COMO NOS VELHOS TEMPOS

Eis que meu pai me telefona com a voz meio chorosa, contando sobre a hemorragia que acometeu minha mãe e a enviou ao hospital. Peguei a estrada para Brasília em coisa de meia hora e em algumas centenas de minutos aportei na capital federal, mais precisamente no estacionamento em frente ao Hospital Regional da Asa Norte, o popular HRAN.

Fui alertado pela médica que a atendeu de que o quadro não era assim tão simples, pois demandava uma pequena cirurgia para retirada de um pólipo intestinal e a realização de uma biópsia, com a imposição de alguns dias de internação até que se recuperasse.

Minha mãe tem 83 anos, meu pai 87. A política do hospital nos permitiria acompanhar nossa velhinha pelas 24 horas do dia, então combinamos, meu irmão e eu, que nos revezaríamos nas incursões pelas madrugadas, deixando para nosso pai a visita diurna, entre as 08 e 15 horas.

Levamos bem a sério a combinação, mas o desenrolar dos fatos resolveu que não cumpriria sua parte. Minha mãe não melhorava seus indicadores, a pressão alternava, passou a apresentar deficiência de potássio e depois de sódio, não conseguia se alimentar e não preenchia, ainda que minimamente, a bolsa de colostomia que havia sido colocada após a cirurgia.

Na quinta-feira 13 de fevereiro, 11 dias após a internação, o médico responsável me procurou para informar que minha mãe teria que ser reencaminhada para o centro cirúrgico e, em seguida, à UTI, porque seus pontos haviam rompido e os exames realizados na véspera denunciavam pneumonia e infecção pulmonar. Logo em seguida meu pai chegou para me render e tomou conhecimento das novas nada boas.

Levantamos acampamento – as circunstâncias nos obrigavam a desocupar o apartamento – para permanecer em casa à espera de novidades. Foi quando a nostalgia se fez presente e me trouxe lembranças de quando nós cinco (minha mãe, meu pai, meu irmão Reginaldo (já falecido), meu irmão Christiano e eu) ousávamos encarar um rango diferente para comemorar algo, compensar momentos de perrengue ou simplesmente agir de forma rebelde contra a dureza crônica que sempre nos caracterizou. Achei que merecíamos e convidei meu irmão e meu pai para um jantar diferente, longe do fogão de casa. Eles toparam mas, devido ao cansaço geral, resolvemos buscar para comer em casa. Então fui apresentado à carne de sol do restaurante Mandaka do pistão sul de Taguatinga, indecente de gostosa, acompanhada de paçoca, mandioca derretida, manteiga do sertão, feijão de corda, vinagrete. Um escândalo.

Foi muito bom observar que o sabor de resgate de um passado não tão remoto nos fez ainda mais cúmplices e nos fortaleceu para enfrentar o que quer que viesse pela frente. Algumas culturas cultivam na gastronomia alguns motes para o bom relacionamento entre iguais, baseadas na crença de que o compartilhar dos prazeres à mesa é base do hedonismo idílico a que devemos todos nos render. A princípio, não discordo. Pelo menos durante aqueles minutos nos sentimos leves, compensados, felizes e momentaneamente livres do medo e da incerteza que nos dominavam quase que completamente naqueles dias.

Os dias vindouros ainda nos seriam bem pesados.

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