Ao longo da minha divertida carreira de auditor da Caixa Econômica, tive a oportunidade de flagrar e/ou apurar casos de fraude. Nos anos iniciais a maioria dos casos passou meio longe da área bancária ou financeira, geralmente as ocorrências se deviam a investidas contra programas ou produtos sociais, como o PIS, o FGTS, contas de poupança tituladas por pessoas idosas, seguro desemprego. Mesmo longe da Faria Lima, era coisa de bandido.
Um ponto comum em todos os casos era o que chamávamos de ‘olho grande’. Numa época em que a informática engatinhava e a internet só existia nos delírios de Isaac Azimov, a impunidade nas fraudes bancárias era bem comum quando os meninos maus eram comedidos, o que significa que dois ou três golpes aplicados em períodos mais longos dificilmente seriam descobertos. O problema era o olho grande.
Quando a auditoria era realizada nas dependências da rede bancária, o trabalho era feito com base na movimentação dos últimos meses de movimentação, ocasião em que a documentação principalmente de pagamentos, transferências e repasses era analisada na totalidade. Era aí que eu detectava os fatos estranhos, com a repetição incomum de nomes de sacadores e procuradores. Bastava cruzar esses documentos e… bingo! Tinha ‘sortudo’ que sacava o FGTS, por exemplo, 15 vezes em um único mês e relativo a contratos de trabalho distintos em períodos coincidentes, algo humanamente impossível no mundo da legalidade. O cabra conseguia ser empregado de várias empresas ao mesmo tempo.
Esses meninos danados me deram um trabalho igualmente danado. Numa realidade sem Excel eu tive que produzir quadros imensos demonstrando as falcatruas e, em seguida, redigir verdadeiros tratados em forma de notas explicativas e índices remissivos para a chefia entender.
Dia desses me lembrei dessa fase cansativa do meu currículo, ao acompanhar as reportagens voltadas para o caso Master. O tempo passa, o tempo voa, mas a boa e velha ganância mais uma vez tratou de entregar os malfeitores.
O caso é o seguinte: o tal Vorcaro já tinha se dado muito bem por muito tempo, já tinha amealhado alguns bilhões para beber água de coco em qualquer praia do mundo. Para esse happy end bastava entregar seu banco falido para os BTG e Bradesco da vida por um valor simbólico e correr para o abraço, mas Renato Russo já ensinou que “…quem tem mais do que precisa ter, quase sempre se convence que não tem o bastante”. Daí insistiu na aventura de vender o banco, seus títulos e carteiras fantasmas ou podres para o BRB por um valor na casa dos bilhões. Teve gente no Banco Central e no governo que achou aquilo esquisito e assim se iniciou a investigação e a derrocada.
Da mesma forma que os pés rapados pegos por este auditor de periferia abusaram da quantidade de fraudes e, com isso, desnudaram a farsa e se ferraram, o tal Vorcaro se recusou a fazer o simples e abrir mão de mais alguns bilhões, dando no que deu.
Tem sido muito brabo me equilibrar até a formatura do meu filho, mas adoro meu travesseiro.

