APNEIA

Lá se vai um bom par de décadas que dedico minhas noites à arte de roncar. Em maior ou menor grau, com mais ou menos decibéis, meu estilo é o ronco em si bemol na clave de fá, aquela coisa parecendo um tenorzão soprado por um hipopótamo.

Eu ainda estava sob antiga direção quando procurei ajuda médica. Tive que me submeter a um exame dos infernos chamado videolaringoscopia, em que a profissional me fez assumir a função de artista de circo e arregaçou minha garganta com uma cânula metálica de uns 30cm, com uma câmera na ponta para filmar a minha beleza interior.

Naquele momento eu não tinha muita diferença para um ganso francês sendo preparado para o fornecimento do foie-gras.

foie com texto

Quase a mesma coisa, né?

A médica ainda achou de testar a minha afinação. Com aquele tubo metálico cutucando o âmago do meu ser, pediu para repetir a escala de dó de trás pra frente. Só me arrancou grunhidos.

O veredito: hipertrofia e flacidez de úvula que, durante o sono, obstrui a passagem do ar e provoca o concerto para moto-serra. Isto foi há mais ou menos 20 anos, a doutora sugeriu uma cirurgia meio punk no meu pós-lingual e eu nunca mais dei as caras por lá.

Aí iniciei o processo de engorda de que falei no post Sanfona. A consequência mais marcante disso foi um aumento considerável dos episódios de apneia obstrutiva, que passou a me acordar madrugada adentro. Um saco. Achei melhor procurar ajuda médica de novo, e uma clínica especializada em distúrbios do sono caiu bem.

Foi a primeira vez em quase duas décadas que dona Eliana não teve o privilégio de me botar pra fazer naninha. Dormi na clínica, onde fui monitorado a noite toda via eletrodos que não contei, mas deviam ser uns 40 ou 50 espalhados por cabeça, tronco e membros. De vez em quando eu olhava meio de lado e tentava evitar o pensamento ‘vai que çapoha dá choque…’.

Após cerca de uma semana saiu o resultado da farra, que disse mais ou menos o seguinte: dos 386 minutos dormidos, houve 366 despertares, com o índice de distúrbio respiratório em 58.8, seja lá o que isso signifique. Houve momentos prolongados do que me pareceu ser uma espécie de cianose, com 40% de saturação da oxi-hemoglobina. Não fora eu um cara pra lá de otimista, diria que fudeu.

Até prova em contrário essa meleca não tem cura, apenas paliativos. Tudo indica que terei que usar uma máscara chamada CPAP, um troço mais feio que o Bolsonaro e que não tenho certeza se terei coragem de usar em público. Pelo menos minha médica disse que resolve tanto o ronco quanto a apneia, o que quer dizer que eu terei mais disposição durante o dia e Eliana sorrirá feliz e aliviada à noite.

Ela disse também que a má qualidade do sono e essa deficiência de oxigênio no sangue prejudicam bastante as atividades durante o dia, provocam sono e afetam também as atividades cerebrais e cognitivas. 

Finalmente descobri por que demorei quase 20 minutos pra dar aquele xeque-mate no Kasparov.

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