HIGHLANDER

Eu andei falando sobre meu pai neste cafofo – quem não leu, clica aqui – mas acabei me esquecendo de adicionar o detalhe da teimosia, que foi se avolumando ao sabor da sobreposição das décadas no lombo.

Antes, uma correção: ele completou 82 e não 84 anos em outubro passado. É, eu às vezes também acuso os golpes do calendário.

O velho é pernambucano de Caruaru, onde mora minha irmã, cunhado, aderentes e a sobrinhada. Todo janeiro, há vários anos, boto o patriarca num avião para a visita anual sagrada ao torrão não menos sagrado, ocasião em que ele revê todos os familiares, curte uma praia e detona uma coleção de latas, a maioria de cerveja mas desconfio que também não livra a cara da Pitu. Em 2014 a coisa foi um pouco diferente: meu tio Jorge, seu irmão, saiu de São Paulo, onde mora, passou em Brasília, apanhou meu pai e seguiram para Pernambuco de carro. Como no mundo oceânico há os chamados ‘lobos do mar’, imagino que a viagem deles tenha sido uma revisita de dois velhos ratos de estrada a seu antigo habitat. Mesmo nunca tendo trabalhado juntos, ambos foram caminhoneiros durante décadas.

A coisa deve ter sido muito divertida para os dois, porque combinaram repetir a dose este ano. Para desespero do lado de cá, diga-se, já que meu tio é dois anos menos jovem que meu pai. O combinado, por sua vez, tinha requintes de crueldade: meu pai sairia de Brasília, iria até São Paulo, mais especificamente Mauá, e de lá partiriam. Só o trecho entre SP e Caruaru são cerca de 2.500 km.

Minha mãe, que nunca foi fã sequer das viagens aéreas (só topou ir uma vez), ficou zureta com as idéias mirabolantes dos dois malucos. Conversamos com meu pai, expusemos os riscos, lembramos a ele que os anos se passaram e os reflexos já não são os mesmos, pedimos, ponderamos e no dia dois de janeiro o velho montou em seu Corolla rumo à paulicéia. O botão do foda-se dele é grandão.

Passamos o réveillon em Brasília, mas já no dia seguinte tivemos que retornar a Goiânia, porque Eliana não teria folga na sexta-feira. Lá pelas 10 da manhã o telefone tocou e era meu irmão do outro lado, para me informar que meu pai tinha capotado o carro mas sem detalhamentos sobre o estado dele, apenas uma informação de que estaria bem e sob cuidados médicos em um hospital da cidade de Uberlândia/MG.

O celular dele só dava caixa postal, então tive a ideia de tentar alguma informação junto à Polícia Rodoviária Federal. Liguei no posto da BR-365, em Uberlândia, e me confirmaram que não só meu pai estava milagrosamente bem, como o carro havia sido encaminhado para lá. Até a véspera, sem um único arranhão; no dia seguinte, sucata:

Carro

O mais angustiante era não saber para qual hospital meu pai tinha sido encaminhado, eu ora pegava as chaves do carro para ir às escuras para Uberlândia, ora voltava para o sofá em frente ao telefone na esperança de receber notícias. Após meia hora de sofrimento o telefone toca e recebo as informações de que precisava.

Pé na estrada, eu tinha cerca de 350 km para vencer.

Como já era tarde de sexta-feira e o policial rodoviário me avisou que os procedimentos para liberação do carro só poderiam ser feitos em horário comercial, parei primeiro no posto da PRF na entrada da cidade. Fui super bem recebido e atendido, a papelada necessária foi preenchida e logo estava na porta do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia. O nome é pomposo, mas o prédio parece não resistir a uma sopradinha do lobo mau.

Ao me identificar para a moça da recepção percebi que meu pai estava de fato ali: “ah, é filho do Seo Otávio?, ele está muito bem (homem forte, né?, ele é sempre bem-humorado assim?, 80 e tantos anos e com aquela saúde, benzadeus, etc), já conversamos muito, que coisa né, ainda bem que blá-blá-blá…”

Meu pai estava com o rosto um pouco inchado, principalmente no nariz e na região dos olhos, provavelmente por ter metido a cara no volante. O acidente foi causado por um motociclista (cuja mãe é uma santa) que invadiu a estrada no embalo que vinha de uma saída de fazenda e meu pai, para não passar por cima, meteu o pezão no freio e acabou perdendo o controle do carro. Nem ABS nem airbag funcionaram, legal né?

Saldo da farra: fratura do esterno, sem a necessidade de procedimentos médicos, leves escoriações nos braços e uma das pernas e a cara de quem mexeu com mulher de pugilista. Pelas circunstâncias, um lucro exorbitante.

Ainda assim os médicos me avisaram que não dariam alta naquele dia, porque era necessário aguardar mais 24 horas em observação. Nós dois sem fome (meu pai pelo menos estava no soro glicosado), passamos o resto do dia sem comer nada. Depois das nove da noite meu pai dormiu pesado e resolvi procurar um hotel, principalmente porque precisava ligar para um monte de gente para repassar as notícias e a maravilhosa TIM simplesmente não funciona em Uberlândia, uma das cidades mais importantes de Minas Gerais. Tentei utilizar o orelhão que fica em frente ao estacionamento do hospital, mas fiquei com a nítida impressão de ter retornado ao início do Século XX. O máximo que consegui foi ouvir alguém do outro lado gritando “alô, alô, alô…”.

Acho que estava meio cansado, acordei mais tarde do que gostaria. Cheguei no hospital e lá estava Seu Otávio, ainda fantasiado de paciente mas já liberado. Conversei mais uma vez com os médicos e enfermeiras, recebi as orientações necessárias e providenciamos o retorno para Brasília. 

Ainda que o prédio do complexo hospitalar esteja em ruínas, é justo destacar o excelente atendimento que meu pai recebeu, além da consideração e zelo de médicos e enfermeiros que fizeram questão de me colocar a par de tudo. É um hospital-escola, a maioria ali era de residentes, mas saí de lá com um pouco mais de esperança. Pelo menos por enquanto essa molecada está a fim mesmo é de honrar o juramento a Hipócrates, duvido que algum deles esteja pensando em comprar um leito de UTI para alugar, arrumar um emprego público só para bater ponto e correr para o consultório próprio ou mesmo colocar uma prótese de madeira e cobrar do SUS ou plano de saúde o equivalente a uma peça de titânio.

Durante a primeira hora de viagem meu pai dormiu no banco de trás. Quando acordou já estávamos próximos a Catalão e seu celular tocou. Era meu tio, que queria saber como ele estava e avisar que tinha decidido fazer a viagem em seu próprio carro. Disse que na ida passaria por Brasília para uma visita.

Abasteci o carro, fizemos um lanche rápido e novamente ganhamos a estrada. De repente o velho pega o telefone, digita uma infinidade de números e diz: “Jorge, cabe mais um no seu carro?” Fiquei entre incrédulo e atônito. ‘Velho, tá doido?, saiu do hospital hoje e já quer viajar amanhã?’ Acho que meu pai encara a vida de forma mais simples. “Tô me sentindo ótimo, ué!”

A Terceira Guerra Mundial esteve prestes a eclodir quando chegamos, mas acho que nem a lábia do Maluf convenceria meu pai a mudar de idéia.

Ontem ele me telefonou. Estava na praia, perto de Porto de Galinhas, paparicado pela filha, netos e bisnetos, só lamentando que ainda tinha alguns dias de lei seca a cumprir. Feliz da vida.

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