deuses do Olimpo por não ter sido autorizada a transação, porque vi que era uma tentativa fraudulenta decorrente de um provável crackeamento do meu cartão. A Central de Cartões providenciou o bloqueio do meu cartão, a reemissão e envio de um novo. Beleza.

Ocorre que eu moro numa cidade chamada Goiânia que, penso eu, não é muito amada por carteiros e demais profissionais que precisam de endereços oficiais para realizar seu trabalho. A questão é que o cadastro da prefeitura estabelece um padrão de endereço com rua, quadra e lote, já na conta de energia esse mesmo ponto específico do planeta vem com rua e número. Isso sem falar das variações sobre o mesmo tema, em que o que era rua vira avenida e não raro o cadastro da prefeitura indica Rua Pelé e os demais citam um certo Edson.

Deve ser motivo de orgulho para a Câmara de Vereadores pelo menos, porque ninguém por aquelas bandas nem no Paço Municipal parece se incomodar com o fato de o mesmo logradouro atender pelas alcunhas de Rua 83, Avenida 83 e Rua Henrique Silva. Sim, Setor Sul de Goiânia, vejam aí no Google Maps. 

Pois bem: para finalizar meu atendimento a Central de Cartões do tal banco me pediu para informar verbalmente (“para sua segurança esta ligação está sendo gravada”) meu endereço completo. No que informei rua e número, a mocinha me disse que os dados não conferiam com seus registros. Então eu perguntei se o padrão dela inclui rua, quadra e lote e ela me respondeu que, por segurança, não poderia me dar aquela dica. Lembrei a ela que antes de travarmos aquele animado colóquio eu tinha passado por agradáveis dezenas de minutos atendendo às determinações de um robô, tendo digitado meus dados para identificação no sistema, donde não se justificava travar o atendimento ‘por questões de segurança’.

Não teve jeito: para solução do impasse eu precisaria ir até uma agência munido de meus documentos e um comprovante de endereço para realizar minha atualização cadastral. Ponderei que já há alguns anos o guarda não me deixa passar pela porta giratória, porque alguém da gerência disse a ele que tudo pode ser resolvido pelas maquininhas estacionadas na sala de autoatendimento e ele, como bravo soldado que é, barra a mundiça petulante que acha que pode chegar e ir entrando. Ela, então, me deu a opção de enviar meu comprovante de residência via internet. Assim o fiz, tendo recebido do site do banco a informação de que em até 72 horas a alteração seria processada. Ô, Gloria!

Passadas as tais 72 horas, entro no site e verifico que não havia mais a informação de processamento pendente. Então, serelepe, telefono para a Central de Cartões para solicitar que meu novo cartão de crédito fosse, finalmente, desbloqueado. As decepções que meu exacerbado otimismo às vezes tem que enfrentar ainda vão me mandar para o IML, fato é que a mocinha (depois das gravações, claro) me disse que meu endereço estava desatualizado e, por isso, não poderia comandar o envio do cartão. Informei que tinha feito a atualização e fiquei sabendo que deveria tê-lo feito via App, não no site. Sim, porque em que pese o banco e a administradora do cartão terem o mesmíssimo nome e adotarem a mesmíssima logomarca, são na verdade empresas distintas cujos sistemas não se falam. Achei normal.

Uma vez vencidos esses pequenos embaraços burocráticos, aguardei a chegada do novo instrumento de consumismo. Chegou, bonitão, pretão, cheio de marra com aquele aspecto de requinte que eu fiquei me perguntando se de fato merecia. Liguei para a Central de Cartões para solicitar o desbloqueio.

“Bem-vindo à administradora do seu cartão. Se você deseja…”

“Informamos que o cartão digitado foi cancelado. Digite 9 para falar com um de nossos atendentes”

A esta altura minha paciência começava a dar sinais de cansaço. O rapaz que me atendeu disse que o sistema informava que foram realizadas três tentativas de entrega do cartão no meu endereço, mas que por falta de alguém no local para recebê-lo ele foi devolvido à origem e cancelado.

Dois detalhes conflitam com a versão oficial do sistema: a) moro num condomínio com portaria 24 horas. Por essa portaria eu recebo com regularidade correspondências diversas, contas de energia elétrica e gás, sandubas do iFood, propagandas da legítima brazilian wax, folhetos com ofertas de supermercados, mas o banco alega não conseguir me entregar um mísero cartão de crédito; b) apesar de o banco ter tentado me entregar em três oportunidades sem sucesso, o cartão está aqui comigo, recebido na primeira tentativa.

Dããã!

A encrenca chegou a tal ponto que bateu um misto de cansaço e preguiça,  fazendo com que a opção ‘deixa pra lá’ passasse a comandar as ações. Então, já tem tipo seis meses que só utilizo o cartão de crédito de outra instituição. O interessante é que minha fatura, que invariavelmente me cobrava mensalmente alguns milhares de reais, passou a vir zerada e ninguém do tal banco entrou em contato comigo para saber o motivo.

Vai ver ainda não notaram.

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VADE RETRO, RELIGIO!

Já na adolescência tive meus primeiros contatos com a imposição de certo sentimento de culpa, por não gostar de hóstia nem de dizer amém. Sempre achei chato e pouco inteligente passar pano para aquelas historinhas mal contadas naquele livrinho mal escrito por homens que estavam longe de serem santos. Reconheço que me faltava boa vontade – ou sobrava preguiça – para tentar pelo menos me integrar à turba, porque o tal senta-levanta-agacha-ajoelha das missas era para mim um martírio tragicômico.

Percebi que minha rebeldia não era acompanhada por valentia, pois raramente opinava ou permitia que transparecesse essa minha maneira herética de ser. Segurava o questionamento quando alguém vinha com ‘graças a Deus a mulher se curou do câncer’, porque não pegava bem perguntar por que Deus não evitou o câncer na mulher. Deus já tava ali mesmo – né não? -, o que custava dar um up na mulher e ganhar uns likes da galera?

Percebo hoje que não me mostrava por simples instinto de sobrevivência social, porque os não alinhados como eu eram vítimas de conceitos e preconceitos. Eu levava a vida de boa, trabalhava, estudava, saía com os amigos – tinha amigos! -, namorava, tocava violão, curtia meus discos e livros, mas não gostava de religião, o que, por si só, fazia de mim uma pessoa má. Considerando que estávamos em plena ditadura e eu de quebra não simpatizava nem um pouco com o Ustra, minhas convicções político-religiosas faziam de mim uma espécie de protótipo de pária. Mas tinha orgulho disso.

O tempo passa, o tempo voa, e segui entrando em igreja só para acompanhar o casamento de alguém ou – mais recentemente – tocar em eventos. Não mudei de opinião, em que pese ter tido algumas experiências que me aproximaram de doutrinas interessantes, porque mais próximas da realidade. Passei a ler sobre o espiritismo, por influência do meu então sogro, que era do tipo que matava a cobra e mostrava a cobra morta, ao pregar o bem, a caridade e a solidariedade e praticar isso tudo em seu dia-a-dia. Toda semana promovia a sopa dos pobres, vivia mendigando às empresas de sua cidade donativos para os lascados da região, visitava enfermos, dava passes. Aí, de repente, chegou o Alzheimer e suas consequências o obrigaram ao isolamento. A partir de então teve somente a família por companhia até morrer, porque seus outrora companheiros de centro espírita simplesmente o abandonaram. A religião é feita por pessoas, e essas pessoas macularam seriamente minha ainda tênue admiração pelo espiritismo. Foi aí que Denizard e Chico Xavier foram enviados pra vala comum do descrédito.

As incoerências e contradições se multiplicam nas religiões. De repente aparece aquilo que ficou conhecido como neopentecostalismo, com seus pastores, bispos, apóstolos e assemelhados emergidos dos subterrâneos, vendendo caneta ungida para os crédulos, fazendo fortuna à custa de um povo miserável que jamais leu um livro na vida, ao mesmo tempo em que a galera do Vaticano acoberta os crimes sexuais de seus celibatários assexuados de hábito e crucifixo. Fora do cristianismo tem aquela turma que joga bomba, mete bala e sonha com dezenas de virgens num paraíso idealizado. Dizem que essas barbaridades e promessas estão no livrinho deles, mas eu duvido que não tenha um cretino fazendo as vezes de padre ou pastor para dar a interpretação do texto conforme a necessidade de momento.

Minha ojeriza ganha corpo num momento péssimo, em que uma garota de 10 anos aparece grávida em decorrência de estupros provavelmente frequentes, sofridos desde quatro anos atrás, praticados por um tio cujo nome não é divulgado nem seu rosto conhecido. Em casos da espécie nosso ordenamento jurídico permite a realização de aborto que, de fato, foi realizado, mas paradoxalmente a fúria dos ignóbeis e hipócritas de plantão recai sobre a vítima, tachando-a de assassina y otras cosítas más. Todos com a bíblia nos respectivos sovacos, não reconhecem na criança a condição de vítima de um monstro. Talvez por serem, igualmente, monstros.

Não odeio essa gente, desprezo me parece a palavra mais adequada. Não são de fato totalmente inúteis, apesar de merecidamente desprezíveis, porque ao menos servem de maus exemplos ou, no mínimo, me mostram que estou no bom caminho pelo simples fato de ser o oposto deles.

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UTOPIA

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IDIOMA DA PAZ

Já tem muitos anos que defendo a tese de que a música é a raiz da solução de todos os conflitos. Se fosse estudada e levada mais a sério a paz mundial não seria apenas discurso de miss. O segredo está na tolerância: dó é diferente de ré, que é diferente de mi, que não é igual a fá, e assim as notas desfilam mostrando todas as suas diferenças e nenhuma necessidade de mudar para ficarem mais parecidas com as demais. Como se não bastasse a coisa ainda tem os chamados acidentes, os bemóis e sustenidos, que cumprem com louvor a tarefa de complicar o aparente caos. Nem vou falar dos comas, que são subdivisões no meio dessa bagunça que chegou prometendo esculachar os ânimos de qualquer sonhador pacifista.

Na prática, porém, os personagens a que me refiro se juntam de maneira ordeira e pacífica quando resolvem virar música, e aquele balaio de gatos acaba criando o fenômeno de nome harmonia e é responsável por uma Nona de Beethoven, por exemplo.

Parece que de certa maneira essa proposta inata, esse ensinamento contido na música acaba tocando espíritos. Ontem passei boa parte da tarde curtindo peças do já relativamente antigo projeto Playing For Change, que acho uma das coisas mais geniais concebidas no mundo da música popular em tempos globalizados. Admito, porém, que minha porção envergonhadamente masoquista adora ser confrontada com situações que mostram o quão ignorante ou desatualizado eu sou, daí a achar a Orquestra Mundana Refugi e perceber que ainda não tinha vivido foi um pulo.

África, Oriente Médio, Taiwan, Cuba, imagine-se um bando de refugiados dos lugares mais diversos desse mundão, que o acaso cuidou de trazer para terras tupiniquins e juntar com outros tantos brasileiros num ambiente musical de vanguarda. Cada um com sua história e seu talento, seu instrumento que a princípio nos parece esquisito, sua trajetória triste mas que permite um sorriso e um olhar à frente.

Ainda não vi tudo o que há gravado dessa turma, mas já sei que merecem o sucesso que fazem em cada apresentação. Espero em breve vê-los ao vivo, obrigatoriamente em Sampa e num futuro pós-covid.

 

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