CISMAS

O pessoal não é dado a deixar comentários registrados neste cafofo, mas de quando em vez sou abordado por outros meios para fins exclusivos de levar esporro pelo que escrevi. Acho graça e tento compreender, é divertido tentar. Até telefonema recebi após publicar ‘Vade Retro Religio’, não imaginei que a celeuma fosse chegar a tanto. “Aquilo que você escreveu… rapaaaaaz!…”.

Herege sem conserto ou uma alma atormentada precisando ser salva? A maioria me chama mesmo de ateu, ainda que eu não tenha lá muita ideia do real significado disso. Ariano Suassuna gostava de contar a história de Galdino, figura conhecida de Taperoá na sua Paraíba natal, que ficava ‘danado’ se alguém dissesse que era ateu. “Dizem que eu não acredito em Deus, isso é mentira. Eu acredito, só não simpatizo muito com ele”.

É bem possível que eu siga a mesma linha de Galdino. Nunca soube também, com um mínimo de exatidão, o que significa agnóstico, mas admito que jamais me dei ao trabalho de estudar os comportamentos, verdades, vicissitudes ou o que seja necessário para compreender o que leva as pessoas à necessidade desse tipo de devoção, que não raro redunda em extremos violentos. Sabia que era algo ligado à religião, coisa que nunca figurou no meu espírito como algo importante pra passar de ano. Alguns séculos antes esse meu comportamento faria de mim a picanha da vez naquelas fogueiras de purificação.

Durante minha infância as beatas da vizinhança me olhavam com um misto de repúdio e extrema curiosidade diante das bombas que eu jogava em forma de opinião, mas o que de fato lhes causava espanto era o fato de eu ser absolutamente contrário à violência e às brigas de rua – comuns aos garotos de 10 anos da comunidade de então -, estudioso, bom aluno, disciplinado e avesso ao uso de palavrões, exatamente o contrário do meu irmão 11 meses mais velho que era coroinha. Mas eu dizia sem pudores que achava missa uma coisa ridícula, então meu destino estava traçado na mente daquela gente.

Já na idade adulta, durante um treinamento teórico na empresa, a instrutora-psicóloga convidou os presentes a declararem o que pretendiam dizer a Deus no ‘momento do grande encontro’. A maioria ficou no lugar-comum do tipo ‘eis-me aqui, Senhor, seu servo pecador etc etc etc’, mas me lembrei que o mundo estava em guerra, Saddam era caçado em todo canto, crianças morriam de inanição na Áfica e nos sertões do meu país e, na minha vez, tasquei um ‘vai começar a se explicar agora, ou quer tomar um chopp antes?’. O tempo fechou e a brincadeira acabou ali. Democraticamente.

Mas, enfim, é isso: não é que eu não acredite, o fato é que não confio no deus dessa gente. Cruel, preconceituoso, rancoroso, vingativo, orgulhoso, carente, vaidoso e, sobretudo, incompetente. Tipo ‘eu sou ótimo e infalível’, aí você dá uma olhada em volta e vê uma merda de mundo já em adiantado estado de decomposição, se pergunta ‘que porra é essa, cadê o deus fodão?’ e recebe de resposta algo como ‘não nos cabe questionar os desígnios do Senhor, é o livre arbítrio’, como se as erupções do Etna e a falha de San Andreas também fossem culpa minha. De quebra ninguém explica a contradição entre a consagrada verdade absoluta ‘não cai uma folha de árvore sem a permissão de Deus’ e o tal livre arbítrio. Onde exatamente se encontrariam essas duas paralelas?

Quando as pessoas finalmente perceberem que nunca-jamais-em tempo algum falei do Deus delas, mas apenas delas, talvez passem a respeitar um pouquinho meu ponto de vista.

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