TEMPO REI

Claro que os sintomas foram se apresentando sistemática e moderadamente, mas pelo jeito eu não estava muito a fim de levá-los a sério. Começou com o pedido do aparelho de barbear emprestado, acabei comprando um somente para ele, mas a ficha parece que ainda estava volitando na minha frente, não caía.

Também encarei com absoluta normalidade quando, no boliche, ele pediu sapatilhas 43, afinal já fazia algum tempo que era mais alto do que eu. Bem mais alto, aliás.

Ainda hoje nos divertimos, Eliana e eu, repetindo palavras sem nexo que ele costumava falar quando tinha lá seus dois ou três anos. Acho que vai um pouco de saudade do tempo em que o tínhamos sob nossas asas poderosas e infalíveis, hoje ele está a cada dia mais solto, livre, senhor de si. Evidente que o criamos para ser assim, mas dói.

A novidade mais recente foi a namorada, uma teteia que me deixou orgulhoso de seu bom gosto, mas que também fez apitar o alarme da velhice, da vida que segue, do progresso inadiável daquilo a que chamamos tempo. De repente me pego falando sobre política ou filosofia com uma recém ex-criança e o cara, com seu um metro e oitenta e tals, já se sente credenciado a reivindicar uma cama melhorzinha, o que me põe a avaliar se não é hora de um quarto melhorzinho também.

O moleque que queria ser bombeiro e salva-vidas de piscina hoje tem bem sedimentada a opção pela medicina, que vai tentar em janeiro ou fevereiro do ano que vem, a depender do andar da carruagem da pandemia e dos restos do que foi um dia o Ministério da Educação deste país à deriva.

Ele já cresceu muito e quer continuar crescendo em outros sentidos, todos eles, sabe que tudo ao redor exige muito mais do que exigiu de mim quando tinha sua idade. 

Ontem nos demos o direito a uma espécie de rebeldia contra a disciplina algo rígida a que nos impusemos nestes tempos de isolamento e aportamos num foodtruck a poucos metros de nosso prédio. Um sanduba de responsa brindou o restinho de sábado com alguma leveza, parece que nossas almas ansiavam por algo do gênero. Falamos sobre viagens, lembramos os lugares que já visitamos e ele citou seu fascínio pelo Canadá, onde ainda não estivemos.

Fui para a cama algo incomodado, por realizar que esses momentos de gostosa interação vêm rareando ultimamente. Claro que o dia-a-dia de estudos e trabalho nos rouba muitas oportunidades, mas somos pai e filho com uma história gostosa demais para permitir a normalização de qualquer formalismo ou distanciamento entre a gente. Como a mãe dele estava em viagem, temos um ótimo pretexto para em breve incluí-la na repetição do programa, naquele ou em outro lugar, para celebrar essa atmosfera que sempre nos envolveu aos três e nos faz assim, unidos e queridos um do outro.

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