NA ESCOLA

Meu filho estuda num colégio católico, dito confessional. Grande, enorme, muito bem estruturado, milhares de alunos do fundamental ao ensino médio, caro. Este ano a mensalidade ficou próxima de $ 2 mil, que paguei com muito sacrifício e também muitos sorrisos. Tem lá seus problemas como todos os outros, mas suficientemente pequenos para não abalar minha convicção de que vale cada centavo.

O nível de ensino, cobranças e provas é pesado, de vez em quando me pego morrendo de dó do moleque, mas ele demonstra gostar muito e seus livros e redações me convencem de que estamos no melhor dos mundos. Por um motivo principal, que gera os demais: a filosofia de ensino e convívio, bem como a visão de presente e futuro denotam gostoso humanismo.

Lá eles incentivam a camaradagem e a análise crítica, utilizam a figura de seu patrono Marcelino Champagnat para enfatizar as virtudes da generosidade e humildade, demonstram ter feito a opção preferencial pela formação de cidadãos, longe dos ambientes de competição predatória dos colégios que têm como meta principal – e talvez única – colocar seus alunos num curso superior. 

Uma das atividades extracurriculares oferecidas denomina-se HUB e se ocupa de, basicamente, botar a garotada para analisar o mundo em volta. Assuntos como ecologia, política, economia (em especial economia doméstica), cultura popular, educação, saúde, emprego, mazelas sociais brasileiras, racismo e demais preconceitos são objeto de discussão e análise. Essa atividade já levou os alunos a visitar e entender o funcionamento de uma estação de tratamento de água e esgoto, colocou-os frente a frente com um diretor da CEASA para tratar do desperdício diário e crônico de alimentos, apresentou-lhes uma escola pública e uma entidade de acolhimento de menores. Ao final do período determinado para a atividade, os pais e responsáveis são convidados a assistir a apresentação do resultado, que pode ter a forma de música, teatro, jogral ou um pouco de cada. 

Anteontem estive lá. Lucas e sua turma transportaram para a linguagem teatral a questão da (ausência de) acessibilidade no cotidiano das cidades, outros grupos trataram das desigualdades sociais e conflitos decorrentes, além de questões mais específicas, como a convivência crescente com imigrantes. Como convidados especiais, apresentaram três imigrantes haitianos, que contaram parte de sua história. 

Eu nunca saio do mesmo tamanho desse tipo de apresentação. Primeiro porque percebo que, por insistir em subestimar essa molecada, sempre tenho o espírito lavado pelo conhecimento que não sabia que eles detinham e pela consciência que duvidava haver naquele nível, considerando que a maioria esmagadora ali pertence à classe média alta. Também porque é sempre uma aula de empatia e cidadania, lembrando que, até onde observo, não há o menor sinal de censura aos assuntos eleitos ou às opiniões e forma de abordagem.

Ao final do ‘espetáculo’, cumprimento uma professora querida e papo vai, papo vem, chegamos à mesma pergunta sem resposta: como seria a reação da ‘plateia’ se os garotos abordassem a questão da fome no país (como fizeram na apresentação) perante os tradicionais patetas defensores da tal escola sem partido?

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