ILIBADOS

Leio agora que a federação polonesa de futebol resolveu, atendendo a pressões diversas, não convocar o jogador Maciej Rybus para compor o grupo que deverá participar da copa do Qatar. 

O motivo é singelo, e nada tem a ver com problemas técnicos ou físicos: o cara jogava num time russo e se recusou a sair de lá. Não, ele não se manifestou favoravelmente à guerra da Ucrânia nem à Rússia, muito menos aos atos praticados por Putin, não criticou os massacres e bombardeios russos contra edificações e a população ucraniana, tampouco falou sobre a intenção da OTAN de instalar mísseis na fronteira com a Rússia e, claro, voltada para Moscou, nem sobre a maldisfarçada participação de nazistas de chapa e cruz pelo exército ucraniano. Em suma, em momento algum ele se manifestou politicamente, apenas sustentou que é casado com russa, tem filhos russos e estão todos muito bem adaptados em Moscou, então não via razão para misturar esporte com política e prejudicar sua família e carreira.

Mesmo assim foi considerado inadequado para servir sua seleção e descartado. Considerando que esse entendimento é comum à maioria das federações nacionais, senão todas, é justo imaginar que tem o dedo da FIFA nesse angu.

Não é de hoje, porém, que o rico Qatar é palco de denúncias de crimes contra os direitos humanos, nem todos causados pelo sempre lamentável fanatismo religioso, faz parte do rol a misoginia, a exploração de trabalho escravo, assassinatos e mortes suspeitas, numerosas e não esclarecidas (porque não investigadas). Mas a boa e velha FIFA fez vista grossa até onde foi possível, inclusive sobre um código ridículo chamado Kafala, que permitia aos patrões reter passaportes de trabalhadores imigrantes, impedir sua saída do país e mesmo solicitar às autoridades a prisão de quem reclamasse. Recentemente uma mexicana foi condenada à prisão por ter denunciado seu estuprador. Ok, no Qatar rola uma grana preta, então tá tudo bacana.

Mas o atleta polonês está fora da copa porque não se posicionou politicamente e priorizou sua família.

Dia desses a FIA, entidade que comanda o automobilismo no planeta, estabeleceu diretrizes que culminaram com a demissão do piloto russo Nikita Mazepin, pelo fato de ser russo e seu país ser comandado por Putin. Surgiu a história de que haveria um documento-declaração que deveria ter sido assinado, em que o piloto se posicionaria contrário à invasão russa, porém ele declarou que se dispôs a assiná-lo mas, de repente, já estava demitido. Essa mesma FIA já foi mais, digamos, tolerante: alguém aí se lembra da África do Sul e seu apartheid? Pieter Botha, Nelson Mandela, lembram deles? Pois é. A galera da FIA nunca viu nada demais quando os brancos sul-africanos brincavam de tiro esportivo utilizando seus compatriotas pretos como alvo, prática decorrente da política de segregação política e social baseada numa suposta supremacia racial branca, que vigorou entre 1948 e 1994 (a título de informação ilustrativa, criada por Daniel François Malan, pastor protestante, um fofo), e jamais tomou uma atitude para de alguma maneira punir os bandidões sul-africanos, o que permitiu que os GPs no país ocorressem sem maiores percalços no autódromo de Kyalami. Jody Scheckter, então piloto do país, jamais foi sequer citado.

Enquanto isso, a Arábia Saudita há oito anos bombardeia o Iêmen, em conflito que já produziu quase 400 mil mortos. Os árabes estão na copa do Qatar, quase no mesmo grupo do time dos EUA, que atualmente jogam umas bombinhas sobre cabeças somalis.

Que bom que temos esses povos e entidades garantindo a normalidade no mundo.

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