Do nada sintonizei a tal Globolixo(sic) nesta noite de segunda-feira. Que bom, grata surpresa! Pena que peguei o filme já correndo alguns minutos, mas fazia tempo que não me deliciava tanto. Foi interessante observar a fala da personagem Ana, com leve sotaque que me remeteu à minha amiga Lak Lobato e, claro, deduzi que era uma pessoa com deficiência auditiva.
O nome do filme é mais que sugestivo: 90 Decibéis. Conta a história de Ana, interpretada por Benedita Casé. Na história, a personagem central sofre acidente automotivo com seu filho e passa a sofrer perda progressiva da audição.
A proposta da produção é escancarada: mostra o mundo das pessoas com deficiência a partir de suas próprias vivências e expectativas, aborda a questão da inclusão a partir das situações diárias de exclusão, expõe o capacitismo em sua forma crua e sempre cruel mas, principalmente, invisível. Pelo menos ninguém nota.
A personagem Ana não é nenhuma heroína de capa e espada. Pelo contrário, tem seus momentos de negação, se afoga na insegurança e na incerteza quanto ao futuro, seu filho, seus relacionamentos, sua carreira. Fato é que, advogada conceituada em um escritório, acaba perdendo o emprego quando a surdez passou a limitar seu desempenho. Na verdade – o filme mostra isso de forma bem sutil – as perdas que experimenta decorrem não exclusivamente da surdez em si, que colabora um bocado, mas em especial da não aceitação das limitações que progrediam, da recusa em se ver como uma pessoa com deficiência e, portanto, sem a necessária consciência sócio-política de sua condição.
Aí rola uma virada no enredo: Ana, sem emprego e com sérias dificuldades de conseguir outro, já que as entrevistas eram todas por chamada de vídeo, acabou conseguindo uma colocação como atendente numa terceirizada que atendia exatamente pessoas com alguma deficiência em busca de documentos, certificações e outras situações em que a ordem era negar direitos. Parecia uma sucursal do INSS. Seus colegas de trabalho eram um paraplégico, uma amputada, uma mulher com nanismo, um deficiente visual, um paralisado cerebral, todos chefiados por um brucutu. O dia-a-dia cruel no trabalho e a convivência com seus colegas ‘atípicos’ despertou na protagonista uma visão de mundo diferente de tudo o que havia experimentado até então, e chegou o momento em que a advogada ressurgiu das cinzas e passou a atuar em prol dessa classe invisível, sejam seus colegas, sejam os pobres coitados que procuravam a instituição.
O filme tem seus momentos panfletários (talvez eu esteja sendo injusto ao utilizar esse termo) ao denunciar o capacitismo e a exploração do trabalho escudada na lei de cotas e nas diversas maneiras de burlá-la, o subemprego imposto, a humilhação, a ideia disseminada de que a pessoa com deficiência é um ser menor, menos capaz, menos importante e com menos direitos. Também retrata a realidade nos momentos em que os empregados são achacados e ameaçados de demissão ante qualquer demonstração de rebeldia, afinal estão ali de favor.
Bem dirigida, a produção tem alguns pontos altos a destacar: cerca de 70% do elenco é composto por pessoas com deficiência (a própria roteirista do filme, Julia Spadaccini, convive com perda auditiva progressiva). A atriz Benedita Casé, também deficiente auditiva na vida real, mostra que DNA é coisa séria (é filha da grande Regina Casé) e o corpo de atores igualmente manda muito bem ao longo dos 92 minutos de duração do filme.
Ao final a história meio que ameaça descambar para algo próximo do piegas, mas é contida a tempo, ainda que não abra mão de um final feliz, coisa que na vida real não ocorre assim tão fácil. Mas vale muito pelo entretenimento, pelas interpretações, pela gritante verdade que esfrega na nossa cara.
As famosas ‘coisas da vida’ há muito me levaram a conhecer os perrengues de quem tem alguma deficiência no Brasil, isso me levou a cultivar amizades deliciosas nesse universo. Claro que é motivo mais do que suficiente para que eu tenha ficado tão tocado com o filme. Quem enxerga o “lado de lá” sabe o quanto é importante o pertencimento, a luta, a empatia, o respeito à pluralidade.
Quem ainda não viu 90 Decibéis, veja. Por enquanto Globoplay, mas deve rolar um Netflix em breve.
Recomendo muito.

