RANZINZOLINO

O momento até que estava razoavelmente propício para soltar a franga, sair por aí feito um arremedo feio de Poliana Moça, esbanjando uma alegria boba, cometendo frases de autoajuda e outras indecências, mas não: minha insistência em permanecer chato feito funk gospel parecia inquebrantável, a ponto de agradecer e recusar convites pra tomar uma, jogar sinuca, descer o cacete no governo.

Sim, finalmente viajei pra Minas e conheci meu primeiro neto. Pegar meu pequeno Benício no colo já seria, por si só, motivo para um sorrisão desbragado e demorado, quiçá eterno. Mas pensa: passei tantos anos esperando pela oportunidade de botar a cara na janela e falar para o mundo que tenho um neto, e o carinha, em vias de completar três meses de vida, vai morar em Portugal. Serei um avô de fim de ano, sazonal, ausente, sem importância. Senti-me particularmente agredido ao notar que meu inconsciente, na intenção de me proteger, tentava evitar que eu me apaixonasse pelo carinha. Nessa empreitada ele se ferrou, mas a tentativa deixou sequelas.

Some-se a isso uma decepção familiar amargamente dolorida que prefiro não detalhar, mas que me feriu de uma maneira jamais imaginada, principalmente porque redundou num sentimento mais que sofrido de remorso ou culpa. Sim, Poliana Moça vai ter que esperar um bocadinho.

No auge do misto de ressentimento e emputecimento dona Patroa me sugeriu procurar ajuda profissional. Psicólogo, analista, algo do gênero. A princípio recuso, até porque tenho conhecimento pleno do que me jogou aqui embaixo, e não creio que palavras colocadas com  técnicas e método vão surtir algum efeito. Não é o caso de procurar o que me afeta e derruba, isso eu já identifiquei faz tempo.

De repente me vejo entendendo o que se passava com Aldir Blanc quando escreveu Resposta ao Tempo.

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