AVENTURAS HOSPITALARES

Minha octogenária mãe voltou para casa hoje, depois de 17 dias internada no Hospital Regional da Asa Norte, popular HRAN, de Brasília. Recupera-se de um infarto.

Nesse período abri mão de minhas aulas de francês, do curso de iWeb e do convívio com Eliana e Lucas em prol de um objetivo maior. Nós, os familiares, nos revezamos nas funções de acompanhante e visitantes, buscamos informações, tentamos de alguma forma diminuir o sofrimento de quem só tinha se internado quatro vezes na vida: quando foi mãe e, mais recentemente, após detonar o tendão do mindinho quando a intenção era esquartejar um frango.

Eu já havia notado uma coisinha aqui, outra ali, mas meus momentos de acompanhante, quando permaneci no hospital com ela por 24 horas seguidas, foram muito ricos em informações sobre o funcionamento de um hospital público.

Em linhas gerais a coisa pode ser resumida assim: profissionais maravilhosos nas áreas de enfermagem, nutrição, fisio, fono e assistência social, médicos comprometidos e residentes extremamente gentis, carinhosos e motivados. Na outra ponta, como já notei em 2006 na internação de meu irmão em outro hospital público do mesmo DF, permanecem os administradores de merda.

Fico me perguntando se esses insetos engravatados de fato cursaram algo parecido com administração, quiçá administração hospitalar, ou se procede minha desconfiança de que só estão lá porque pertencem ao partido certo. O fato é que minha obtusa alma não consegue compreender a naturalidade da falta de gaze, medidores de pressão arterial, lençóis e medicamentos num hospital daquele porte. A propósito, já há algum tempo todos os telefones do hospital estão cortados por falta de pagamento.

Anteontem presenciei uma cena memorável: um médico, sentindo-se impotente e absolutamente revoltado com algo que não tive coragem de perguntar (mas imagino que seja a absoluta falta de condições de trabalho para exercer aquela sua mania besta de tentar salvar vidas), falou para um residente, talvez seu orientando: espero que sua geração não seja covarde como a minha.

Não o vejo como covarde, mas como teimoso. Covarde é o administrador, que sabe que faltam materiais de toda sorte, até humanos, e mesmo assim não bota a boca no trombone com medo de levar cartão vermelho. Interessante o senso de dignidade desse tipo de gente.

Acho inútil discorrer sobre os artigos 196, 197 e 198 da Constituição Federal, já que deveriam ser de conhecimento geral dessas pessoas que cuidam da saúde no Brasil.

A coisa ganha ares de normalidade quando vemos que o atual ministro da Saúde é engenheiro civil e investigado por corrupção e peculato. 

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Uma resposta a AVENTURAS HOSPITALARES

  1. Cristiano disse:

    De fato!!

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