IDIOMA DA PAZ

Já tem muitos anos que defendo a tese de que a música é a raiz da solução de todos os conflitos. Se fosse estudada e levada mais a sério a paz mundial não seria apenas discurso de miss. O segredo está na tolerância: dó é diferente de ré, que é diferente de mi, que não é igual a fá, e assim as notas desfilam mostrando todas as suas diferenças e nenhuma necessidade de mudar para ficarem mais parecidas com as demais. Como se não bastasse a coisa ainda tem os chamados acidentes, os bemóis e sustenidos, que cumprem com louvor a tarefa de complicar o aparente caos. Nem vou falar dos comas, que são subdivisões no meio dessa bagunça que chegou prometendo esculachar os ânimos de qualquer sonhador pacifista.

Na prática, porém, os personagens a que me refiro se juntam de maneira ordeira e pacífica quando resolvem virar música, e aquele balaio de gatos acaba criando o fenômeno de nome harmonia e é responsável por uma Nona de Beethoven, por exemplo.

Parece que de certa maneira essa proposta inata, esse ensinamento contido na música acaba tocando espíritos. Ontem passei boa parte da tarde curtindo peças do já relativamente antigo projeto Playing For Change, que acho uma das coisas mais geniais concebidas no mundo da música popular em tempos globalizados. Admito, porém, que minha porção envergonhadamente masoquista adora ser confrontada com situações que mostram o quão ignorante ou desatualizado eu sou, daí a achar a Orquestra Mundana Refugi e perceber que ainda não tinha vivido foi um pulo.

África, Oriente Médio, Taiwan, Cuba, imagine-se um bando de refugiados dos lugares mais diversos desse mundão, que o acaso cuidou de trazer para terras tupiniquins e juntar com outros tantos brasileiros num ambiente musical de vanguarda. Cada um com sua história e seu talento, seu instrumento que a princípio nos parece esquisito, sua trajetória triste mas que permite um sorriso e um olhar à frente.

Ainda não vi tudo o que há gravado dessa turma, mas já sei que merecem o sucesso que fazem em cada apresentação. Espero em breve vê-los ao vivo, obrigatoriamente em Sampa e num futuro pós-covid.

 

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