MEU VELHO

Em outubro seo Otávio, meu pai, completará 84 primaveras. Vive às turras com minha mãe, de 78, devido à sua irresistível inclinação para uma cervejinha. Ou uma caixa, se possível. Minha mãe não tolera o álcool e tem lá seus motivos mais que justificáveis, já que perdeu o pai e um filho, meu irmão mais velho, para a marvada.

O velho está aposentado há algumas décadas, mas nunca conseguiu ficar parado. No início da aposentadoria vivia embaixo dos carros da vizinhança (todo motorista profissional com mais de 30 anos de volante é também mecânico), ou ajudando a levantar um muro, pintar uma parede. Nunca cobrou nada, mas o pagamento vinha na forma de uma gentileza aqui, outra acolá. Política de boa vizinhança deve ser mais ou menos isto. Hoje já não tem essa disposição toda, e se tornou um devorador de livros – inclusive os clássicos -, detonador de revistas de palavras cruzadas e jogador de vídeo-game. Isso tudo entre uma latinha e outra.

A vida toda foi muito correto, e me alegra a consciência de que herdei isso dele. Herdei também um desvio congênito de coluna, mas não se pode ganhar sempre. Acho que o mais significativo que puxei do ácido desoxirribonucleico do velho foi o otimismo, a socialização automática e uma boa dose de irreverência. Também a brabeza, nas poucas oportunidades em que foi necessária.

Fui o caçula até os 16 anos, quando nasceu o bródi Christiano. A história do nascimento do carinha dá bem a dimensão da façon de vivre de meu pai. Naquela época ele era funcionário público do Estado de São Paulo e trabalhou na representação de SP em Brasília até se aposentar. Era a embaixada do Maluf, Quércia e outras aves de rapina que habitaram o Palácio Bandeirantes e iam regularmente a Brasília em busca de dindim. Como o Hospital do Servidor Público de São Paulo ficava a mais de mil quilômetros, a representação do governo de SP em Brasília firmou convênio com um hospital, meio capenga, que vez por outra era cancelado, para atendimento aos servidores locais.

Numa dessas minha mãe entrou em trabalho de parto. Correria. A primeira parada foi um hospital no Plano Piloto, que alegou não ter condições de atendimento. Então, jogaram minha mãe numa ambulância e correram talvez todos os hospitais públicos do Distrito Federal. Minha mãe gemendo. Meu pai pediu então ao motorista da ambulância que se dirigisse ao primeiro hospital procurado, que era o conveniado. Em lá chegando, pegou uma cadeira e, no meio do salão, colocou minha mãe sentada, avisando aos presentes assustados que dentro em pouco assistiriam ao nascimento de uma criança.

Misteriosamente apareceram médicos, enfermeiras e sala de parto, meu irmão nasceu e nesse meio tempo o convênio foi retomado. Passado o tempo necessário de internação, era chegado o momento de voltar para casa.

Meu pai deixou minha mãe e meu irmão no carro e retornou ao departamento financeiro do hospital para assinar os documentos do convênio. Só que tinha uma surpresinha: foi apresentada uma fatura cobrando alguns procedimentos em tese cobertos pelo convênio, o popular ‘por fora’. O velho achou que era desaforo, bateu o pé e disse que a cobrança era ilegal e não pagaria, virou aquele angu de caroço até que uma alta autoridade de lá sentenciou: se não pagar não poderá levar a criança para casa.

Meu pai, então, deu o mata-leão na incrédula equipe de cobrança: “pois então fiquem com essa criança aí, que eu não quero mais”. E saiu porta afora, sem dar ouvidos aos chamados desesperados da galera de branco, que não sabia que já estavam todos no carro.

Acho que até hoje devem se perguntar sobre aquele recém-nascido que desapareceu da maternidade, após ter sido abandonado pelo próprio pai.

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6 respostas a MEU VELHO

  1. Negao, seu pai deve ser seguramente uma grande figura, igual a q se vê no filho! Adorei a veia poética q vc aplicou no início do texto!! Blog cada dia melhor…. Ainda bem!

    • Rogério Veloso disse:

      Meu Rei, ainda bem que conseguiu driblar as dificuldades eletrônicas que o impediam de comentar. O velho de fato é uma figuraça. Obrigado pelas palavras de incentivo, lembre-se que me guiei muito por suas dicas passadas. Beijo na patroa.

  2. Sinhá disse:

    seu pai parece ser uma figuraça, do tipo que eu gosto.
    Parabéns Negão, muito gostoso ler seus relatos.
    Beijo no seu Otávio.

  3. Amauri Kravaski disse:

    Como o cabra parece ser dos meus, mandar um beijo pro Otavião não soaria legal, então fala pra ele tomar umas e lembrar que tem um cabra bão aqui em SP desejando Saúde e Serveja (pra combinar) pra ele. Esse é porreta, ao contrário do filho flor……kkkkkkkk

  4. Simone disse:

    Seu Otávio é uma pessoa maravilhosa e muito alto astral. Incrível já estar fazendo 84 anos com toda essa vitalidade! Lição de vida! Abraços para ele!

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