MATA O MENINO!

Devem ser comuns para alguém como eu, já avançado nos anos (ui!), as crises periódicas de saudosismo, causadas por uma invencível memória afetiva de quando eu era um molequinho. Eu não devia ter mais de oito anos de idade quando saía correndo da escola pra casa, determinado a não perder um minuto sequer da série com meus heróis favoritos. A TV era preto e branco, naturalmente.

Já adulto, fui contemplado com a iniciativa de alguém que possivelmente compartilhava dessa minha saudade pueril, e resolveu inserir num canal de TV por assinatura toda essa velharia. A ideia foi ótima, mas o resultados foram em boa parte catastróficos: alguns títulos feriram de morte minhas fantasias adormecidas.

A chatice que me acompanha e cresceu conforme os anos foram passando se transformou em exigência e senso crítico, então a decepção chegou forte. O que vi foram produções ruins, efeitos especiais paupérrimos (não relevei nem o fato de terem sido produzidos nos anos 1960), atores no melhor estilo Cigano Igor, roteiros bem a caráter para a faixa etária de seu público. Algumas poucas e nada absolutas exceções, como Jonathan Harris (o Dr. Smith, da primeira versão de Perdidos no Espaço) e as séries O Tunel do Tempo, Viagem ao Centro da Terra, Viagem ao Fundo do Mar e mais uma ou outra.

A última crise me pegou há uma ou duas semanas, quando bateu uma vontade doida de reler uma coleção que me apresentou, na adolescência, a alguns monstros sagrados de nossa literatura. Chama-se PARA GOSTAR DE LER, da Editora Ática. Infelizmente a coleção não foi reeditada.

Mas eu queria porque queria reviver aqueles momentos, então parti em busca das estantes virtuais da vida e acabei encontrando livros usados em bom estado no mercado livre. Comprei, chegaram ontem.

O primeiro volume, de crônicas, escolhido ao acaso, foi lido de um fôlego. Foi muito bom fazer as pazes com o velho Braga, Drummond, Paulo Mendes Campos, e tem muito mais. Havia um bom tempo que não me maravilhava com a simplicidade poética com que Fernando Sabino retrata as coisas da vida cotidiana, que tem o poder de vez ou outra me arrancar uma gargalhada contida.

Fui para a cama com um misto de júbilo e alívio, o medo de nova decepção me incomodou muito enquanto os livros não chegavam. Para minha alegria – e do meu menininho interior, ainda vivo – meus heróis das letras se mostraram imunes à ação do tempo.

Se tudo correr bem, minha próxima investida será a coleção Vagalume, da mesma Ática.

Ken Follett que espere, agora estou ocupado e me divertindo com a singeleza.

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