CONVICÇÃO

Meus primeiros momentos na auditoria da Caixa me reservaram um ensinamento em forma de puxão de orelha que carreguei para toda a vida funcional, e mesmo pessoal: “se você está lá para analisar, avaliar, testar, tem a obrigação de ser assertivo e comprovar tudo o que disser”. Isto porque produzi um relatório com a expressão ‘tudo leva a crer’, pegando carona nos hábitos de um colega que adorava colocar ‘fortes indícios’ e assemelhados em seus apontamentos.

A chefia foi clara: “se não tem certeza, não escreva sobre o assunto; mas, se teve a oportunidade de analisar, por que não tem certeza?”.

Meu chefe era conhecido pela alcunha (não sei se carinhosa) de Buffalo Bill. Exigente, honesto e leal, nunca soube contemporizar com malfeitos de seus subordinados, principalmente quando o quesito ética era ferido. Por outro lado, era aquele que apoiava sua tropa até o fim, mesmo nas situações de saia justa. Eu me lembro de na década de ’90 ter telefonado para ele de Cuiabá para informar que havia coisa esquisita na área (no nosso jargão particular, isto era sinônimo de corrupção). Ele perguntou: “você tem disponibilidade para apurar?”, respondi que sim mas informei que a questão poderia envolver ou espirrar numa ‘alta patente’ da matriz, ao que ele respondeu: “mete bronca, a gente escreve assim mesmo”. Assim foi feito, produzi minha coleção de mal traçadas linhas em forma de uma deduragem oficial, que foi por ele encaminhada e deu uma shit dos diabos nos gabinetes palacianos. Na época do Buffalo Bill fazíamos os relatórios sem medo de retaliações, encaminhávamos para a chefia e metíamos a mão no botão do foda-se. Era bom!

Parece que esse cuidado que sou tão grato por ter aprendido e incorporado ao meu modus vivendi não é compartilhado por todos. Li alguns documentos produzidos pela tal Força Tarefa de Curitiba. Além de ter achado que a redação poderia ser melhorzinha, deparei com um sem-número de ‘temos certeza’, ‘salta aos olhos’, ‘temos convicção’. Essas expressões retornaram na nova investida da turma contra os alvos de sempre, Lulinha à frente. Falta substância, talvez uma dose de técnica ou verdade, o fato é que já declararam à imprensa (ah, como gostam da imprensa!) as mesmas certezas que estão longe de constituir provas legalmente aceitas. Diabeísso, pensei. Buffalo Bill pagaria geral nessa turma, ele que vivia nos dizendo nas reuniões: “somos auditores, não pistoleiros; honestidade, senhores!”.

Então, é este o grande desafio: finalmente identificar algum elo entre lé e cré, de forma a dar credibilidade nesse imbróglio que deveria ser jurídico-policial mas se transformou em pistolagem político-midiática.

Permaneço na arquibancada, na cômoda posição de espectador dos próximos capítulos. Mas a tendência de achar que esses meninos mais uma vez vão ficar no achismo é muito grande, até porque um dos procuradores já deu entrevista avisando que “os fatos são bastante complexos”, “ainda não temos provas” e “temos que aguardar o resultado das buscas, amadurecer esta investigação”. Claro que toda investigação tem começo, meio e fim, tem suas fases, paciência e persistência fazem parte, mas a mania desses bravos rapazes – que já se fez presente neste novo episódio – de começar jogando no ventilador e só depois procurar reais evidências é de uma irresponsabilidade mastodôntica. Nesse meio tempo reputações podem ser assassinadas, como já ocorreu. 

Impunemente, diga-se. 

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NA ESCOLA

Meu filho estuda num colégio católico, dito confessional. Grande, enorme, muito bem estruturado, milhares de alunos do fundamental ao ensino médio, caro. Este ano a mensalidade ficou próxima de $ 2 mil, que paguei com muito sacrifício e também muitos sorrisos. Tem lá seus problemas como todos os outros, mas suficientemente pequenos para não abalar minha convicção de que vale cada centavo.

O nível de ensino, cobranças e provas é pesado, de vez em quando me pego morrendo de dó do moleque, mas ele demonstra gostar muito e seus livros e redações me convencem de que estamos no melhor dos mundos. Por um motivo principal, que gera os demais: a filosofia de ensino e convívio, bem como a visão de presente e futuro denotam gostoso humanismo.

Lá eles incentivam a camaradagem e a análise crítica, utilizam a figura de seu patrono Marcelino Champagnat para enfatizar as virtudes da generosidade e humildade, demonstram ter feito a opção preferencial pela formação de cidadãos, longe dos ambientes de competição predatória dos colégios que têm como meta principal – e talvez única – colocar seus alunos num curso superior. 

Uma das atividades extracurriculares oferecidas denomina-se HUB e se ocupa de, basicamente, botar a garotada para analisar o mundo em volta. Assuntos como ecologia, política, economia (em especial economia doméstica), cultura popular, educação, saúde, emprego, mazelas sociais brasileiras, racismo e demais preconceitos são objeto de discussão e análise. Essa atividade já levou os alunos a visitar e entender o funcionamento de uma estação de tratamento de água e esgoto, colocou-os frente a frente com um diretor da CEASA para tratar do desperdício diário e crônico de alimentos, apresentou-lhes uma escola pública e uma entidade de acolhimento de menores. Ao final do período determinado para a atividade, os pais e responsáveis são convidados a assistir a apresentação do resultado, que pode ter a forma de música, teatro, jogral ou um pouco de cada. 

Anteontem estive lá. Lucas e sua turma transportaram para a linguagem teatral a questão da (ausência de) acessibilidade no cotidiano das cidades, outros grupos trataram das desigualdades sociais e conflitos decorrentes, além de questões mais específicas, como a convivência crescente com imigrantes. Como convidados especiais, apresentaram três imigrantes haitianos, que contaram parte de sua história. 

Eu nunca saio do mesmo tamanho desse tipo de apresentação. Primeiro porque percebo que, por insistir em subestimar essa molecada, sempre tenho o espírito lavado pelo conhecimento que não sabia que eles detinham e pela consciência que duvidava haver naquele nível, considerando que a maioria esmagadora ali pertence à classe média alta. Também porque é sempre uma aula de empatia e cidadania, lembrando que, até onde observo, não há o menor sinal de censura aos assuntos eleitos ou às opiniões e forma de abordagem.

Ao final do ‘espetáculo’, cumprimento uma professora querida e papo vai, papo vem, chegamos à mesma pergunta sem resposta: como seria a reação da ‘plateia’ se os garotos abordassem a questão da fome no país (como fizeram na apresentação) perante os tradicionais patetas defensores da tal escola sem partido?

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SÓ PARA OS COMUNS DELES

O título é meio estranho, mas explico: tenho um vizinho de muitos anos que já morou nos States e há coisa de um ano ou dois foi-se para a Inglaterra trabalhar. Diz que não compensa trabalhar no Brasil, então deixou a família por aqui e foi se aventurar na terra da rainha.

Há três semanas eis que o encontro no empório do bairro. Papo vai, papo vem, pergunto se voltou por obra do Brexit e ele diz que não, só veio ver a família e pretende retornar ano que vem. Como eu estava meio apressado, comentei que tinha ido comprar uns chocolates e biscoitos para o Lucas se divertir durante o ENEM e precisava voltar logo pra casa. Foi quando começou o febeapá em versão não divertida, porque o cidadão parece ter voltado atacadão da Europa. 

“Pois é, se o Bolsonaro for fazer o ENEM com o Lula e a Dilma, termina a prova uma hora antes de eles começarem, e ainda assim vão roubar o gabarito”. Estranhei a gratuidade do comentário, o assunto era a série B do campeonato brasileiro, mas a metralhadora estava disparada: “O Wagner Moura, aquele comunista, tá morando em Los Angeles, logo ele que é comunista e detesta americano, tinha que ter ido pra Cuba”. Lembrei a ele que o ator e diretor brasileiro tinha sido convidado por um produtor a trabalhar por lá e não foi a primeira vez (detesta americano, onde você leu isso?), o que significa que ele é bom no que faz e motivo de orgulho para nós, já que direta ou indiretamente ele vai promover nossa cultura.

Pra quê! “Cultura é coisa de vagabundo, comunista, esse povo só quer mamar na Lei Rouanet, trabalhar que é bom, neca!”. A boca do cara ruminava um misto de baba e ódio, fiquei impressionado.

Avaliei os prós e contras, a balança não ficou muito equilibrada mas resolvi arriscar a pergunta mesmo assim: o que você entende por comunismo? “Comunismo é (sic) aqueles caras que só fazem as coisas para os comuns deles.” Então tá.

Claro que naquele momento o bom senso me implorava para ir embora, mas antes sugeri a ele que não voltasse para Londres, afinal o momento é bem propício ao combate ao comunismo e à vagabundagem no nosso país que agora voltou aos trilhos, e ele poderia se tornar um soldado essencial. Parece que ele não entendeu a ironia e se despediu com um sorriso.

Cheguei em casa meio esbaforido, meio estarrecido. Botei o Lucas e a namorada no carro e zarpamos para a universidade onde fariam as provas. 

Não pude deixar de comemorar intimamente o fato de que meu filho é estudioso.  

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O DEVIDO PROCESSO

Os três ou quatro últimos anos de minha carreira profissional como auditor da Caixa me deram a oportunidade de experimentar a arte da inquirição. Alguns a chamavam de inquisição, não discordo. Fato é que me foi dado presidir comissões de apuração de responsabilidade, o popular inquérito administrativo, o que me colocava numa posição de autoridade pela qual nunca me apaixonei.

As regras eram bem claras, pautadas nos normativos internos e, em especial, no Direito Administrativo. A gente frequentemente esbarrava também no Direito Civil e o desenrolar das ações nos levava a supor o que rolaria no âmbito penal. Claro que isso tudo exigia estudo, sempre gostei do assunto e isto ressuscitou uma velha cisma: por que diabos eu jamais estudei Direito?

Havia também normas comportamentais, além de outras tantas de caráter subjetivo, às quais eu me subordinava a fim de atingir o principal objetivo do trabalho, que não colocava em primeiro plano a satisfação do chefe ou da opinião em volta. Eu queria mesmo era não cometer injustiças.

Então, o trabalho consistia na apuração de fatos irregulares que foram observados, denunciados ou confessados, cabendo à comissão colher provas documentais e testemunhais, reduzir a termo os depoimentos necessários e finalizar a fase apuratória com a emissão de um relatório conclusivo. 

Eu diria que o normativo interno que disciplinava, à época, o trabalho de apuração de responsabilidade tinha o espírito de garantir ao acusado o direito à ampla defesa, o que se materializava no direito assegurado de acompanhar as oitivas de testemunhas e ao final formular perguntas via presidente da comissão. Podia, também, dar vistas ao processo e solicitar cópias de documentos sempre que achasse conveniente. Ao observar tais normas e por também demonstrar respeito ao colega acusado, os processos que presidi foram objeto de poucas interpelações e críticas do departamento jurídico.

As normas recomendavam, também, colher o depoimento do colega acusado sempre por último, com vistas a garantir que sua manifestação fosse realizada numa situação de pleno conhecimento de tudo o que foi dito por terceiros acerca dos fatos investigados.

Esta última recomendação sempre me soou meio redundante, já que eu entendia que quem enfrenta um processo da espécie tem que saber exatamente contra o que se defende.

Minha atuação nesse microcosmo me levou a achar bizarra a posição de alguns ministros do STF, ao entenderem que não há prejuízo numa acusação pós alegações finais da defesa.

Será que chegaram a ler o artigo 5º da nossa Constituição?

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DE CARONA

Como sempre faço nos finais de tarde, fui ao colégio buscar o moleque. Essa coisa de ensino médio tá pesada pra ele, tipo das 07 às 18, mas ele não reclama. Chegamos e encontramos dona Eliana digitando algo, pensei que fosse a preparação para um curso que vem fazendo mas na verdade ela estava soltando os bichos. Produziu uma teteia de texto no melhor estilo desabafo, gostei, perguntei se podia publicar de carona por aqui e ela deixou. Então, lá vai (diz aí se não sou um cara bem casado):

                                                        ==========o=========

Hoje acordei mais pensativa que de costume. O paradoxo da minha consciência retinindo no meu cérebro: como ser leve, otimista e feliz nesses tempos de cólera e insanidade? Minha alma sensível se contorce para caber nesse mundo doido e doído.

Caminhando alegremente pelo parque, ia apreciando as pessoas e seus animais, os pássaros, as árvores e arbustos. Encantando-me com a beleza das flores – quantas no chão! -, na incrível sucessão de ciclos da natureza. Mais adiante, um lago quase seco me trouxe de volta à nossa triste realidade: como o cerrado sofre na seca! Mas a visão daquele lago já quase sem água me trouxe à lembrança as cenas do jornal de ontem, que exibia cenas terríveis de matas e florestas sendo consumidas pelo fogo.

Não é só o cerrado que sofre. Todos os biomas que compõem este nosso país e este planeta tão rico têm sofrido miseravelmente e, junto com eles, esse tal de “homo sapiens”, esse mesmo que provoca o seu próprio sofrimento.

Toda a natureza grita; os pobres e desvalidos gritam; os tangidos pela fome e pela seca gritam; os povos indígenas e originários gritam; o planeta Terra grita. Mas o único grito que se sobressai é o grito dos poderosos de plantão, cuja ganância trabalha incansavelmente para nutrir mais um conflito que só a eles interessa.

Enquanto isso, a natureza vai sendo impiedosamente devastada e destruída e centenas de milhares de seres humanos morrendo todos os dias de fome. DE FOME! Numa época de fartura e excesso para muitos, milhões não têm o que comer! Também no Brasil, que bate recordes todos os anos de colheita de alimentos, a fome grassa! A criatura compassiva que habita em mim não compreende que se gastem bilhões com tentativas de se mandarem expedições a Marte enquanto não temos sequer o mínimo para todos no nosso planeta.

A ambição desmedida também envenena nossa comida, nos tornando mais doentes. Mais doentes, lucra ainda mais a indústria farmacêutica que não se interessa em promover a cura, mas em perpetuar a doença e a dependência dos remédios.

A mim, parece óbvio demais que estamos numa época de selvageria programada e incentivada e não conseguimos reagir! Assistimos passivamente nosso país sendo engolfado por uma espécie de surto de insanidade coletiva, que leva as pessoas a simplesmente ignorar as temeridades que estão sendo praticadas por esse governo destrambelhado e mal intencionado!

Agora, o tom normal é o do ódio, do deboche, do achincalhamento, da afronta à ciência e a tudo o que há de civilizado. A família em primeiro lugar, mas a família de quem? Os valores tradicionais têm que ser mantidos. Os valores de quem? As pessoas de bem precisam de armas para se defenderem. Pessoas de bem ou pessoas “com bens”? Pela vontade dessa gente de “bem” os negros voltariam para a senzala. O amor entre duas pessoas do mesmo sexo não pode, mas a tortura pode! A hipocrisia é a nova normalidade. A maldade é a nova lei. Terrivelmente Cristão, não é mesmo?

Triste, deprimente o meu desabafo? Sim, mas talvez seja meu modo de não ser engolida por essa máquina de fazer malucos que se tornou nossa nação e grande parte de nosso planeta.

Minha veia de artista em que pulsa o amor pela arte clássica gostaria de só expressar coisas belas, harmoniosas, coloridas, mas também o artista precisa expor as mazelas do nosso mundo. Os grandes mestres da pintura conseguem colocar nas suas obras toda a tristeza, revolta e frustração em redor. Mas hoje eu, simples mortal, não consigo!

                                                                                                                  Eliana de Almeida A. Veloso

                                                                                                                               Goiânia, 14/08/2019

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UMA EXPERIÊNCIA COMPLETA

Lembrei-me de um tempo em que a empresa, ainda sem a primeira sílaba fruto de um casório de interesses, era comandada por um certo Rolim. Comandante Rolim.

O cara era fera, um fenômeno de visão empresarial. Inventou de colocar tapete vermelho no acesso à escada de embarque e desembarque das aeronaves, criou a sala vip com canapés ao som perfeito de uma banda de jazz e mpb em Congonhas e me mandava cartão de aniversário todo ano, assinado por ele. A então TAM tinha poucos anos de vida nos céus tupiniquins, mas ganhava mais e mais clientes da concorrência. Até que, num triste e trágico 08 de julho de 2001, li a notícia do falecimento de Rolim Adolfo Amaro, vítima de acidente de helicóptero.

A partir de então a TAM passou por processo de desalentadora metamorfose até virar algo igualzinho às demais empresas aéreas, e dizem que tal fenômeno se deve a uma certa modernidade. Foi quando a galera dos MBA da vida, aproveitando o vácuo deixado pelo comandante, chegou tomando conta e abusando dos jargões da moda, 5S, agregar valor, team building, networking, gap, benchmarking, resiliência, sinergia. O ápice do chique era se declarar workaholic.

A primeira providência foi diminuir o espaço entre as poltronas, e que se dane a galera acima de um metro e oitenta. Tentaram me convencer da adequação dessa medida afirmando que era uma tendência mundial. Não convenceram, mas não adiantava arriscar a Gol ou qualquer outra empresa, era tudo igual. Tipo posto de gasolina, onde até os preços são praticamente univitelíneos.

Parece que bateu alguma vergonha, daí não terem adotado a próxima medida moderna simultaneamente, mas as companhias aéreas resolveram num belo dia nos brindar com o fim do chamado serviço de bordo, que já não era uma brastemp. Quem quisesse algo além de água, teria de pagar. É no mínimo um grande desaforo pagar 15 paus por um sanduba meia boca, mas a empresa se defendia dizendo que havia a possibilidade de redução das tarifas. Ah, bom!

Deu certo, passou o tempo e a turma se acostumou a comprar o lanche ou se contentar com o saquinho de biscoito que trouxe de casa. A tarifa não diminuiu.

Como funcionou bem a traquinagem, o próximo passo foi cobrar um extra por poltronas pré-determinadas, não por acaso com mais distância em relação à da frente e bem parecidas com o que era antes. No melhor estilo ‘se colar, colou’, mas como de costume não reclamamos nem boicotamos e aí passou a compor os luxos oferecidos.

A mais nova investida é a cobrança pela bagagem despachada, iniciada – acho – em junho de 2017. Pensa numa medida que, de tão antipática, deveria levantar a questão nos escritórios da empresa: vale a pena?

Mais uma vez a desculpa de que é prática internacional e mais uma vez o melzinho na chupeta na forma de uma possibilidade de redução de tarifas. Que mais uma vez não se confirmou, bien sûr. E assim as coisas vêm fluindo (a alternativa às nacionais é uma tal Avianca, alguém se arrisca?), li ontem na Folha que uma moça ficou parecendo um astronauta de tanta roupa que vestiu uma por cima da outra, para se livrar de uma continha de quase 400 reais de taxa de bagagem.

Ao longo de 2018 as passagens aéreas foram reajustadas em 16,9%, mesmo com as empresas desobrigadas de servir um lanchinho com coca-cola, nos espremendo entre poltronas e cobrando pelo despacho das bagagens. Aí vem a Latam e me envia um e-mail me convidando para fazer da minha viagem uma experiência completa.

Não fora eu praticamente um Lord, tê-los-ia mandado à merda.

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DE NOVO

Aconteceu novamente, e o número de zumbis parece assustadoramente maior do que eu imaginava.

Meus cumprimentos a essa gente de bem.

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NA CLÍNICA

Seguindo orientações de minha endocrinologista de estimação, resolvi fazer uma visita de cortesia ao nefrologista. Meus últimos exames indicam que algo não anda jogando por música na região dos rins.

Como a minha porção majoritariamente otimista nunca considera a possibilidade de encarar um chá de cadeira de algumas horas, cheguei esbaforido em cima da hora, crente que estava atrasado.

Apertei o botãozinho azul e puxei a senha: 244. Vi que o atendimento estava ali por volta do 228, foi quando notei que deixei o celular em casa, o que significava que não teria muita diversão até ser chamado. O primeiro atendimento era para, segundo a terminologia consagrada, “fazer a ficha”; o chamado para o consultório do médico é outra história, calma aí.

Vagou uma poltrona, sentei, ao lado de uma senhora da cara ruim. À nossa frente uma TV, ligada na – claro! – Globo, estava passando o programa da Fátima Bernardes. Considerando o dia de hoje, os temas eram só tragédias: o massacre de ontem em Suzano-SP e o aniversário de morte de Marielle e Anderson. A mulher da cara ruim começou a abrir a caixa de ferramentas:

– Já falei para o Dr. Heitor substituir essa secretária velha, ô mulher lerda, meia hora pra atender uma pessoa! Velha mesmo, não tem essa de terceira idade, é V-E-L-H-A, que nem eu! E molenga!

Calado estava e fiquei, faz tempo que não desperdiço minha santidade com gente triste. Não deu cinco minutos, eis que a mulher da cara ruim volta ao ataque, desta vez aproveitando o tema da TV: “Não aguento mais ver essa Marielle, só porque morreu, tanta gente morre todo dia e ninguém fala nada, se estivesse quieta não tinha acontecido nada, ela é da turma da maconha, e eu nem sei se é mesmo mulher!”. Calado permaneci, mas é possível que tenha deixado escapar um sorriso de canto de boca em homenagem à pobreza de espírito da criatura.

– O senhor acha que eu estou exagerando?

Partindo do princípio de que quem pergunta quer saber, satisfiz a curiosidade da mocreia: “acho que a senhora passou da idade de ter conserto”.

Silêncio lá e cá.

De repente chega a hora da minha senha e me encaminho serelepe para ser atendido pela secretária velha e molenga. Chama-se Tânia e é muito simpática. Logo volto para a poltrona, mas escolhi outra.

Ao meu lado um senhorzinho com um smartphone de responsa, tipo 5,5″ de tela, mostrando um vídeo com um maluco dando pauladas em carros estacionados na rua. Caí na besteira de perguntar do que se tratava: “é um desses muçulmanos do Marrocos, olha aí, se fosse no Brasil já tinha levado peia, mas lá na Europa (sic) tem essa coisa de direitos humanos, os caras fazem o que querem e ninguém pode falar nada, senão vão dizer que é islamofóbico e aí é processado, então os caras impõem a religião deles, as leis deles blá blá blá”. Comentei que era mais ou menos como no Brasil, com os evangélicos querendo impor a religião deles, as leis deles, a moral e os bons costumes deles. Pra quê!

Silêncio lá e cá de novo. E ainda demorou um bocado para o médico me chamar.

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SÓ LAMENTO

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IMAGENS E MITOS

De vez em quando me bate saudade do tempo em que saía por aí, violino ou violão a tiracolo, para fazer barulho ao lado dos amigos de sempre. Fosse um simples recital da escola, um show ou cantata de Natal, arrancar som de um instrumento sempre me deu um prazer sem tamanho.

Durante um tempo Jane, minha maestra e cúmplice, regeu o coral de uma igreja evangélica na vizinha Trindade, a uns 30 km da minha casa. Eu participava com o violino, já que cantando não faria nem o do ônibus. Há uns 15 ou 20 anos foi agendada uma apresentação de Natal e fizemos um monte de ensaios dentro da própria igreja. O repertório era a regra para esse tipo de evento, algumas músicas-chiclete, um pouco de Bach, um Beethoven aqui, uma Simone ali, e ao final ficou uma miscelânea bonita e agradavelmente homogênea.

A apresentação seria em praça pública, num local especialmente preparado pela Secretaria de Cultura do município, promotora do evento. O secretário era um espetáculo à parte, entusiasta até a medula de tudo o que dizia respeito à produção cultural local, que não é pouca. Fizemos nossa apresentação, o povo aplaudiu adoidado e o secretário de fato tinha ido com a nossa cara. Acabou nos convidando para conhecer as instalações da secretaria e uma espécie de museu cultural de Trindade.

Em que pese eu ser um agnóstico de carteirinha e a galera do coral ser totalmente evangélica, nunca tivemos um único conflito. Principalmente porque sempre nos ativemos à música, religião não era pauta.

O museu da Secretaria de Cultura de Trindade era bem amplo, com obras distribuídas por cômodos e saletas, por tipo, autor e época de produção. Ali havia exemplares de livros diversos, partituras, instrumentos musicais, quadros, cartazes alusivos a peças teatrais e até mesmo uma convocação à população para fazer figuração num filme dirigido pelo grande João Bennio (que me atrevo a chamar de Glauber Rocha de Goiás) que teve local nas ruas da cidade.

Até que… bem, falou mais alto a dificuldade enfrentada pelos evangélicos desde sempre em diferenciar arte de religião. Numa das salas se encontravam diversas esculturas feitas por artistas plásticos trindadenses, boa parte representando animais ou bustos. Foi o suficiente para o vade retro tomar conta de muitas das cabeças e consciências do coral, e de nada adiantaram meus argumentos de que estávamos diante de obras de arte, que nada daquilo representava Maria ou São Cripoquó.

O mais ‘sensato’ que ouvi foi “eu sei, mas mesmo assim me causa mal estar”. Ponto.

Sempre me dei bem com aquela galera e não seria esse fato isolado capaz de estragar tudo. Citei especificamente os evangélicos porque era o caso, mas analiso católicos, espíritas e até mesmo aquela turminha lá longe que adora detonar uma bombinha e sempre chego à conclusão de que não ter religião é o canal. Prefiro assim, desconfio que seria uma pessoa muito triste se fosse “um deles”. Minha noção de liberdade talvez tenha dimensões mais amplas.

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EM CAMPANHA

O período de eleições representa sempre uma oportunidade de emprego. Seja para o candidato em busca de um empregão da porra, seja para seus futuros auxiliares, aspones e penduricalhos. Mas também não podemos esquecer aquela galera que tá ali para de certa maneira tentar me convencer a votar na criatura. São aquelas que abordam o eleitorado nos semáforos, entregam adesivos ou simplesmente chacoalham as respectivas bandeiras a troco de um troco.

Na volta do colégio do moleque, hora do rush, a cada cruzamento observamos movimentos da espécie. Lucas matou a charada: esse pessoal tava desempregado, pai? A tentação era responder que não só estava como ainda está, já que a campanha acaba logo. Mas o papo fluiu sobre a provável situação sócio-econômica daquele povo, que se viu compelido a aceitar esse trabalho mesmo sem necessariamente acreditar em quem os contrata. Bastava ver que a imensa maioria demonstrava no semblante o mesmo entusiasmo dos funcionários da Havan, naquele episódio patriótico que rolou nas redes sociais.

Quando sou abordado, jamais adoto postura agressiva contra os cabos eleitorais, mesmo que estejam a serviço do coiso. Compreendo sua situação, não acho que por ter estudado menos ou se preparado menos essas pessoas mereçam ser tratadas de forma diferente ou indigna, pelo contrário. Minha matrícula no primeiro curso superior se deu aos 28 anos de idade, porque até então o trabalho (a necessidade de grana, melhor dizendo) falava mais alto. E só ocorreu porque naquele momento o meu trabalho me permitia o investimento. Quem garante que aquelas pessoas tiveram as mesmas chances que eu?

A semana estava sendo bem pesada para o moleque, com prova todo dia, período integral e quase sem tempo para a deliciosa arte de ficar à toa. Faz tempo já que não desce pra bater uma bola, a molecada às vezes o chama mas está sempre às voltas com preparação para prova, teste, simulado. “No fim de semana eu tiro o atraso”. OK.

Vez por outra dou uma passadinha em frente ao quarto dele e o vejo na bancada, rabiscando, estudando, de certa maneira envolto numa espécie de campanha particular. Não política, mas pessoal e profissional. Ele quer ser médico e sabe que para isso precisa de muitos ‘votos’, por isso dignifica o custo dos estudos que felizmente sua mãe e eu podemos bancar. 

Domingo tem piscina.

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CHEF

– Pai, como se descongela isso?

“Isso” era um simpático pedaço de barriga de porco (sorry, vegetarianos) que Lucas resolveu transformar em torresmo. O relógio denunciava a madrugada, mas era sexta-feira, aliás sábado, quem nunca?

Até então essas incursões na cozinha contavam com minha supervisão, normalmente era eu quem encarava o óleo quente quando rolava batata frita, mas desta vez o carinha resolveu ser o chef de fato e de Direito. “Pode deixar que eu faço”. Ok!

Só dei uma dica de como distribuir o tempero e vazei, imaginando como o fogão amanheceria e, principalmente, como dona Eliana iria receber aquela dádiva pela manhã. Geralmente ele limpa tudo, mas limpar direito não é bem a especialidade. Da sala de TV, onde eu assistia a sei lá o que, dava para ouvir o som de fritura misturado ao do exaustor. Já era uma da manhã e o elemento cismou que podia cantar enquanto sua obra-prima não ficava pronta.

De repente, eis que ele adentra à sala trazendo uma bandeja cheia de colesterol em sua forma mais linda e apaixonante, me oferece a metade e eu só me permito dois ou três pedaços. Crocantes e deliciosos, diga-se.

No que amanhece a esperada e justa bronca pelo fogão emporcalhado se fez sentir. Mas a alma não é pequena, Eliana não só sabe disso como concorda com o Pessoa e, como sempre, nos brindou com o tradicional e generoso olhar “tamujunto” que costuma acompanhar nossas incursões em terrenos pouco frequentados.

O moleque, aliás, parece querer incluir o manejo do fogão no seu rol de talentos, se considerarmos o lagarto assado que ele cometeu recentemente.

Já que o assunto é cozinha e somos muito valentes frente à ameaça do colesterol, lembrei-me que faz um tempão que não produzo um bom hamburger. Amanhã é sexta de novo. Vai que… né?

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UMA PERDA E VÁRIOS DANOS

Era um sábado qualquer, Lucas iria à festa de aniversário de um dos muitos amigos no quiosque do próprio condomínio e em seguida partiríamos para outra festa, em Anápolis. Também aniversariava sua tia e madrinha Simone, e combinamos de comemorar com a família e amigos no restaurante do Chef Lúcio, meu cunhado.

Chegamos por volta das oito da noite, e logo em seguida Lucas recebeu a notícia da tragédia: outro amigo residente no condomínio, o Batata, havia despencado do 16º andar. 

Não conseguimos dormir direito aquela noite. Além de ter sido uma morte horrorosa, tínhamos muito carinho pelo moleque, que até cerca de dois anos atrás vivia lá em casa. Depois disso sumiu, eu mal o via no prédio e soube que passou a viver recluso, a ponto de um dia expulsar de casa os amigos-vizinhos que foram lhe fazer uma visita. Nunca mais o vi na quadra com os outros garotos.

Voltamos para casa domingo depois do almoço e fomos, Eliana e eu (Lucas estava chocado demais) até o cemitério onde se realizava o velório. Ante a impossibilidade de dizer algo de útil aos pais, nós nos limitamos a abracá-los em silêncio. Em seguida, retornamos.

A morte tem o dom de me fazer sentir abandonado. Fiquei remoendo aquele misto de tristeza e incredulidade pela perda de uma vida que ainda não tinha completado 14 anos, mas o dia amanheceu e era segunda-feira, tentei me manter o mais ocupado possível buscando em vão focar o pensamento em meus afazeres.

Às cinco da tarde apanhei Lucas no colégio e notei que ele entendeu que prosseguir é obrigatório. Agora há pouco ele desceu para a área de lazer e se juntou com a galera. Fiquei surpreso ao ver a imagem daqueles meninos e meninas sentados no chão do quiosque onde foi a festa de sábado, em círculo. Deu vontade de descer e falar alguma coisa para essa garotada recém-chegada ao planeta e já tendo que enfrentar essa realidade agridoce, mas achei melhor recolher o trem de pouso e respeitar a homenagem que faziam ao amigo Batata, era o momento deles. Soube depois que alguns adultos estavam lá, ajudando a digerir aquela catarse coletiva, e fiquei agradecido porque o mais importante havia sido dito: ninguém é culpado.

Para cego ver: imagem da área de lazer do condomínio onde eu moro. Ao fundo, sob um telhado, os meninos sentados em círculo buscando entender a tragédia.

Já me passou pela cabeça me mudar daqui, ir para uma casa com quintal, cachorro e churrasqueira, mas não ouso privar meu filho da companhia e convivência com essa turminha tão unida e quase sempre feliz.

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FAMÍLIA UNIDA

Juntando os tios, tias, sogras e a meninada eles somam 14 pessoas. Resolveram alugar uma casa, grandona, de frente pro mar. Alegria. No primeiro dia a festa era uma unanimidade aparentemente à prova de conceitos e teorias rodriguianos: churrasco, cervejada, com o funk e a sofrência ditando os rebolados até altas horas.

Amanheceu e foram à praia já com o dia alto, se sentindo injustiçados por uma ressaca braba, mas os meninos não queriam nem saber, quem mandou beber aquilo tudo?

A matula que levavam era composta do iogurte dos catarrentos, a banana do juninho (só duas) que tem intolerância a tudo que termina em ‘ose’, aquele monte de ray-ban falsificado, alguns litros de suco Maguary e muita, muita cerveja. Aí, entre um queijo coalho daqui e uma (argh!) ostra dali, bateu aquela vontade de comer algo mais substancioso. Foi o começo do festival de beicinhos.

Uma das sogras queria peixe, a outra tem nojo. Só isso já serviu pra dividir a galera em Gaviões da Fiel e Mancha Verde, porque clã é clã e ‘a minha mãe nunca sai de casa’/’a minha também não’. A paz parecia ter retornado após perceberem que dava para conciliar o peixe com bife, para desgosto de uma tia velha que, não contente em ser pobre de marré-marré-marré, há alguns anos resolveu abraçar a vida vegetariana. Teve que se virar com moqueca de cenoura, açaí e crepe.

Só que um cunhado resolveu fazer as contas de quanto poderiam gastar por dia e viu que já estavam à beira do passivo a descoberto. Então opinou por pedirem apenas a mandioca cozida, ao que o outro cunhado retrucou dizendo que só comia mandioca frita. Mais discussão, um lado venceu e a parte perdedora resmungou algo sobre uma certa primeira sílaba. Nem pareciam mais aqueles ‘brothers’, que na véspera tomaram conta da fraldinha na churrasqueira na mais perfeita harmonia.

À noite a amizade já não era aquela coisa absoluta, mas a convivência seguia sem traumas.

Resolveram fazer um passeio no dia seguinte, daqueles em que um micro-ônibus apanha a turma de manhã e só devolve à noitinha. ‘Resolveram’ foi força de expressão, porque as sogras e os meninos impuseram aquele programa de índio, nem aí se os pagantes teriam que cometer uma pedalada fiscal pra bancar os 40 paus por cabeça. A conta acabou ficando ainda mais alta, porque uma das sogras, um neto e a mãe do outro tiveram um piriri dos diabos e o jeito foi chamar quatro táxis e voltar. “Bem que eu falei que aquele camarão azul tava esquisito”.

No outro dia só foram à praia para dar um mergulho e voltar, o dinheiro do dia tinha sido gasto na véspera. Fizeram um almoço meia boca por lá mesmo, à noite rolou sanduba.

A casa foi alugada por uma semana, pagaram um sinal um mês antes e teriam que quitar o restante até o terceiro dia de estada. Nova encrenca, porque de repente baixou o espírito de contador no cunhado mais velho, que resolveu falar em cota-parte. O que seria meio a meio passou a ter valor maior para o outro, porque “a despesa extra com táxi foi por causa da sua sogra e da sua mulher”. De nada adiantou retrucar que a sogra e a mulher eram, na prática, a mãe e a irmã dele. Foi curto e grosso: “dane-se, foi você quem trouxe”. Ante o argumento de que sua esposa não bebe e que a maioria das cervejas foi ele quem destruiu, deu de ombros: “não bebeu porque não quis; tava aí!”

A esta altura, os únicos que ainda se falavam eram os meninos. Os cunhados só se comunicavam por meio das respectivas esposas e se referiam ao outro como ‘aquele bostinha’ e ‘pé inchado’, uma sogra chamava a outra às escondidas de ‘véia cagona’ e o clima ficou pesado. Só não foram embora antes porque acharam “desaforo pagar tão caro e deixar tudo de mão beijada para aquela gentalha”.

No caminho de volta falaram algo sobre repetir o programa no ano que vem.

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NAS COSTAS DE QUEM, CARA PÁLIDA?

De vez em sempre eu me sento na cama com Lucas, meu filho, e juntos debulhamos seus livros e cadernos para estudar para a prova – dele – do dia seguinte. É legal porque, ao mesmo tempo em que avalio o que ele já sabe da matéria, aproveito para inserir exemplos práticos para ilustrar o assunto e fixar o aprendizado. Frequentemente acabo aprendendo junto.

Semana passada o assunto, em História, era a política do café com leite. Sempre rolou promiscuidade na política brasileira, na época a moda era o loteamento do Brasil para a curtição exclusiva de paulistas e mineiros. O combinado era assim: hoje eu sou o presidente, mando em tudo, amanhã é a sua vez.

Essa prática gerou e perpetua alguns aspectos da realidade nacional. Claro que, se a detenção do poder era direcionada, os benefícios também tinham endereço certo. Num dado momento parece que a mineirada bobeou e a paulistada usou de toda esperteza (neste contexto o substantivo não é um elogio) e acabou abocanhando a picanha e deixando o coxão duro para a galera do uai.

O resultado disso foi a concentração industrial na pauliceia, que foi construída também à custa do trabalho de forasteiros, principalmente nordestinos, que migraram para o sul maravilha para não morrer de fome.

Enquanto tudo isso acontecia, o Brasil inteiro permaneceu pagando impostos e pouco recebendo em troca, já que as políticas públicas também eram direcionadas. Não havia política industrial fora do eixo do poder, obras de interesse de comunidades inteiras eram condicionadas a sobras orçamentárias, políticas efetivas contra a seca no sertão nem pensar (até porque o êxodo forçado era uma boa fonte de mão-de-obra barata e subserviente).

Nos dias atuais, parece que persiste com força o esporte preferido da Av. Paulista, que é dizer que São Paulo carrega o Brasil nas costas. Eu nasci lá, sei bem como é isso. A gente cresce ouvindo esse discurso meia boca, somos a locomotiva do Brasil, aqui tem de tudo, os outros são atrasados. Aí vira e mexe surge uma onda separatista, ataques preconceituosos contra os imigrantes – nordestinos à frente – e as já tradicionais demonstrações de soberba, não sei bem se por ignorância histórica ou pura má vontade.

O fato é que durante a tal política do café com leite São Paulo se sentia bem confortável montado nas costas do Brasil, mas agora demonstra não estar muito à vontade com o bafo na nuca.

É a volta do cipó de aroeira, diria o Vandré.

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