CONVICÇÃO

Meus primeiros momentos na auditoria da Caixa me reservaram um ensinamento em forma de puxão de orelha que carreguei para toda a vida funcional, e mesmo pessoal: “se você está lá para analisar, avaliar, testar, tem a obrigação de ser assertivo e comprovar tudo o que disser”. Isto porque produzi um relatório com a expressão ‘tudo leva a crer’, pegando carona nos hábitos de um colega que adorava colocar ‘fortes indícios’ e assemelhados em seus apontamentos.

A chefia foi clara: “se não tem certeza, não escreva sobre o assunto; mas, se teve a oportunidade de analisar, por que não tem certeza?”.

Meu chefe era conhecido pela alcunha (não sei se carinhosa) de Buffalo Bill. Exigente, honesto e leal, nunca soube contemporizar com malfeitos de seus subordinados, principalmente quando o quesito ética era ferido. Por outro lado, era aquele que apoiava sua tropa até o fim, mesmo nas situações de saia justa. Eu me lembro de na década de ’90 ter telefonado para ele de Cuiabá para informar que havia coisa esquisita na área (no nosso jargão particular, isto era sinônimo de corrupção). Ele perguntou: “você tem disponibilidade para apurar?”, respondi que sim mas informei que a questão poderia envolver ou espirrar numa ‘alta patente’ da matriz, ao que ele respondeu: “mete bronca, a gente escreve assim mesmo”. Assim foi feito, produzi minha coleção de mal traçadas linhas em forma de uma deduragem oficial, que foi por ele encaminhada e deu uma shit dos diabos nos gabinetes palacianos. Na época do Buffalo Bill fazíamos os relatórios sem medo de retaliações, encaminhávamos para a chefia e metíamos a mão no botão do foda-se. Era bom!

Parece que esse cuidado que sou tão grato por ter aprendido e incorporado ao meu modus vivendi não é compartilhado por todos. Li alguns documentos produzidos pela tal Força Tarefa de Curitiba. Além de ter achado que a redação poderia ser melhorzinha, deparei com um sem-número de ‘temos certeza’, ‘salta aos olhos’, ‘temos convicção’. Essas expressões retornaram na nova investida da turma contra os alvos de sempre, Lulinha à frente. Falta substância, talvez uma dose de técnica ou verdade, o fato é que já declararam à imprensa (ah, como gostam da imprensa!) as mesmas certezas que estão longe de constituir provas legalmente aceitas. Diabeísso, pensei. Buffalo Bill pagaria geral nessa turma, ele que vivia nos dizendo nas reuniões: “somos auditores, não pistoleiros; honestidade, senhores!”.

Então, é este o grande desafio: finalmente identificar algum elo entre lé e cré, de forma a dar credibilidade nesse imbróglio que deveria ser jurídico-policial mas se transformou em pistolagem político-midiática.

Permaneço na arquibancada, na cômoda posição de espectador dos próximos capítulos. Mas a tendência de achar que esses meninos mais uma vez vão ficar no achismo é muito grande, até porque um dos procuradores já deu entrevista avisando que “os fatos são bastante complexos”, “ainda não temos provas” e “temos que aguardar o resultado das buscas, amadurecer esta investigação”. Claro que toda investigação tem começo, meio e fim, tem suas fases, paciência e persistência fazem parte, mas a mania desses bravos rapazes – que já se fez presente neste novo episódio – de começar jogando no ventilador e só depois procurar reais evidências é de uma irresponsabilidade mastodôntica. Nesse meio tempo reputações podem ser assassinadas, como já ocorreu. 

Impunemente, diga-se. 

Esta entrada foi publicada em Acessibilidade e Cidadania e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *